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A história do vestido de cisne da Björk

20 anos! Em 25 de março de 2001, Björk esteve no Shrine Auditorium, em Los Angeles, para a 73º edição do Oscar. Na ocasião, ela concorria ao prêmio de "Melhor Canção Original" por I've Seen It All, do filme Dancer in the Dark, lançado no ano anterior. 

No tapete vermelho e durante a performance incrível da faixa, a islandesa apareceu com seu famoso "vestido de cisne". Questionada sobre o autor da peça, uma criação do fashion designer macedônio Marjan Pejoski, disse: "Meu amigo fez para mim". 
 
Mais tarde, ela repetiu o look na capa de Vespertine. Variações também foram usadas muitas vezes na turnê do disco, bem como em uma apresentação no Top of the Pops

"Estou acostumada a ser mal interpretada. Não é importante para mim ser entendida. Acho que é bastante arrogante esperar que as pessoas nos compreendam. Talvez, tenha um lado meu que meus amigos saibam que outros desconhecidos não veem, na verdade sou uma pessoa bastante sensata. 

Eu não posso acreditar que ainda estão falando sobre o vestido de cisne tantos anos depois. Acho esse sentido do vestido de Hollywood muito alienante! Obviamente, eu estava fazendo uma piada.

Uma coisa que ninguém menciona é que eu tinha seis ovos de avestruz comigo feitos de isopor, e que os distribui ao redor do tapete vermelho. E todos os assistentes das estrelas, com seus walkie-talkies, ficavam tipo: "Desculpe, senhora, você deixou cair isso". Foi hilário! 

O estranho é que muitas pessoas realmente pensaram que eu estava tentando me encaixar, e que tinha entendido tudo errado. Esta mulher parece que estava tentando se encaixar? (risos).

Adoro o humor na maneira como as pessoas se vestem. Definitivamente, a autoparódia fazia parte da ideia. Acho que nesse cenário, as pessoas não estão acostumadas a fazer uma coisa assim. De qualquer maneira, penso que é uma situação tão abstrata. É como se todos lá no tapete vermelho fossem "Deuses do Universo", para os quais os outros deveriam se ajoelhar, se curvar. Simplesmente, não concordo com isso!

Eu não percebia o quão sagrada Hollywood é para as pessoas. É como uma religião, e eu caguei no chão dessa igreja", disse a artista em entrevistas para as revistas SPIN e Attitude, em 2007. 

Para o CDNow, Björk declarou: "Eu estava muito ciente de que provavelmente seria minha primeira e última vez lá, então pensei que tudo deveria ser sobre fertilidade. A maioria dos filmes de Hollywood que assisto são musicais de Busby Berkeley, então pensei que seria muito apropriado usar algo inspirado em um cisne. Foi uma homenagem a esse tipo de elegância". 






"Eu gosto de moda quando é uma coisa criativa, quando se trata de expressão. O que não gosto na moda é quando as pessoas a transformam em uma espécie de "coisa" para o poder e controle; quando vira algo sobre quanto dinheiro se tem, sobre posição social", explicou na Nylon Magazine

O famoso vestido apareceu pela primeira vez na modelo sul-sudanesa Alek Wek, durante o London Fashion Week, em 20 de fevereiro de 2001. Obras do final do século XIX com a figura do cisne, tiveram um grande impacto nos designers de moda, dentre elas The Dying Swan da bailarina Anna Pavlova; e a atriz e cantora Marlene Dietrich caracterizada como o mito grego Leda and the Swan

Marjan Pejoski também foi o responsável por outros vestidos conhecidos de Björk: Cannes (em maio de 2000), e o do especial de TV Reverb, exibido no ano seguinte: "Embora eu esperasse que ela fosse usar o do Oscar, a gente nunca acredita que vá acontecer até ver. Foi uma surpresa muito boa. Eu realmente ri quando ouvi a história do ovo. Foi fantástico da parte dela. Tão rebelde, em um meio tão tradicional! Claro, respeito a tradição, mas de vez em quando tudo e todos merecem ser ridicularizados", disse o estilista em entrevista para Vogue, 2001. 

Durante bate-papo com a Interview Magazine, Björk foi lembrada que sempre que disserem seu nome, imediatamente o público irá associar sua imagem aos cisnes: "Não sei por qual motivo sou obcecada por eles, mas tudo no meu álbum Vespertine é sobre inverno. E como eles são brancos, penso que sejam uma espécie dessa estação do ano. Obviamente, são muito românticos.

