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Debut, o primeiro álbum da carreira solo de Björk, completa 30 anos

30 anos, era lançado "Debut", o primeiro álbum da carreira solo de Björk: "Esse disco tem memórias e melodias da minha infância e adolescência. No minuto em que decidi seguir sozinha, tive problemas com a autoindulgência disso. Era a história da garota que deixou a Islândia, que queria lançar sua própria música para o resto do mundo. Comecei a escrever como uma estrutura livre na natureza, por conta própria, na introversão".

Foi assim que a islandesa refletiu sobre "Debut" em 2022, durante entrevista ao podcast Sonic Symbolism: "Eu só poderia fazer isso com algum tipo de senso de humor, transformando-o em algo como uma história de mitologia. O álbum tem melodias e coisas que eu escrevi durante anos, então trouxe muitas memórias desse período. Eu funcionava muito pelo impulso e instinto".

Foto: Jean-Baptiste Mondino.

Para Björk, as palavras que descrevem "Debut" são: Tímido, iniciante, o mensageiro, humildade, prata, mohair (ou angorá: um tipo de fio semelhante à lã), bege e virgem.

Em 1994, Björk falou na Rolling Stone sobre o poder da música: "É apenas a maior enfermeira do mundo, porque organiza a cabeça das pessoas. Faz com que sejam mais corajosas, mais felizes, mais tristes ou o que quer que seja. É uma das forças emocionais mais importantes do mundo".

Foto: Kevin Cummins.

"De todos os meus álbuns, "Debut" foi o que demandou mais tempo [para ficar pronto]. Era toda a minha vida até aquele momento. Tem um pouco de mim ouvindo jazz na casa dos meus avós, um pouco de mim ouvindo coisas na casa da minha mãe, e depois eu escrevendo melodias, caminhando sozinha. Foi uma espécie de cobertura daqueles anos até então. Saiu até bem tarde, se comparado a outros músicos.

Eu já tinha 27 anos, e realmente amava estar em uma banda. Gostava muito dessa ideia de fundar uma editora, um selo em que pudéssemos publicar nossas próprias músicas, poesias e livros. E eu não queria sair por aí no mundo sozinha! Eu não tinha tanto esse tipo de ego, esses sentimentos.

Mas eu tinha melodias cada vez mais fortes, e não conseguia colocá-las nas canções da banda em que eu estava. Essas canções meio que começaram a ter vida própria, comecei a querer defendê-las e a dar-lhes o tipo de ambiente que mereciam. Então, estranhamente, talvez [até então] eu estivesse me enganando [de alguma forma].

Essa decisão surgiu por algum tipo de altruísmo, por querer ser a mãe das minhas melodias e fornecer a elas o ambiente que precisavam. E nesse sentido, começar a liderar tudo por conta própria, e começar a imaginar quais sons poderiam estar ao redor delas, e que tipo de mundo caberiam".


Foto: Sheridan Morley.

"No "Debut", eu estava tentando mapear todas as diferentes categorias em mim. E talvez seja por isso que eu o chamei de "Debut", a estreia. E eu fiquei tipo: "Ok, este é o meu começo. É o meu marco zero". Um pouco de mim é Jazz, um pouco de mim está dançando alegremente ao som de músicas de Bollywood ou ritmos assim. Um pouco de mim é introspectiva, uma parte de mim sou eu andando pelas cidades e querendo chegar com o mundo de uma garota da Islândia. Alguém que queria mostrar o tipo de coisa pela qual ela estava passando, porque, sabe, naquela época não havia tantas letras assim sobre a vida das mulheres, ou das meninas que apenas estavam fazendo coisas normais [do cotidiano].

O que realmente estava acontecendo muito com as mulheres na música na época, é que a gente poderia ser apenas uma coisa. Poderíamos ser uma cantora e compositora "séria", ou poderíamos ser a "líder sexy", mas não tínhamos permissão para ser como uma humorista ou mais desajeitadas, sabe? Existem muitas características diferentes.

Eu me lembro de ler meus diários nessa época. Escrevi muito repetidamente, que eu tinha o direito de em um dia ser boba, e no dia seguinte, inteligente e depois, bem-humorada. E feliz, triste, com raiva, vestida como uma palhaça, vestida como uma mãe, e vestida de um jeito sexy se eu quisesse, e aí como uma "pessoa techno" no dia seguinte. Então, era muito sobre essa declaração também! Ter acesso a essa diversidade como mulher, não ser identificada em uma coisa só, em um único papel".

Foto: Maehara Takeshi.

It takes courage... 

Björk tinha muito receio em mostrar sua própria música. Ela ficou assustada com a fama em 1977, quando teve seu primeiro disco ainda criança nas lojas de toda a Islândia. Ainda que tenha se expressado e aprendido muita coisa nas bandas punks que entrou logo depois, precisou de autoconfiança para dar o próximo grande passo: "Muitas coisas me aterrorizavam no meu íntimo. Eu não estava pronta para o grande salto, estava com medo", revelou ao Les Inrockuptibles, em 1993.

"Eu não estava acostumada a comer meu bolo no meu canto, sem repartir. Sempre vivi em comunidade. O ato solo é terrivelmente egoísta. A gente tem que se forçar a ouvir apenas a nós mesmos, sem escutar as reclamações dos outros. É uma coisa do tipo: Escolha seus instrumentos, sua capa, suas roupas sozinha. Vire uma adulta!

