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Os bastidores da construção do som de Cornucopia, o teatro digital de Björk



O processo criativo:

A visão de Björk para o som de Cornucopia era criar uma experiência sensorial sobrenatural que une elementos visuais, auditivos e virtuais. Isso do cenário de composição do estúdio até o palco final da performance do show. É o que conta Steve Jones, que faz parte da equipe de produção do novo espetáculo da artista, que inclui uma cabine de reverb e som surround de 360º.

É um projeto ambicioso, cujas ideias iniciais começaram a ser desenvolvidas há quase 10 anos, ainda na época do Biophilia. Não é à toa que a islandesa o descreve como sua apresentação mais elaborada em toda a carreira, onde o lado acústico e o digital estão de mãos dadas. 

“Björk sempre ultrapassou os limites ao desafiar as experiências a serem oferecidas a seu público”, observa Jones. “Experiências sonoras envolventes são o tema principal no momento; e Björk e o engenheiro de John Gale estavam muito interessados ​​em explorar os mais recentes métodos de som imersivo. Eles dois lideraram tudo. John organizou demos de vários sistemas de som e a Soundscape apareceu através da Southby Productions do Reino Unido. Nós criamos uma afinidade e discutimos sobre como esse show poderia ser realizado em espaços muito individuais, como foi o caso do The Shed".

Para a grande produção, foi exigida uma abordagem bastante diferente do design comum na maioria dos casos. Não se trata de uma configuração padrão da esquerda para a direita. Vai muito além com os alto-falantes de 360º ao redor do público, compatível com as escolhas criativas de quais lugares esses sons surgem e quanto tempo devem durar.


“Na fase de planejamento do show, o The Shed ainda não tinha sido inaugurado e a equipe da casa de espetáculos estava colocando em prática seu fluxo de trabalho interno para administrar o local. Então, fazer perguntas como: "Podemos montar um equipamento com grande capacidade de carga?" era uma parte do desafio, era uma tarefa justa para um novo local, com uma nova equipe e infraestrutura. Por sorte, tivemos um ótimo "time de áudio" liderado por Jim van Bergen, para colaborar junto da Southby e encontrar soluções para necessidades individuais. Também recebemos grande ajuda da SAVI, nossa parceira D&B de Nova Iorque, que ajudou a fornecer e adaptar o sistema interno do The Shed. Tudo para combinar a configuração da infraestrutura de áudio com uma iluminação e produção de vídeo extremamente ambiciosas. Por isso, todos nós tivemos que aprender a fazer compromissos certos para o bem da experiência geral do público. Como sempre, grandes shows acontecem com um ótimo trabalho em equipe, e esse show neste local definitivamente precisava de um bom trabalho de equipe".

Desafios:

Tudo começou no Stúdio Sýrland, na Islândia. À medida em que a produção progredia, os ensaios passavam para o Backstage Center, em Londres, até toda a equipe finalmente viajar para a estreia no The Shed. Björk, como sempre, cuidou de todos os detalhes. Inicialmente, a equipe do Southby encontrou Gale e montou uma apresentação, em uma igreja, do que viria a ser o áudio, para que depois com a supervisão dela tudo pudesse ser ajustado e modificado. “Foi o ponto de partida da nossa jornada”, afirma Christopher Jones, diretor da empresa. “Na terra natal de Björk, nossa equipe recebeu o desafio de montar um sistema Soundscape para ela experimentar em um farol remoto, em um lugar 4×4 que só podia ser acessado com a maré baixa".

Jones explica que eles queriam materializar a noção de áudio perfeito imaginado por Björk: “Primeiramente, visualizamos e movemos objetos ao vivo em um software. Em seguida, pré-programamos as posições específicas deles no espetáculo em canais de reprodução dentro de uma sessão ProTools codificada por tempo para mostrar sequências. Grande parte do show é pré-concebida e sincronizada com uma ferramenta principal de reprodução que fica no palco. Além disso, também cuidamos simultaneamente de instrumentos ao vivo e de todos os efeitos vocais. Tudo isso também nos permitiu fazer registros mais complicados".


A experiência do público:

O design de som proporcionou uma nova experiência auditiva na apresentação para o público, bem como uma oportunidade única para a criatividade de Björk no palco: “Para mim, a música Body Memory é um momento de destaque no show”, observa Steve Jones. “Nós temos um coral em um ambiente no qual abusamos dos efeitos realmente musicais, mas também dinâmicos, vindos de vários ângulos acentuados pela equipe de iluminação, liderada por Bruno Poet. Também encontramos maneiras de quebrar criativamente as regras usuais do Soundscape com "objetos de som" que parecem vir de cima, apesar de não haver alto-falantes no teto. Essa música tem uma camada rica de tantas partes que o software consegue oferecer um resultado que não é exagerado demais para se absorver. O The Shed é um espaço muito individual, geométrica e acusticamente".

