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Resumo da entrevista de Björk para o podcast da Red Bull Music Academy

 
Björk é convidada de estreia em novo podcast da Red Bull Music Academy: A série "Couch Wisdom" está disponível com palestra da cantora islandesa gravada em 2016, na edição da exposição "Björk Digital" em Montreal, no Canadá. Ouça aqui. Separamos os principais trechos da conversa da islandesa com a jornalista Emma Warren:

DJsets: A cantora acredita ser a pior DJ que existe. Ela destaca que um ponto forte desse seu talento seja o seu lado "nerd musicólogo": "O que eu gosto de fazer é proporcionar uma jornada que começa em um lugar e depois se estende a outro. Acredito que sou espontânea quanto a forma como eu faço a transição das músicas, pois realmente as organizo muito bem. Escolho todas elas previamente, mas a mudança de uma pra outra e em que ponto isso acontecerá é decidido na hora. Eu também gosto de desenvolver alguns pequenos temas. Ontem eu estava usando muitos sons de pássaros vindos da Venezuela, que David Toop gravou, na verdade, nos anos 70. (...) Eu gosto dessa ocasião meio diurna, onde você ouve e pode tocar várias músicas, e depois tomar uma xícara de café. Começando com uma sessão mais lenta, e em seguida gradualmente, adicionando algumas canções com batidas, e terminando a noite fazendo topless dançando em cima da mesa. Isso significa que foi um sucesso. Nós começamos fazendo DJsets na Housing Works, que é uma livraria de produtos de segunda mão, há dez anos, e começamos a tocar às quatro da tarde, (...) e depois simplesmente nos sentávamos à luz do dia com nossos filhos para tomarmos um café. E então, num certo momento, ao pôr do sol, teríamos um copo com alguma outra bebida. A noite terminaria com um grupo de pessoas bêbadas reunidas. Então é um pouco diferente quando estou sozinha. (...) Sempre gostei de tudo isso. Eu tive filhos cedo. Tenho seis irmãos e irmãs mais jovens. Na Islândia, uma pequena festa de aniversário com apenas os parentes mais próximos envolve cerca de cem pessoas. Ainda estamos naquela ideia do século 18, onde não existe essa lacuna geracional. Então eu sempre gostei desse tipo de celebração saudável com todos juntos".

Trocas de experiências musicais: "Eu realmente sou abençoada por ter algumas pessoas que fazem esse processo de trocar músicas comigo. Isso é o que também torna a Internet tão incrível: você acorda e há duas ou três músicas. Eu e Richard, Aphex Twin, enviamos músicas um para o outro o tempo todo. Além da Leila Arab, Robin Carolan e Alejandro (Arca). Provavelmente estou esquecendo alguém, mas estas são provavelmente as pessoas que enviarei todas as músicas que eu achar incríveis, e elas me enviarão toneladas de volta".


Utopia: "Eu realmente acredito na utopia. De uma maneira simples, é sobre saber o que você quer e apontar uma solução, uma alternativa para o você acha que seria o ideal. (...) Apenas metade disso se tornará realidade porque a realidade é diferente do ideal. Então eu não acho que seja uma forma de escapar do mundo real. Você precisa ser muito claro sobre o seu sonho e então estar ciente de que é um sonho. A Realidade é essa outra fera que você navega e lida no dia a dia. Eu acredito na utopia. Nós precisamos muito disso, como espécie humana".

A composição das canções do novo álbum: "É muito conveniente para mim, normalmente, fazer entrevistas depois (da finalização das músicas), porque pode ter passado um período de dois a três anos desde que elas foram escritas. E então eu fico tipo, "Oh, isso é o que é." Mas quando você está no meio disso, você não pode ter tal percepção".