Demorei para aceitar. Por muito tempo, eu só queria uma coisa: satisfazer os sonhos dos outros, colocar a minha voz e meu espírito a serviço dos meus amigos, cantar e viver para eles. Mas esta página está virada. Agora é a minha vez. É a minha festa! Não desejo mal a ninguém. Eu só quero me sentir bem! Usar todas as palavras, pequenos sons e tons que gosto. É mágico! É um momento maravilhoso estar sozinha e gravar esse disco. Não menti em nada, está tudo na minha ficha, exatamente como sonhei. Sinto falta do meu país, da minha comunidade, mas eu queria isso, esta vida. E quero vivê-la plenamente!".

Foto: Jean-Baptiste Mondino.

A documentação dessas letras e melodias aconteceu de forma natural, e sem grandes planejamentos:

"Eu sou mais uma musicista do que uma escritora. Então, às vezes sou muito desajeitada com as palavras, e demoro muito para chegar onde quero chegar. O fato de eu estar escrevendo diários por tantos anos até aquele momento... Eu consegui de alguma forma, obter um pouco de essência disso, e quebrar a casca, corromper. Quando apenas escrevemos sempre, e é algo sem sentido, mas então começamos a gostar de duas palavras dali que realmente importam. Olhamos para aquilo e pensamos: "Sim, isso representa como me sinto agora".

"Eu componho em islandês. Depois que transfiro para o inglês, algo acontece na tradução. Se torna ainda mais emocionante. E aí eu traduzo de volta para o islandês, e fico nesse processo em que mudam muitas coisas", explicou Björk ao M6 'Fax'O', em 1993. Em um trecho do DVD "Vessel", ela comentou: "Termino com duas letras extremamente diferentes, mas que estão focadas na mesma emoção".

Foto: Jean-Baptiste Mondino.

A artista se permitiu ouvir e entender que tipo de trabalho queria colocar no mundo. A única certeza era de que deveria ser algo honesto e que tivesse suas impressões digitais! Demorou 16 anos até que ela finalmente decidisse divulgar a enorme coleção de ideias que vinha guardando para si:

"Existem diferentes tipos de bravura. Coragem para não se conformar, coragem para ter disciplina para praticar com seu instrumento de trabalho muitas horas por dia, coragem para não depender do conforto do lar ou da família quando os projetos são realizados, e pelo contrário: coragem para se apoiar na família e amigos quando os projetos são realizados.

O que estou tentando dizer é que [ter coragem como artista] é bastante abstrato! Mas é algo que sinto quando ouço um músico que é workaholic, quando ele se estagna ou se apoia em gêneros ou outras muletas. O que tento, como forma de agradecer aos músicos que não caíram nessas armadilhas, é ficar longe disso também para alimentar alguém por outro lado", ela disse ao El Mundo, em junho de 2023.

Foto: Romeder.

O processo de composição de "Debut" fechou um capítulo da vida de Björk, mas os longos anos de preparação até o lançamento do disco a ensinaram a trabalhar sozinha e a valorizar o tempo investido:

"Eu nunca poderia escrever um álbum em um mês. Acho que parte disso é porque comecei a escrever melodias ainda quando criança, caminhando para a escola, e sempre foi como minha maneira de lidar com o mundo. Para mim, isso nunca foi algo que deveria existir no resto do mundo ou com os meus amigos, na escola e no mercado [da música]", ela disse ao The Creative Independent, em dezembro de 2017.

"Sou eu sozinha. Também fui mãe solteira, e tudo o que fiz além de cuidar do meu bebê foi escrever melodias e letras. Acredito que apenas me tornei algo que eu poderia fazer enquanto criava uma criança, fazendo compras ou com uma rotina diária normal. [Escrever] é como outra função no meu subconsciente. Quando eu tinha 27 anos e o "Debut" saiu, isso se desenvolveu.

Eu acho que meu bloqueio tem sido mais em lidar e interagir com o mundo, ou ter certeza de que todos os meus relacionamentos de trabalho estão fluindo. A gente tenta entender as pessoas e ouvir. Aceitar que às vezes, algumas relações de trabalho têm um relógio ligado. É como uma fruta na hora da colheita. É algo sobre o qual tento trabalhar conscientemente".

A ideia de um álbum da Björk era algo esperado por empresários desde que o Sugarcubes começou a fazer sucesso mundial. Grandes gravadoras tentaram contratá-la como uma artista solo. Por muito tempo, a islandesa preferiu não dar qualquer pista sobre uma possível mudança de direção em sua carreira, como explicou para VOX Magazine, em dezembro de 1993:

"Nós tivemos essa merda desde o primeiro dia. Era ridículo! Comecei a gravar o "Debut" secretamente. Desde "Birthday", havia uma certa pressão para fazer um disco só meu, e eu não queria que ninguém ficasse com uma ideia errada disso.

Quando comecei a trabalhar nesse projeto, fiz tudo sozinha. A partir do momento em que mais pessoas se envolveram, como os engenheiros de som e músicos, incluindo Oliver Lake, fiquei tipo: "Olha, ainda não temos um orçamento para tudo isso. Se você estiver realmente interessado em participar, terá que ser por si mesmo. Mas se tiver um álbum, será pago!".

Daí certo dia, resolvi falar com o cara da minha gravadora, Derek Birkett: "Escute, eu quero fazer um álbum, mas não é aquilo que você pensa que vai ser, porque não estou interessada em agradar ninguém. Não acho que vá ser muito fácil de vender! Toquei três canções, que até então só tinham voz e saxofone. Ele gostou e disse: "Beleza, vou investir dinheiro nisso", com uma fé tão absoluta que achei surpreendente. Eu pensava que ele fosse querer que eu fizesse algo mais comercial".

