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Björk e Arca trocam cartas em nova edição da i-D Magazine



Para a edição em comemoração ao 40º aniversário da revista iD, Björk e Arca compartilharam cartas profundamente pessoais, que escreveram uma para a outra. Nos relatos, elas falam sobre a natureza da família, seu relacionamento especial e em constante evolução; e a obra criada a partir disso. 

As duas se conheceram em setembro de 2013, logo após o último show da turnê de Biophilia. Arca estava fazendo um DJset na festa nos bastidores. De cara, se deu muito bem com Björk e dançaram a noite toda. Com a amizade já fortalecida, a artista e produtora venezuelana foi convidada para colaborar no próximo álbum da islandesa, Vulnicura (2015). Juntas, elas também embarcaram na turnê do projeto, antes de se unirem novamente para criar o disco Utopia (2017). Em diversas entrevistas ao longo dos últimos 7 anos, Björk descreveu a parceria com Arca como o relacionamento musical mais forte que já teve. 

Segundo Arca, Björk é uma pessoa “mergulhada em sua profundidade e multiplicidade. Simples, confusa, transcendental, alegre, sedutora, fraterna, emocional e misteriosa". O companheirismo delas evoluiu naturalmente para, ao que parece ser, uma figura materna com sua protegida. De igual para a igual, como irmãs. 



De Björk para Arca:

"Querida amiga exuberante, achei que talvez uma boa maneira de começar essa nossa conversa seria lembrando da letra de Future Forever. Também estou aberta a quaisquer outras coordenadas iniciais que você queira invocar, pular ou adicionar. Essa canção foi escrita logo após nosso glorioso jantar naquele restaurante ao lado da casa de Frida Kahlo, na Cidade do México, lembra? Era verão de 2017. Naquele ocasião, falávamos sobre esperança e a capacidade das mulheres de tecerem "ninhos" em suas vidas. Discutíamos que é um talento feminino, criar esse ambiente em torno de suas famílias, sendo de sangue ou não. Construindo algo bom em todas as ligações, e fios entre membros. Isso então se torna a "estrutura" na qual vivemos. 

Daí, começamos a falar sobre nossas mães e como, de alguma forma, muitas mulheres possuem uma quantidade limitada desses "fios emocionais", que podem carregar diferentes tipos de forças. Por exemplo, em algumas situações, só contam com um único fio para cuidarem de um ou dois "ninhos" em suas vidas. Enquanto isso, outras parecem contar com uma quantidade ilimitada. E então falamos sobre como, de alguma forma, às vezes, é mais fácil para "a energia masculina", ser um "visitante", entrando e saindo rapidamente das situações, que para as mulheres, surgem de um doloroso processo de reparo antes que novas relações sejam constituídas. Enfim, chegamos a conclusão de que não é uma questão de erros ou acertos, mas apenas uma experiência de tempos diferentes". 
   
Future Forever: "Imagine um futuro e esteja nele. Sinta essa incrível nutrição, mergulhe nisso. O seu passado permanece em looping, desligue-o. Veja este futuro possível e esteja nele. Mantenha-se firme para o amor, para sempre. Somos apenas como navios passageiros, estamos somente carregando-o. Gire a sua cabeça, guie o seu olhar para outro lugar. O seu amor já está te esperando, você já está nele. Mantenha-se firme para o amor, para sempre. Me veja formar novos ninhos, tecendo uma cúpula matriarcal, construindo uma ponte musical entre dormir e acordar, entre o dia e a noite, entre a noite e o dia. Você diz que faço refletir nas pessoas as suas próprias missões. Mas agora, você espelha em mim quem eu costumava ser. O que eu doei ao mundo, você está dando me dando de volta. Mantenha-se firme para o amor, para sempre". 




"Quando leio a letra dessa música, também enxergo uma série de pequenas dicas, como costumo colocar em meu trabalho, por exemplo: "Estamos apenas carregando-o" é uma referência a algumas rainhas que conheci na minha vida, que diziam repetidamente, como um elogio: "Ela estava carregando", quando falavam sobre uma batida musical incrível, um passo de dança, um filme, uma boa casa ou o que quer que seja. Senti que essa é uma referência feminina, sobre ser esse navio do qual eu falava. Essa ambição (musical) não é sobre quem é o melhor. Também vejo nessa canção que as alusões que fiz, como "dia e noite", "trauma e reparo", a lacuna entre "adormecer e o momento de acordar"... Tudo isso é uma montanha gigante, que é difícil de se atravessar. E a música em geral, pode ser uma ferramenta muito útil para enfrentar esse caminho, se for bem "tecida". Future Forever é uma tentativa de ser isso. 

Também estou super sentimental sobre esse último verso. Provavelmente, para mim, tem mais significado do que todo o resto do álbum. Tenho vergonha de "soletrar" essa parte, mas é simplesmente tipo: "Eu te amo muito, sou eternamente grata pelo seu dom de musicista, que você me oferece". Eu estava em um momento da minha vida em que sentia que a monogamia havia sido retirada de mim. E então a monogamia na música foi oferecida a mim, como um milagre. O timing disso foi alucinante. 