Durante a entrevista, Emma Warren relembrou um episódio importante na história da Islândia, que aconteceu em 1975, quando 90% das mulheres do país entraram em greve em uma luta por direitos iguais, Björk respondeu: "Sim, eu estava lá com a minha mãe. Eu tinha dez anos. Nós acabamos de ter outros protestos, pois (...) ainda existe um problema com a questão do salário. Mesmo que essa lacuna seja a menor no mundo, ainda estamos tentando nos livrar disso. Então ontem, as mulheres deixaram seus empregos às 14.38 horas, que é a porcentagem da diferença, e foram ao centro da cidade protestar. Há imagens realmente bonitas delas no YouTube agora, todas cantando. Eu fiquei muito orgulhosa delas".


O que a cena musical da Islândia a ensinou sobre o feminismo: "Eu era uma adolescente na cena musical na Islândia, onde metade das pessoas eram meninas. Eu realmente fui ensinada que as mulheres são tão importantes e fortes como os homens, então pensei que em todo lugar era assim até que fui para o exterior. Eu tinha 30 anos, ou algo assim, e eu fiquei tipo: "o que?". Talvez seja por isso que pensei em deixar isso claro para tentar mostrar para outras mulheres, e também para os homens, que existe uma outra maneira e que funciona onde todos somos iguais".

O VR de "Family": "Esta é a única música de "Vulnicura" que pode ser vista como a mãe, como o núcleo do álbum inteiro. No vídeo, a personagem tem essa ferida que precisa lidar, e a aperta com a mão dela. O uso das mãos para a interação é a representação de Andy Huang sobre isso".


O gesto e o movimento podem refletir o som: "Eu me  entendo o suficiente para saber que há certo movimento que, se são realmente simples, podem sentir o xamanismo, servindo como ponto de entrada na emoção. O que eu sempre estou tentando fazer é unir a música e o visual, o físico, o espiritual e o emocional. É uma tarefa ambiciosa, e na maioria das vezes eu não tenho sucesso, mas sempre há esse esforço, e de vez em quando acontece".

Vulnicura Strings: "Para mim, os arranjos são como parte do meu cérebro. Geralmente, componho caminhando na natureza. É algo muito impulsivo, e não sei exatamente o que estou fazendo. Uma vez que faço isso, deixo passar algum tempo. Até que a nerd em mim vai lá e diz: "Isso precisa de dez violas". Então vou me sentar por um mês e dar um jeito nisso. Os arranjos de cordas para o "Vulnicura" me levaram muito mais tempo do que para criar o álbum, ou cantá-lo, ou escrever as letras. Levei um ano para fazer. Fiz muito bordado e tricô quando criança, e os arranjos realmente me fazem tirar proveito disso. É como fazer costura. Eu realmente gosto disso. Isso leva muito tempo. Trabalhei com músicos islandeses locais, e temos um tipo diferente de relacionamento. Trata-se de custar bilhões e você vai ao estúdio e leva duas horas para gravá-lo, como nas grandes cidades. (...) Eu acho que na maioria dos meus álbuns antes, tudo aconteceu junto. Os arranjos, as batidas, as melodias e as letras cresceram lado a lado, mas "Vulnicura" foi muito turbulento. Em alguns casos, a melodia só veio primeiro com algumas letras malucas, e pensei: "Devo refiná-las?". Eu li sobre isso nos livros. Mas então eu pensei: "não, esse álbum vai perder tudo se eu fizer isso". Porque o assunto era tão cru e visceral, eu estava com medo disso. Eu senti que a melhor maneira de lidar com isso era ter ainda mais cuidado ao fazer os arranjos de cordas. Levei cinco minutos para escrever uma música, mas três meses para fazer um arranjo, e isso fazia sentido de uma maneira muito estranha".