Em 2022, para o Siegessaeule, ela falou um pouco mais sobre as expectativas de vendas do disco: "Quando apresentei "Debut" à minha gravadora, eles disseram: "É muito louco, e provavelmente vai vender apenas um terço do que os Sugarcubes venderam". E respondi a eles: "Tudo bem. Eu não tenho nenhum problema com isso". Nunca tentei ser popular, acho que percebi cedo que não me importo. Tudo o que importa para mim é criar algo que eu possa me orgulhar".

Foto: Jean-Baptiste Mondino.

Se mudar para Londres por causa de "Debut" não foi uma decisão fácil para Björk, que nunca havia passado tanto tempo longe da Islândia:

"Eu amava Reykjavík e meus amigos de lá, ser dona de casa, cozinhar uma boa comida, sair e ficar bêbada e tudo mais. Foi uma decisão bem drástica me mudar para Londres, arrastando o meu filho comigo, mas tive que fazer isso", disse em bate-papo com a I-D Magazine, em 1993.

"Eu tinha essas músicas desse disco em mim desde que eu era criança e sabia que poderia submergir nesse impulso criativo para sempre. Mas olhei a minha volta e pensei em todas as coisas que me dão mais alegria na vida. Pode ser um vinho incrível que é simplesmente perfeito ou a música certa, onde se pode dizer que o artista foi quem trilhou todo o caminho. Eu tinha que sair de lá pelo menos uma vez antes de morrer para ver se eu poderia fazer a mesma coisa".

No podcast Sonic Symbolism, ela confessou o que sentia naquele momento:

"Pensei que sempre viveria aqui na Islândia. Muitos dos meus amigos queriam se mudar para o exterior, diziam que a Islândia era muito pequena e claustrofóbica. Eu não achava nada disso. Gostava muito daqui! Mas tive que admitir para mim mesma que para fazer o tipo de música que eu queria fazer, precisava me mudar para o exterior. Foi uma grande surpresa para mim!

Me mudei em janeiro de 1993 com meu filho de seis anos. Foi meio assustador, mas também extremamente libertador, foi como estar em um ponto de escala, uma subida constante. Pensei que ficaria por lá por uns três anos, e então voltaria para Islândia ou algo assim. Mas gostei mais do que pensei que iria. Tive muita sorte, porque imediatamente estava cercada por pessoas bastante criativas, e eu não estava desempregada! Tinha muito trabalho. Claro, sou eternamente grata à cultura inglesa, porque de alguma forma foi o berço da minha persona no trabalho. Foi aí que eu não era mais apenas uma criança, me tornei uma adulta, como uma musicista".

Para a ID-Magazine, em 1993, disse: "Acho isso bem engraçado e, na verdade, não consegui ficar mais satisfeita com toda a situação. Enquanto eu crescia, sempre tive a sensação de ter sido deixada em outro lugar. Foi assim que fui tratada na escola na Islândia, onde as crianças costumavam me chamar de "menina da China" e todo mundo achava que eu era incomum porque eu era "chinesa". Isso me deu espaço para fazer minhas próprias coisas.

Na escola, eu estava quase sempre sozinha, tocando alegremente no meu mundo particular, compondo pequenas canções. Se eu tiver espaço, consigo e preciso fazer minhas próprias coisas, sendo chamada de alienígena, elfo, garota da China, ou o que for! Acho que só percebi nos últimos anos como é uma situação bem confortável".


Foto: Rankin.

Durante a conversa, Björk explicou que tipo que som lhe interessava naquele momento: "A música dance é a que eu mais tenho escutado nos últimos anos. É a única música pop que é verdadeiramente moderna. Para ser honesta, é a única em que está acontecendo algo criativo atualmente".

A cena dos clubes impressionou Björk, como ela própria explicou para Time e o Sonic Symbolism: "Comecei a ir para as boates em 1988 ou 1989, comecei a ir para Manchester, para as raves de lá.

Em Manchester, eu saía com o 808 State e Graham Massey. Quando me mudei para Londres, eu tinha um casaco branco fofo, que eu usava o tempo todo! Um mohair branco, tipo uma jaqueta bomber. Bem rave!".

Foto: Youri Lenquette.

"Sabe, aquelas festas de Acid House, e a gente tinha que sentar, ouvir por oito horas uma música que não era incrível. E então, de repente, uma pessoa vinha às 4:00 da manhã e ficávamos meio que: "Uau". Essa pessoa vinha com o som de um sintetizador, e o lugar inteiro acabava por explodir [de tamanha empolgação], entende? Apenas pela inovação e originalidade daquilo!

De repente, aquela música estava se espalhando pelos clubes de uma forma mais social, com 20 pessoas dançando apenas com o som de um sintetizador, sabe? Aquilo foi um milagre para mim. E eu realmente me senti como: "Oh sim, eu encontrei o meu povo. Essa é a minha tribo". Mas o que não acontecia muito em '91, '92, '93, era ter pessoas escrevendo músicas com esse material".

Foto: Jeremy Deller.

"Era basicamente uma frase sendo repetida a música inteira. E se houvesse algo [no meio disso], o que também é muito libertador, todos estariam dançando. Mas a gente só queria mais o tipo de transe, a liberação da catarse. Foi uma das coisas mais mágicas de todos os tempos! Nós prendíamos o cabelo em pequenos coques, porque o cabelo poderia ficar completamente molhado, mas preso assim ainda poderíamos dançar, ainda estaríamos bem, sabe? E completamente suados!".

