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A paixão de Björk por Kate Bush

Foto: Divulgação

"Eu gostaria de ouvi-la sem parar. Era muito divertido acompanhar sua música na Islândia. Eu acabei adquirindo os álbuns muitos anos depois que saíram, então eu não tinha qualquer contexto, eu estava simplesmente ouvindo-os no meu próprio contexto. E todas as minhas canções favoritas eram as “lado-B” do terceiro single, por exemplo.

E então eu vi alguns documentários sobre ela, era a primeira vez que eu via as coisas de um ponto de vista britânico e eles estavam falando: "Ela esteve no Top 3 das paradas musicais, e foi no Top of The Pops, e fez muito melhor do que o fracasso do álbum anterior”. E foi o oposto total para mim! É tão ridículo, esta narrativa de sucesso e fracasso. Como, se você faz algo surpreendente, a próxima coisa tem que ser horrível. É como o tempo ou algo assim. Dez anos mais tarde, alguém assiste na Islândia ou na China e é totalmente irrelevante.


Para mim, ela sempre representará a época de exploração da própria sexualidade, a transição de garota para uma mulher. Tinha tantos álbuns dela na casa dos meus pais, então via muitas das capas por lá, mas achava que eram muito machistas, o que eu não gostava.

Ela é tão completa! A música, as letras e a maneira como ela abordava os assuntos, tudo fazia sentido. Especialmente para uma garota de treze ou quatorze anos. Era a primeira vez que eu tinha meu próprio quarto. Mesmo que tivesse espaço o suficiente para uma cama e uma mesa, senti como se fosse um palácio. Meu avô me deu uma grande lâmpada com uma luz azul, era como entrar em um aquário. Um dia reencontrei um álbum dela e você pode imaginar o resto, né? Eu costumava fechar a porta e não queria que ninguém entrasse.

Minhas músicas favoritas mudaram ao longo do tempo. Gostei muito daquela sobre o Peter Pan. Obviamente, eu amava The Man With the Child in his Eyes. Todo mundo adora a voz da Kate, mas acredito que o que é realmente subestimado sobre ela é a questão da produção. Acho que é realmente algo original e feminino, com mais primitividade do que os homens, e as próprias mulheres, gostariam de acreditar que temos. Se tivesse sido apenas a voz e o olhar, não tenho certeza se eu teria me ligado tanto a ela - o que é tão comum, uma garota que parece excelente e canta muito bem. O que acho muito especial sobre Kate Bush é que ela não fez isso. Ela criou seu próprio visual e produziu seu próprio som.

Existe uma intemporalidade em sua música que, para mim, pessoalmente, tem um sentimento nostálgico.

Eu acho que nunca me senti confortável no estilo punk que adotei na minha adolescência. Na época, eu li muitos livros de ficção científica, então acho que as perguntas que vão além de mim sempre me interessaram, como também acontece hoje em dia. Quando alguém é educado por esse tipo de questionamento, necessariamente se torna otimista por natureza, porque aguarda uma resposta sobre tudo. Quando adolescente, eu ouvia muito mais a Kate Bush e o Brian Eno do que as bandas punks do estilo que eu tocava. Isso me levou a estados de êxtase e euforia tão elevados. 

Foto: Santiago Felipe

Nos últimos anos, tenho notado alguns aspectos da nova geração. Estou trabalhando com a Arca, que é da Venezuela. Estávamos brincando porque um cara fez uma pesquisa online de onde meus fãs estavam - de alguma forma você pode mapear isso - e, aparentemente, o meu típico fã é um cara gay mexicano de 20 anos de idade! Fiquei muito orgulhosa! Eu não teria voltado o trabalho da minha vida para isso. Tenho a sensação de que há algo no espírito de uma época, em que chega a hora de um pouco de energia matriarcal, da mesma maneira que eu costumava olhar para Kate Bush. De qualquer forma, fiquei encantada.

Outro assunto importante é a questão do feminismo, acho que a maior ajuda que posso oferecer é simplesmente fazer as coisas. Quando as meninas me perguntam: "Você programou suas batidas?" E eu: "Sim, a maior parte delas. Escrevi a linha do baixo em Venus As A Boy, então me respondem: "Realmente, foi muito importante para mim saber disso". Eu nunca pensei em mim como uma inspiração feminista, e nos últimos anos ousei fazer isso. Quando olho para trás e lembro de quando eu tinha a idade delas, só o fato de que Kate Bush produziu seus álbuns me deu esperança. Não era que eu quisesse copiar sua música ou a de Joni Mitchell, era o fato de que elas realmente faziam, e que era possível.

Antigamente, era algo meio sexista. As pessoas pensavam que estavam loucas, pois ficavam constrangidas em admitir que realmente gostavam dela. Eu acho que uma coisa boa sobre o feminismo de hoje em dia é que ela não é uma 'ameaça' sobre tudo".

Fontes: Les Inrockuptibles, site oficial, AnOther Magazine, NOISEY. 

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- Jornalista responsável por matéria publicada na Raygun Magazine, setembro de 1997. 
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