- Com entusiasmo, Birch (Bétula - um tipo de árvore)". 

De Arca para Björk:

"Querida Björk, quero lhe agradecer por estar comigo, nesta edição de aniversário da i-D. Isso significa muito! Lembro-me de uma vez que discordávamos sobre algo (o conflito é justamente um sinal de que existe um relacionamento real). Eu havia mencionado, quase indignada, que tinha sido uma espécie de mãe para você, e fiquei furiosa por ter dito isso. Mas você me respondeu: "Nós cuidamos uma da outra". Naquele momento, senti como se uma venda tivesse caído dos meus olhos, pois te enxerguei como uma irmã, ao invés de me agarrar à ideia de que eu tinha apenas que lhe admirar. Penso que isso me ajudou a entender a maternidade de uma nova maneira, como em uma família que nós podemos escolher. Tive outras figuras maternais em minha vida, que agora vejo como pessoas iguais em seu yin e yang. Lembro do nosso jantar no México, em um restaurante cheio de glamour. Eu me diverti muito naquela noite! 

Falamos sobre diferentes tipos de liderança. Uma delas trata de cumprir uma meta, como executar um projeto criativo carregando a visão de um autor, coordenando a equipe com direção e insistência, mas em uma postura aberta. A outra funciona como um útero, na qual a criação é baseada em um "clima amniótico". Assim, todos podem se sentir seguros para se abrirem e se expressarem de uma forma mais colaborativa. Um ecossistema super fértil. Nós até concordamos que existe tempo e lugar para ambas essas formas de se trabalhar. 


Em resposta à parte de sua carta sobre certos gêneros terem mais ou menos capacidade de "carregar" ou "hospedar", de tecer um "fio emocional", em virtude da família: Não vejo isso como preto e branco. Acho que nunca pensei assim, muito menos agora. A cada dia que passa, vejo o Binário como algo que pode ser útil como uma referência, mas não necessariamente tendo qualquer importância essencial na vida psicossexual de um indivíduo. Quanto mais a pessoa está consciente de sua anima e de seu animus, menos fica sujeita a pensar que certos prazeres ultrapassam seus limites, ficam menos sujeitas à vergonha. Falando de anima e animus, pego emprestado os termos junguianos para explicar que cada homem tem um homem e uma mulher dentro de si, assim como cada mulher tem uma mulher e um homem dentro delas também. 

Por exemplo, temos o Complexo de Édipo, que basicamente fala sobre "matar o pai e fazer amor com a própria mãe". E ainda existe o Complexo de Electra, sendo o inverso. Proponho um novo tipo arquétipo, um que nunca ouvi falar antes: a figura de Electra Rex, que mata a mãe e o pai, e faz sexo consigo mesmx. Acredito que Electra Rex possa permitir um ser que é capaz de circular entre a submissão e o domínio, que pode penetrar e também ser penetradx. A possibilidade de interpenetração sem às custas de um útero biológico, sua sexualidade é delx próprix. Por exemplo, eu me pergunto como seria um núcleo familiar que surge a partir de uma mãe com um pênis, ou um pai grávido, sabe. Digo isso porque já é possível! Todos nós podemos "acessar" Electra Rex e buscar o prazer livre dentro de nossos corpos mutantes, cada um de nós. 

- Com amor diante do desconhecido, A". 

Matéria Original: Frankie Dunn. 
Fotos: Mert Alas e Marcus Piggott. 

Sobre as lindas imagens, Björk escreveu nas redes sociais: "Tenho orgulho de compartilhar isso com todos vocês. Foi com Arca que tive uma das colaborações musicais mais mágicas da minha vida. Vínhamos evitando capturar tudo isso em uma imagem, pois cristalizar dessa forma é assustador. Não há como tentar capturar em uma foto aquilo que sentimos em nossos corações, mas acredito que os magníficos Mert e Marcus dominaram essa situação e foram maravilhosos, especialmente porque um certo vírus garantiu que fizéssemos essa sessão de três países diferentes. Espero que parte do nosso espírito tenha se comunicado com vocês também". 

Arca postou: "Irmãs musicais gêmeas em simbiose nessa capa da i-D. Obrigada Mert e Marcus, por capturarem nossos espíritos com tanta sensibilidade e diversão. Obrigada Björk, por sua abertura, magia, cuidado, confiança, risos e por me ter ao seu lado. É sempre uma honra, Eu te amo!". 

Os fotógrafos publicaram: "Há exatamente 20 anos, fizemos fotos de Björk para a i-D Magazine. É um verdadeiro prazer poder registrá-la novamente, com outra grande artista, Arca, que não é uma constelação, mas um universo!!! Tudo isso de forma remota, de três países diferentes. Conhecemos Björk em uma pista de dança, por volta de 1994, em Londres. Dançamos, rimos, criamos imagens juntos por muitos anos! Esse reencontro foi muito emocionante e maravilhoso!". 

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