Foto: Jeremy Deller.

"Olhando para trás, acho que talvez [nas músicas] eu dei uma voz [a essas situações], colocando uma personagem nisso, uma narradora. Provavelmente, era algo bem abstrato, nada verbal e bastante introvertido. Quis dar a isso algum tipo de extroversão, uma história.

Nós queríamos um novo universo, que era mais biológico e tecnológico. Um novo ambiente, um novo tempo. Quanto mais velha fico, penso mais e mais na estética das duas guerras mundiais no Século XX, e em como muitos países tiveram que lidar com isso. Não apenas emocionalmente e psicologicamente e o terror e o trauma disso, mas também a estética. Muitas coisas dos anos 80, musicalmente, eram como o fantasma de um fantasma, o pós-pós-pós-Segunda Guerra Mundial.

Havia algo sobre os anos 90 em Londres, que era sobre: "Ok, está acabado. Vamos começar um novo capítulo no livro". Hoje, eu olho e fico rindo, gentilmente, com as capas de CDs dos anos 90, de música eletrônica. Muito daquilo era a fusão biológica e tecnológica, sabe? E não em uma escala humana ou uma tragédia grega. Para onde estávamos indo era a física quântica, a vibração dos átomos, o ônibus espacial, e pela primeira vez fora do nosso sistema solar, sabe? Onde destronamos o humano. O humano não era mais o personagem principal da história.

E muitas vezes, aquela música era sobre isso. Por isso os solos de guitarra eram "ilegais", porque o humano não era mais o protagonista, o que é uma contradição em ser cantora. É tipo: "como a gente coloca a voz humana na música, onde não se tem um protagonista humano?". Sabe, colocando o cantor entre os animais, ou um dos instrumentos musicais, ou alguém introvertido".

Foto: Jeremy Deller.

Na I-D Magazine de 93, Björk declarou: "Eu não suportaria tocar rock com guitarra! Isso é o engraçado. Meu pai era um hippie que ouvia apenas Jimi Hendrix e Eric Clapton e eu cresci escutando essas músicas. Quando eu tinha sete anos, estava convencida de que essa música era uma história antiga, e que eu faria algo novo. Eu acho que, assim que qualquer coisa se torna tradicional, como guitarra, baixo e bateria, as pessoas começam a se comportar tradicionalmente.

Esse disco é sobre estar cansada de entrar nas maiores loja de discos do mundo, na esperança de encontrar algo fabuloso e na realidade acabar saindo de lá com mais um álbum do Miles Davis, porque não há nada acontecendo que seja desafiador. Em grande parte, sim, eu senti que deveria fazer esse tipo de música que eu procurava".

Foto: Barry Marsden.

"Acho que a música pop nos traiu. Todo mundo precisa de um pouco dela, assim como precisam do oxigênio para respirar. O problema é que muitas pessoas rejeitam o pop como uma porcaria porque ninguém teve a coragem de fazer um que seja relevante para o mundo moderno. A música pop se tornou tão estagnada! Isso é realmente um paradoxo porque deve mudar e evoluir a cada dia. Eu não acho que alguém tenha feito um álbum pop decente em anos.

Eu quero que "Debut" seja a música pop que todos possam ouvir. Eu acho que não se ater a um estilo musical particular torna o álbum muito mais real. A vida nem sempre é a mesma. Você não vive no mesmo estilo dia a dia, coisas inesperadas acontecem além do nosso controle. É disso que se trata o meu álbum. 

Música Pop é a música para um momento em particular. Você deve ser capaz de tocá-la no dia seguinte, de modo que, enquanto lava a louça e as escuta no rádio, ainda poderá se relacionar, sabendo que aquilo importa e faz diferença para você. Não tem que ser sempre alguma peça artística existencial, pode ser apenas uma música que todos possam cantar junto. Mas tem que te tocar profundamente! E é assim que eu quero que as pessoas experimentem esse álbum, como a música pop de 1993".

Para Dazed, em 1996, Björk falou da variedade de temas que ela sempre procurou retratar em suas canções, documentando e aproveitando as diferentes etapas da vida: "Eu adoro fazer música, e no dia seguinte me sentir como uma diva enquanto desço as escadas, uma rainha do drama, e aí depois criar canções punk. Tenho agido assim até agora, mas sinto que estou começando a me tornar várias coisas ao mesmo tempo. Não estou planejando nem nada, deixo fluir. Penso que todo mundo é meio que assim. É o meu alvo: combinar todas as coisas sem deixar nada de fora".


Foto: Kevin Cummins.

O "Debut" depois da estreia:

"Eu já tinha gravado discos que fizeram muito sucesso na Islândia. O primeiro aos 11 anos de idade, e também "Gling-Gló". Portanto, chamar meu álbum de "Debut" é bastante irônico. A grande mudança é que desta vez, estou mirando no mundo, não apenas no meu país", Björk disse ao Les Inrockuptibles, em 1993.

"Os ritmos e os instrumentos agora vieram por si, naturalmente. Deixei a música fluir. Se uma faixa pedia um beat techno, então eu lhe dava o beat techno. Se fossem necessários nove violinos para a próxima canção, não havia problema. É um disco muito espontâneo! Nunca me senti tão livre. Vocalmente, foi exatamente a mesma coisa. Sempre achei que minha voz deveria se perder na música, quase que ficando invisível, embutida no material. Penso que assim se sai melhor!