Enfim, é uma daquelas coisas que talvez eu levaria mais tempo para descrever. Quando se está obcecado por algo, a gente consegue esclarecer melhor cinco anos depois, pois no momento não vemos exatamente a razão. Para mim, agora os cisnes parecem representar muitas coisas. Dois anos atrás, isso não acontecia comigo". 

Em matéria especial, Raquel Laneri, do site Page Six entrevistou algumas das pessoas que trabalharam no Oscar e com Björk naquela época, reunindo várias curiosidades: 

Bronwyn Cosgrave, jornalista e autora do livro Made For Each Other: Fashion and the Academy Awards: "Os fashion designers meio que estavam competindo para vesti-la. Björk estava hospedada no Chateau Marmont, em West Hollywood, e vários representantes desses profissionais lhe enviaram roupas. Um dos funcionários dos estilistas que entrevistei para meu livro, me disse que viu uma assistente dela usando algumas das peças na área da piscina". 

Sherry Ring, vice-presidente sênior de publicidade da Elektra Records (1988-2004):  "Me lembro dela entrando no meu escritório com o vestido, e eu amei. Se teria gostado para outra pessoa além dela? Não. Mas é que não consigo imaginá-la aparecendo em um evento assim com típicos vestidos de grife". 

Scott Rodger, tour manager: "Como todo mundo que é indicado ao prêmio, ela foi abordada por todos os estilistas possíveis de roupas e sapatos, bem como designers de joias. Mas esse nunca foi seu estilo. Björk sempre seria aquela que abordaria as pessoas que admirava e respeitava. Para a ocasião, haviam dois vestidos do Pejoski: o de cisne e um que lembrava um pavão. Nenhum de nós da equipe tinha ideia do que ela usaria no Oscar. 

Os ovos foram decorados por Matthew Barney, com algo que se parecia com qualquer material que pudesse estar preso a um ovo muito grande que acabara de ser colocado. O conceito era botar os ovos enquanto ela passava pelo tapete vermelho, mas os seguranças continuaram a recolhê-los. 

O vestido foi ridicularizado, mas o fato de as pessoas se lembram dele mais do que qualquer outro da premiação significa que foi um destaque, né? No ano passado, uma loja que fica perto do local em que moro me ligou antes do Natal, quando me deram de presente alguns enfeites de vidro para usar na minha árvore. Um deles era Björk com o vestido de cisne. Se tornou algo icônico, que fará parte da cultura pop para sempre, e com razão". 

Joel Amsterdam, vice-presidente de publicidade da Elektra Records (1990-2004): "Antes da premiação propriamente dita, fomos a um ensaio em um teatro. No camarim, conversei com Scott Rodger e lhe perguntei o que ela iria vestir, e ele disse: "Oh, está ali no sofá". 

Normalmente, a peça estaria pendurada, mas colocaram em uma sacola de compras de plástico, como aquelas que encontramos em um supermercado. Eu estava um pouco cético, porque quando a gente segura o vestido, é como se fosse só um monte de penas. Naquele momento, era meio difícil ter uma noção exata de como poderia ficar, mas pude ver que era uma cabeça de cisne.

Na manhã do Oscar, recebi um telefonema de alguém de sua equipe me dizendo: "Björk quer alguns ovos de avestruz enormes para acompanhar a roupa. A ideia dela é largá-los enquanto passa pelo tapete vermelho, como se estivesse fazendo uma trilha". Tentamos bancar os idiotas, porque não achei que eles realmente quisessem que fizéssemos isso! Dei essa missão de encontrá-los para a minha então namorada, mas alguém achou antes de nós, em algum lugar no centro da cidade, em Chinatown". 

Em 2005, Björk leiloou o vestido para a instituição de caridade Oxfam, uma instituição de caridade independente com foco na redução da pobreza global e desigualdades sociais; com uma extensa agenda de atividades em mais de 90 países, por meio de campanhas, programas de desenvolvimento e ações emergenciais. 

Marjan Pejoski ainda tem uma outra cópia da peça, que anos depois foi exibida no Metropolitan Museum of Art (MET). Em 2015, foi também parte da exposição sobre a islandesa no MoMa. Klaus Biesenbach, curador da mostra, disse ao The New York Times: "Esse vestido reflete um certo espírito independente, punk e inesperado. Mostra que ela poderia sim fazer parte daquilo, mas que ainda assim iria surpreender e desafiar a todos. Neste ponto, é uma peça política importante". 

Fotos: Divulgação. 

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