A versão de "Black Lake" com a viola organista, possui trechos com sons de uma corda, como se representassem a exposição da dor da canção. Como teria Björk conseguido essa linha entre a intensidade da emoção e o retorno das pessoas a um lugar mais confortável no trecho seguinte? "Foi realmente intuitivo. Eu faço muitos shows. Quando você fez tantos shows como eu fiz, você aprende até onde você pode empurrar seu público, e é divertido fazer isso e depois encaminhá-lo ainda além disso. Com uma gravação é muito diferente, porque o que você fez tem que fazer sentido em todos esses diferentes ambientes ao redor do mundo. Eu acredito que você pode ser tão imersivo ou tão visceral".
"Existem apenas algumas situações na vida de uma pessoa onde é possível ter a sensação de emergência com aquilo que você está lidando. Neste caso, se isso for feito com todos os álbuns, será chato. Vai perder seu poder, sua importância. Eu gosto de todas as emoções serem igualmente importantes: o festivo, o tímido. Adoro música que é apenas dançante. Penso que também é um estilo muito importante".
Traduções: "Eu realmente gosto de traduzir do islandês para o inglês, do inglês para o islandês, do techno para a orquestra. Eu faço isso bastante. Algumas semanas atrás, fizemos uma versão de "Pluto" com uma orquestra".


Melodias: "Em "Post", pedi a Eumir Deodato que fizesse alguns arranjos para mim. Eu nunca tinha me envolvido tanto! Eu escrevi várias das melodias que tocam no álbum. Eu me sentei ao lado de Deodato cantando para ele ou então tocava em um piano. Os acordes de "Isobel" e "Hyperballad" são melodias minhas (...) Matt Robertson tem sido meu diretor musical para os meus shows ao vivo, e ele é muito útil ao ouvir as versões do álbum e ao me ajudar - caso precise - a transferir aquele determinado som entre os instrumentos. Mas estou cada vez mais autossuficiente. Agora cerca de 95%".

Arranjos de Cordas: "Estou obviamente um pouco aborrecida com cordas no momento. (...) Mas vou ver quanto tempo dura. Eu fiz uso delas de 1993 até o "Medúlla". Então foram dez anos! Eu fiquei tipo: "Nunca mais irei ouvir isso". Quando voltei a usá-las em "Vulnicura", talvez essa foi uma das razões pelas qual achei que eram tão novas para mim, porque eu as coloquei de molho por mais dez anos".

Edição: "Eu comecei a usar o ProTools em 1999, e é aí que eu gasto 90% do meu tempo. Eu realmente adoro editar! Quando fiz o "Vespertine", foi com o Sibelius. Aquele álbum tinha esse elemento microscópico, como um quebra-cabeça (...) Eu também uso muito o Melodyne. Eu amo o Melodyne! Coloco todas as minhas tomadas vocais, e a partir delas crio várias outras. Passo semanas editando as harmonias, que talvez você possa ouvir no início de "Thunderbolt" no arranjo do coro - isso é o mais óbvio. E então eu vou transferir isso para Sibelius, nas cordas, mas talvez as melodias vieram de mim de forma improvisada. E depois vou levar isso para o ProTools. (...)  Durante a mixagem do álbum você provavelmente ouve cada música - nunca contei, aliás, seria interessante -  umas 100 vezes. Para ser honesta, nas últimas 85, estou trabalhando tanto que paro para pensar: "Oh, meu Deus, eu me sinto culpada, eu deveria estar em algum lugar muito inspirador e criativo, por que não estou fazendo isso? Por que estou presa nessa sala? Eu sou muito protetora? Esse é definitivamente um outro lado meu, que não é apenas a compositora".

Anohni: "Nós nos conhecemos, não sei, deve ter sido há 11 ou 12 anos em Nova York, e ela imediatamente se tornou uma das minhas melhores amigas. E quando nos encontramos nós apenas conversamos, conversamos e conversamos, e é muito divertido. Ela é obviamente muito emotiva, e acho que se parece com uma pessoa islandesa - desculpe, é um pouco estranho dizer isso. Nós começamos com uma conversa sobre o meio ambiente e as cidades, a poluição e coisas assim. Ela cantou no "Volta", gravamos os vocais para "The Dull Flame of Desire" e fizemos "Flétta", que é parte de seu trabalho. Sempre toco os meus álbuns para os meus amigos antes que eles estejam completamente prontos, e ela é uma das pessoas que convido para ir lá comentar sobre o que achou, e vice-versa. Damos conselhos uma para outra, e ela é apenas um dos seres mais mágicos presentes na minha vida, e eu sou muito grata por tê-la como amiga".