É algo muito pessoal. Agora tenho que permitir que as pessoas penetrem em meus segredinhos. Tenho que ir da introspecção para a mente aberta que a divulgação de um disco exige. Me sinto como uma pessoa saindo de um porão, como se estivesse encontrando o sol pela primeira vez depois de três dias".


Foto: Rock CD.

"Fazer esse álbum foi como ser uma criança em uma loja de brinquedos. Fiquei tipo: "Eu posso ter algumas dessas coisas? Que Legal!!!", relembrou Björk para Mixmag, em 1997. Nunca vendi tantos discos quanto com o "Debut". Então, sei lá, parece que quanto mais egoísta eu sou, mais generosa eu sou. Não vou fingir que conheço a fórmula".

O resultado:

"A razão pela qual a música desse disco acabou exatamente como eu queria, é que um grande grupo de pessoas [da minha gravadora] me permitiu fazê-la sem restrições. Conheço indivíduos que escrevem ótimas canções pop, mas não conseguem lançar, porque um empresário vem e estraga tudo, decide quem vai tocar no álbum e essas coisas. Se eu não tivesse permissão para fazer tudo exatamente como eu queria, o disco poderia não ter ficado tão bom", explicou Björk em entrevista para a revista Agenda, em 1993. "Ainda tenho um longo caminho a percorrer, porque sei que posso fazer muito melhor do que este álbum", declarou ao The Face no mesmo ano.

"Sei que 60% do meu sucesso atual é resultado de uma moda passageira, um exagero. Eu sei que os críticos serão exigentes ou me quebrarão com meu próximo álbum. Porque ano que vem não serei a pessoa certa no lugar certo na hora certa", disse Björk ao Les Inrockuptibles, em 1994.

No entanto, ela quis aproveitar o reconhecimento e a popularidade para financiar seus próximos trabalhos: "Enquanto minha música não for tocada, tenho que fazer alguns pequenos compromissos. É uma forma de comprar minha liberdade enquanto tenho a impressão de me divertir. Cada detalhe desse álbum tinha que me agradar, ou eu recomeçaria. Fui realmente até o fim de cada ideia, sem a menor barreira, porque eu sabia para onde estava indo. Mas ouvindo de novo, percebo que, às vezes, fui preguiçosa, que joguei um pouco pelo lado seguro: verso, refrão, verso. Vou arriscar mais no próximo! Existem barreiras que eu gostaria de transpor".

Foto: Ian T. Tilton.

A escola:

"Eu estava aprendendo a ter o meu próprio mundo musical, e aprendendo a ter orgulho disso", disse Björk ao Sonic Symbolism. "Foi difícil para mim como indivíduo ser tão egoísta na época. Talvez por estar vindo de um background punk onde éramos muito do contra, egomaníacos. As estrelas do rock dos anos 80? Nós achávamos que eles eram vulgares, e ficávamos tirando sarro deles.

Era tudo dentro do "faça você mesmo", todos eram iguais. E acho que foi a melhor escola do mundo. Mesmo que eu tivesse ido para 10 universidades de música, elas não teriam sido melhores do que os 10 anos que eu estive com os Sugarcubes, porque eles eram professores incríveis dentro daquela banda".

Seguindo em frente:

"Nunca fiquei satisfeita com a música dos Sugarcubes. Mas fiquei calada, não queria estragar a festa. Sempre considerei que num grupo os indivíduos devem ser discretos, deixar o seu orgulho de lado e se colocar ao serviço da música", ela explicou ao Les Inrockuptibles, em 1993. "O Sugarcubes era uma sociedade muito justa, onde todos contribuíam sem perturbar o equilíbrio. Sem problemas de ego, sem luta livre, sem disputas de queda de braço!

Daí a Inglaterra descobriu o nosso grupo. De repente, nos vimos negociando com grandes gravadoras e diretores de marketing. Mas fomos afiados para as reuniões. Essas pessoas [da indústria] costumam ser bandidos, mas nós entendíamos a linguagem deles! Nós tivemos que lutar. Chegamos da Islândia com os olhos bem abertos. Muito rapidamente, ganhamos fama de sermos duros nos negócios, pois sabíamos o que queríamos. Essas empresas não estão acostumadas com islandeses prontos para enfrentá-los. Ainda hoje sou assim: ninguém pisa no meu pé!".

Foto: David Strick.

"No início da banda, nosso equilíbrio era o ideal, mas aos poucos, todos foram se acostumando com seu cantinho, como quando se dorme a dois numa cama. O grupo adormeceu um pouco. Não houve mais surpresas, nos deixamos afundar como um velho casal. Nos primeiros meses, a gente surpreendia um ao outro com café da manhã na cama, um montes de presentes, jantar no meio da noite. E então o tempo passou... A espontaneidade deu lugar a compromissos, a arranjos silenciosos.

Felizmente, o Sugarcubes não era uma ocupação em tempo integral. A banda era apenas um galho da nossa árvore. O pequeno selo que fundamos na Islândia, organizou exposições, exibições de filmes, livros publicados, discos. Eventualmente, o Sugarcubes só existia no exterior, em turnê ou quando uma gravação era necessária. No resto do tempo, a vida normal era retomada. Foi assim que a banda se manteve, porque nem sempre fomos os Sugarcubes.