A parceria com o engenheiro de som John Gale:

"Há algum tempo, Björk já vinha me perguntando se poderíamos fazer shows com som em 360º. Ela tem trabalhado em alguns projetos de realidade virtual e está em uma abordagem totalmente imersiva em sua música e arte, então essa foi uma progressão muito natural para a produção.

O resumo inicial que eu tinha em mente era que a Cornucopia seria muito teatral e, portanto, um espetáculo transparente, com efeitos sutis e ruídos ambientais, não amplificados pelos softwares, mas reforçados para soar como se estivessem vindo diretamente do palco. Björk queria muito que esse elemento fosse introduzido, conversamos bastante sobre como fazê-lo. Havia também a preocupação de como fazer tudo em surround sem confundir o público.

Mas, como muitas vezes acontece no mundo dela, tudo se desenvolveu bastante ao longo dos meses. Cornucopia se tornou um mundo imersivo e ainda um evento musical. Então, ficou claro que enquanto o show tivesse esses momentos transparentes e tranquilos, também teria um áudio totalmente imersivo, com músicas que envolveriam o público de todos os cantos da casa de shows. Ainda cheguei a fazer toda a mixagem de maneira tradicional, mas percebi que nem sempre precisamos ser tão brutais. Não é preciso gastar tanto "espaço sonoro" entre os elementos de som, porque naturalmente se espalham pelo lugar e nossos ouvidos fazem a somatória. "Colamos" tudo de forma transparente. Foi uma jornada gratificante, precisei fazer ajustes na minha abordagem, percebi que muita coisa não se aplica mais.

Criativamente, fomos apresentados a tantas possibilidades. Eu particularmente adorei trabalhar com o departamento de iluminação. Foi tão divertido! Além disso, a ideia principal era envolver o público, unindo elementos visuais e o áudio. Björk realmente queria abraçar isso. 

Do ponto de vista do público, há momentos em que não ficamos exatamente cientes da tecnologia usada, como por exemplo: O fato do coral ter sido cuidadosamente colocado (para não soar como algo amplificado), o uso de alto-falantes especiais para as flautas (para que o som viesse de determinada direção), os instrumentos de percussão (incluindo os "tambores de água") colocados como espaço físico no palco, os backing vocals percorrendo todas as direções da sala (até mesmo perdendo um pouco do vocal -ao vivo- de Björk entre eles), as flautas e batidas que parecem girar em torno da cabeça das pessoas, ou a parte em que (por um efeito de som) a plateia é colocada dentro da cabine de reverb com ela. Tudo isso foi planejado no design de som. É assim que Björk passeia sonoramente entre o público.


Aliás, penso que cada um deles tira algo diferente desse show. Visualmente, é incrível, então às vezes um membro da plateia mergulha tanto nesse universo que nem percebe que o Soundscape ou o Surround estão sincronizados. Muitos deles comentam sobre como foi maravilhoso estarem imersos no sistema de áudio. Eu encaro ambas as situações como uma vitória".

No tourbook de Cornucopia, Björk falou sobre como está contente em finalmente ter uma cabine de reverb em seus shows: "Ela se parece um pouco com uma capela para uma só pessoa. Muitas vezes, em tudo do ambiente teatral, as coisas são feitas para parecerem boas, mas eu queria que o som acústico fosse de qualidade. E foi tão inspirador quando tudo começou a tomar forma! Mesmo sendo uma espécie de miniatura em comparação a templos e catedrais, se alinharam com a linguagem estética. Em diversas ocasiões, quando aqueço minha voz, sinto que sonoramente, dentro de nosso crânio, temos nossa própria capela. E pensando dessa maneira, o teto dessa cabine é dessa natureza. Uma cúpula matriarcal. A 'umidade' que o som reverb dá ao tom das canções conecta ao mesmo tempo em que comunica. Acredito que ressoa semelhante a sensação que temos depois de uma boa aula de ioga. Alguns professores mencionam que, após finalizarmos uma meditação, há uma tigela cheia de mel quente flutuando acima de nossas cabeças. Mel disponível para ser derramado metafisicamente sobre nós quando necessário para nos curarmos espiritualmente, para treinar nossa catedral interna".


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