Cuidados com a voz: "Eu acho que cuidar de si mesmo é uma coisa muito chata, mas é realmente uma coisa boa. Eu suponho que estou certa, né? (...) Há uns 8 anos, eu tive que começar a cuidar lentamente do que eu como, começando a prestar atenção na quantidade de glúten e açúcar, coisas assim. Eu ficaria rouca se eu comesse isso. É chato, mas algumas pessoas precisam polir suas guitarras, colocar novas cordas nelas e ter que fazer toda essa merda. Quando se tratava de técnica, eu costumava ser autodidata. (...) Uma coisa que eu tenho que fazer é apenas descansar mais, sabe?".

A composição dos personagens: "Essas coisas sempre acontecem depois que termino de compor. Primeiro vou escrever as únicas músicas que posso escrever. Às vezes, quando faço entrevistas, bebo uns cinco litros de café e parece que sei tudo, mas na verdade não. Quando componho, não tenho a menor ideia disso. Eu escrevo aquilo que posso escrever naquele dia em particular. Não fico sentada pensando: "Oh, que tipo de música devo escrever hoje?". Não é assim de jeito nenhum! É bem depois. (..) E uma vez que faço os arranjos do álbum, e já ouvi aquelas músicas tantas vezes, e o tempo passou, talvez dois ou três anos desde quando compus a primeira canção do projeto, é como: "Oh, meu Deus, essa música é realmente sobre isso". É aí que começo a ligar os pontos: "Oh, este álbum é... verde".

Wooden Microphone: "Em 1997, um finlandês fez dois microfones de madeira. Ele me enviou um, e outro para Michael Jackson, e gravei muitas músicas sobre isso".

Clubes Punk: "Os meus primeiros dez anos como cantora foram em clubes punk, sendo os dois ou três primeiros através de um amplificador de baixo, porque não podíamos pagar um PA. Provavelmente, isso é a origem dos meus gritos durante shows ao vivo, porque eu estava apenas tentando ser ouvida".

  
Ter uma família e uma carreira: "Eu acredito que você pode ter uma família, você pode ter filhos, você pode fazer música, você pode fazer todas as coisas juntas e elas devem coexistir. Eu não acredito neste tipo de isolamento, e sim que existe um fluxo entre tudo, e que é realmente bom para as crianças verem um pai que, "Na verdade, eu não tenho tempo para você agora, eu tenho que terminar essa coisa aqui". É bom para eles verem alguém lidando com a vida, sabe? Essa é a melhor escola às vezes".
 
A resposta do público: "Na verdade, não sinto pressão da mídia e do público. (...) Aprendi que sou a única que sabe do que se trata cada uma dessas experiências, e por isso sou responsável por protegê-las. (...) O que eu estou tentando dizer, de uma forma muito desajeitada, é que, se você esperar, e isso pode levar uns três meses, é possível ver de uma outra perspectiva, como se você fosse uma outra pessoa. Você pode ser o criador e o crítico. Algumas músicas, como por exemplo "Atom Dance", levei quatro anos para fazer. Não fez parte do "Biophilia", mas do "Vulnicura". Eu acho que o segredo é aguardar o momento certo".

Aplicativo dos VRs de "Vulnicura": "Ainda temos alguns vídeos que não concluímos e pensamos que tudo fará mais sentido futuramente, porque tem um que funciona como uma página inicial. (...) Tentarei atualizar e concluir isso, o que provavelmente será em 2017".

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