Eles são os meus melhores amigos! As pessoas não entendem que Sugarcubes sempre foi uma piada. Nos analisavam pelos critérios usuais do mundo do rock como credibilidade, vendagem de discos, shows, sem entender que estávamos ali apenas para nos divertir. Nós confundimos muitos dos críticos, foi tão engraçado. Estávamos lá para rir, para conhecer o mundo, para aprender. Os Sugarcubes ainda existem, mas agora eles estão dormindo", ela diz com um sorriso.

O fim do Sugarcubes:

"Abrir o peito com uma faca para extrair canções não é fácil, é um ato que se faz por hábito", disse Björk ao Les Inrockuptibles, em 1995. "Me lembro de passar horas discutindo com o Einar do Sugarcubes sobre isso. Ele achava que tinha que administrar tudo [ao escrever], calcular cada palavra, cada gesto. Eu, ao contrário, pregava a loucura, a criação total, a anarquia artística.

Ele disse que os Sugarcubes eram a coisa mais preciosa da nossa vida, que tínhamos que nos empenhar em preservar o grupo. Mas eu disse a ele que ele só tinhamos que seguir em frente, e parar de nos fazer essas perguntas. Se tivéssemos ouvido Einar, os Sugarcubes nunca teriam se separado. Teríamos administrado tudo silenciosamente, cinicamente.

O grande sonho dele era para comprar uma pequena ilha ao sol, com os royalties dos Sugarcubes. Ele já se via ali, barbudo e com camisa florida, vendendo livros antigos a turistas, servindo xícaras de cappuccino e sanduíches aos fãs do grupo que viriam em peregrinação. Eu e ele teríamos nos instalado em um pequeno palco na praia, cantado os sucessos da minha infância e do Sugarcubes para uma plateia de pessoas usando chinelos e maiôs.

Depois disso, teríamos saído em turnê novamente, antes de desaparecermos em nossa aposentadoria dourada. Einar queria uma vida tranquila, para ser reconhecido como um grande artista. Ele não entendia que eu aspirava a outra coisa, que as dificuldades me motivavam mais do que me assustavam".

Mas o Sugarcubes acabou em bons termos, e todos do grupo permanecem amigos até hoje. Björk sempre se mostrou muito grata a eles. Em 2017, para o Télérama, ela falou mais do caminho até a carreira solo e de como demorou para se sentir pronta para correr atrás dos próprios sonhos:

"Quando criança, meu sonho era simples. Eu me via vivendo sozinha, em uma ilha, junto da natureza, perto dos pássaros. E eu só tocaria para os animais. Eu me sentiria cercada por amor e amigos. Segui uma evolução inversa da maioria das pessoas. Eu era introvertida e feliz especialmente quando estava sozinha. Pode parecer ridículo, mas para mim, a felicidade estava em ficar cantando alto na nevasca islandesa! As outras pessoas me pareciam corpos estranhos, todos muito preocupados. Não sabia como me comunicar.

Mas quanto mais eu entendo isso, mais acredito na interação entre indivíduos. Se nos isolarmos, iremos morrer, especialmente nesta era em que a tecnologia está por todo o lado. A ideia de fugir, de viver como um eremita já não é nobre. Devemos nos unir! Ao longo da minha vida, fui forçada a deixar a minha parte introvertida de lado, como quando fiz aquele álbum aos meus 11 anos de idade. Eu estava aterrorizada, mas aquele disco me ensinou o que eu mais queria fazer.

A mesma coisa mais tarde, quando eu fazia parte de uma banda de guitarras barulhentas. Não sei como teria sobrevivido se não estivesse neste ambiente seguro na Islândia. Acima de tudo, tive a sorte de poder pegar o meu tempo e encontrar a minha própria direção. Minha carreira solo rastreou as decisões de uma mulher que sabia o que queria.

Eu consegui amadurecer com pessoas que me transmitiram muitas coisas. Começando com o Einar, com quem eu estive no KUKL e depois no Sugarcubes, grupos que me abriram o caminho para o punk anarquista e para todos os tipos de domínios culturais e intelectuais - arte, moda, cinema - que ainda me servem até hoje.

Graças a tantas outras pessoas que me motivaram, que saí da minha concha para me tornar o que sou. Sem eles, eu teria me encontrado na seguinte situação: Isolada e gritando: "Me tire daqui!". Mas teria sido tarde demais".

Foto: Juergen Teller.

Explicando para Rolling Stone, em 1993, o que era o Sugarcubes, Björk deu como exemplo uma festa: "A gente vai e então conhecemos as pessoas que estão lá. Daí arrumamos uma garrafa de vinho e algumas fitas. Nos divertimos juntos! E se as cortinas do lugar não são da cor que gostaríamos que fosse, e se as pessoas presentes estão contando piadas que não achamos graça, nós não precisamos subir em uma cadeira e dizer a todos o que dizer ou o que fazer! Era mais ou menos assim que a música do Sugarcubes era.

Somos amigos há muito tempo! E de jeito nenhum eu diria a alguém da banda o que fazer, porque eu os respeito e simplesmente os amo como pessoas, entende? O fato é que a banda nunca esteve tocando constantemente. Nunca fizemos planos de longo prazo!

No meu álbum, é mais como se eu estivesse convidando alguém para a minha própria casa, onde tudo é exatamente como eu quero que seja. E é muito particular, como se eu estivesse chamando as pessoas para entrar no meu quarto, mostrando a elas as minhas coisas, cozinhando uma pequena refeição para nós".

"Nós [do Sugarcubes] nos apoiamos na Islândia em condições difíceis por muitos anos, e isso é algo que não se pode esquecer facilmente", disse Björk para revista Musician, em 1994.

Foto: Jean-Baptiste Mondino.

A colaboração com Nellee Hooper:

"Nos conhecemos acidentalmente, por meio de amigos", disse Björk para a Rolling Stone, em 1993. "Mas ele se tornou um cara realmente empolgante e de mente aberta que estava exatamente na mesma viagem que eu. Ficamos tipo: "Foda-se estilos, foda-se categorias, vamos correr riscos, tentar qualquer coisa! Basicamente, não queríamos fazer um álbum que já havia sido feito antes. Tudo foi sobre nosso relacionamento musical, que era muito mágico. Acho que foi um caso de amor musical!

Acredito que os verdadeiros beats modernos são feitos de máquinas, carros, elevadores, obras na estrada, pessoas gritando e cachorros latindo! É assim que soa a vida cotidiana, quando fechamos os olhos e escutamos".


Identidade:

"Eu não acho que deveria haver um modelo de como uma garota da minha idade deveria ser. Acho que muitas pessoas olham para mim e dizem que sou estranha. Os problemas são dos outros se eles me veem assim, não meus. Mas o que já notei é que não conheço uma pessoa normal. Eu nunca conheci, na verdade. Todos nós temos nossas coisinhas especiais e estranhas, e devemos nos orgulhar disso!".

Para a revista Agenda, em 1993, Björk falou de parte da recepção do público:

"Na Islândia, as pessoas acham minha música estranha. Eles dizem que soa estranho para eles. E aqui na Inglaterra meus amigos dizem: "Sua música é estranha. Deve ser porque você é da Islândia". Então... estou em um lugar intermediário e realmente não consigo me ver agrupada com músicos da Islândia ou de qualquer outro país. Isso me dá uma razão para lutar por minhas opiniões.

Mesmo que um povo tenha o mesmo clima, a mesma taxa de inflação e os mesmos políticos, eles nunca farão a mesma música, porque são pessoas diferentes. Ainda assim, sinto que minha música é muito islandesa – exatamente porque sou da Islândia. Mas é a minha luta pela individualidade.

As pessoas são rápidas em colocar outras nações em gaiolas, dizendo que "os ingleses bebem muito chá, os franceses comem flautas e os dinamarqueses comem sanduíches". Eu não quero ser colocada em tal gaiola! São todos clichês, que as pessoas criam por causa de sua própria insegurança. E mesmo que os clichês sejam muito agradáveis, eles impedem as pessoas de serem indivíduos".

Durante entrevista para o Smash Hits, Björk falou sobre ser chamada de "infantil": "Eu não estava consciente disso até recentemente. Mas já sou adulta há muito tempo! Pago contas e bebo álcool como um adulta. O que mais posso fazer para provar isso? Estou apenas me divertindo, sabe?".

Foto: Mimi Steinwehe.

A turnê de "Debut":

"Meu maior medo desde os 11 anos era estar sob os holofotes! Nas bandas que toquei na Islândia, até tentei parecer a mais feia possível para que as pessoas ouvissem a música, e não olhassem para mim. Com o Sugarcubes, eu sempre ficava no fundo do palco. Só que eu sabia que um dia tinha que fazer um álbum que tivesse meu rosto na capa", explicou Björk para o The Sunday Times, em 1994.

Uma das coisas que a islandesa teve que enfrentar, após o sucesso de seu primeiro disco pós-Sugarcubes, foi a exigência de uma turnê:

"Meu instinto dizia que eu não deveria tocar o "Debut" ao vivo, as músicas dele não foram criadas com esta intenção. Eu queria esperar até o próximo álbum e, em seguida, escrever e organizar tudo para saber como iria executá-las, mas fui um pouco pressionada, e lentamente comecei a deixar de ser covarde", disse em depoimento publicado no Telegraph, em 1996.

"É muito difícil fazer com que uma banda fique no limite, porque tende a cair em uma forma previsível. Meu grupo ideal seria um de mente aberta, que não deixaria nada atrapalhar a criação de algo novo. Eles poderiam usar saxofones, colheres de chá, baterias eletrônicas ou qualquer outra coisa para comunicar, seja uma música experimental, pop ou apenas uma canção de ninar", explicou para a I-D Magazine, em 1993.

Para o Sonic Symbolism, em 2022, declarou: "Talvez depois da turnê de "Debut", eu queria aprender! Fiquei tipo: "Ok, como posso montar uma banda e tocar ao vivo, mas também poder ter essa energia bruta? Com configuração eletrônica, sabe? Isso era o que eu estava tentando.

Esse disco também é um pouco como uma criança praticando exercícios, sabe? As cordas com sons de Bollywood, as seções de metais... Tudo aquilo era pensando tipo: "Eu posso ter tudo o que quero!". Como se fosse uma espécie de cornucópia ou um banquete [com múltiplos pratos]".

"O primeiro show da turnê foi como um ensaio, e foi 10%", ela disse ao Vox. "E depois 20%, 30%... Sempre fui uma grande fã de coisas vivas!".

"Mas como sou uma cantora de música ao vivo, estou muito ciente do fato de que as canções não vão soar iguais duas vezes. E nem deveriam! Então a gente apenas aproveita o que estamos sentindo no momento", declarou em entrevista para NME, em 1993.

"Uma das maneiras de fazer "Debut" ao vivo era conscientemente tentar criar um novo som. Meio que fui pra isso! Se alguém considerasse o que eu faço como uma performance, eu sentiria que não fiz um bom show. É apenas a maneira como vejo as coisas", explicou para Mixmag no mesmo ano.

"Sempre fui muito antiestilo! Música não tem nada a ver com estilo, é uma questão de sinceridade. Então, eu queria tornar irrelevante o estilo usado. É como um suéter e um par de calças. Quando você conhece uma pessoa, tenta descobrir o que ela é. O que está vestindo não importa. As canções eram o que importava. Os jornalistas veem todos esses estilos diferentes como uma declaração, mas eu queria mesmo era tornar essa parte invisível, para então tornar as músicas mais visíveis", contou Björk para TimeOut, em 93.

O show foi imortalizado no DVD/VHS "Vessel", com direção de Stéphane Sednaoui. Um registro lindo no The Royalty Theatre, em Londres, gravado em maio de 1994.

Foto: Nick Knight.

Três décadas depois, com os olhos sempre no futuro:

Relançamento em edição deluxe com faixas extras? Turnê comemorativa? Pode esperar sentado, porque não vai rolar. "Debut" está completando 30 anos, um momento importante, mas Björk não tem interesse em comemorar.

"Eu não gosto muito disso", ela disse em entrevista para Rás 2 em fevereiro de 2023. No entanto, sua gravadora sempre quer celebrar esses marcos de alguma forma. "Sempre tem alguma coisa que faz aniversário", explicou ao lembrar que tenta participar da melhor maneira possível.

Mas eu quero os clipes em 4K sim, Björk! Crie vergonha na sua cara.

"Tenho muita sorte porque tenho Ásmund, Smekkleysa (selo), Derek (da One Little Independent), e todas essas pessoas com quem trabalho desde os 16 anos. É muito incomum no mundo da música, não conheço mais ninguém que tenha passado por isso". Ela acha ótimo que existam pessoas que se lembram e querem comemorar suas conquistas, mas na maioria das vezes ela diminui o ritmo. Não é muito fã de nostalgia.

Falando de "Debut", durante essa entrevista foi lembrado um momento peculiar de um dos primeiros shows de Björk na Islândia com as músicas do disco: "Eu pulei de paraquedas na frente da arena Laugardalshöll. Por que ninguém me impediu?", ela se pergunta, rindo. "Me lembro de estar no concerto com os "pés de borracha" do equipamento".

Foto: Reprodução.

Com o passar dos anos, Björk continuou a se aventurar cada vez mais na música. Em 2022, para o Libération, explicou: "As pessoas esquecem que no "Debut", havia "The Anchor Song" e "Aeroplane". Eu amo açúcar, amo pop. Ao mesmo tempo, sempre acompanho o que está acontecendo na criação contemporânea. Acho que estou sendo fiel a mim mesma ao seguir esse equilíbrio. Sempre fui assim, me recusando a jurar fidelidade a um ou outro. Sempre recusei o menor compromisso! E calculo minha sorte no fato de as pessoas continuarem a me seguir justamente por isso. Estou tentando não estragar tudo. Devo proteger essa integridade para mim e para os outros".

No ano passado, ela contou ao Le Point FR e Totémic que não acha que mudou tanto assim em sua abordagem de trabalho:

"Acredito que todos os meus álbuns são experimentais, mas nos anos 90 eu era mais conhecida pelas músicas pop. Para mim, uma música é um vaso maravilhoso que podemos jogar um problema dentro para tentar resolvê-lo. Eu vou fazer uma declaração! (risos). Meus álbuns sempre foram os mesmos e isso não mudou, eles sempre foram assim. Um equilíbrio entre música eletrônica experimental, techno, baladas e pequenos e doces toques pop aqui e ali, não muito, apenas pequenos toques.

Acho que nos anos 90, como qualquer pessoa na casa dos vinte anos, eu era muito mais impulsiva, mais intuitiva. E aprendi à medida que envelheci a estar mais atenta ao subconsciente. Eu entendo melhor o que está acontecendo. À medida que envelhecemos, ganhamos em espessura, em complexidade, o que não é necessariamente melhor ou pior, é como maçãs e laranjas, é apenas uma coisa diferente uma da outra.

Algumas coisas se tornam mais fáceis: em termos de técnica, organizar seu dia e sua energia mais facilmente, coordenar melhor [a relação] com seus entes queridos, respeitando seu próprio ritmo e sua própria energia. Fica mais fácil! Coisas assim. Quando eu tento pensar nesses diferentes períodos, eu diria que é o mesmo que com a minha voz, como eu já falei antes. Você ganha algumas coisas, você perde outras".


Foto: Dan Hansson.

"Acho que há uma certa força na simplicidade do "Debut" e em sua natureza impulsiva. Às vezes, é a simplicidade! Mas também tem o fato de que hoje tenho mais ferramentas à minha disposição, sou melhor em produção, melhor em arranjos... Bom, não sei o que acrescentar! (risos). Acho que cada período da vida é ótimo! É apenas diferente para todos".

E no final, tudo deu certo em tomar coragem para compartilhar essas canções com o mundo, como ela bem lembrou ao The Sydney Morning Herald, em 2017:

"Comecei a fazer minha própria música sozinha e foi até tarde. Não posso reclamar como as coisas acabaram! Eu mantive todas aquelas ideias dentro de mim por muito tempo, que finalmente se concretizaram quando comecei uma carreira solo".


- Agradecimentos mais do que especiais ao bjorkfr.
- Pesquisa e tradução: Björk BR.

Foto: Jean-Baptiste Mondino.

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