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Björk: uma "esquisita" gloriosa que me ensinou a ter orgulho de ser diferente


Mergulhei de cabeça na admiração por Homogenic e desde então, cada um de seus álbuns soou como um ponto de virada em minha vida.

Foto: Dominic Favre (2007)

Não fui uma criança esquisita em si, mas parecia esquisito. Quando era mais jovem, me destacar era algo que achava ótimo. Eu queria que as pessoas me vissem, mas, à medida que fui ficando mais velho isso mudou. Desejava desesperadamente ser como todo mundo.

Era um adolescente gay, confuso e não assumido, cujo jeito entregava que não poderia entrar em uma sala e sumir. Eu precisava de estranhos na minha vida, precisava saber que não era necessário parecer ou agir como todo mundo, que o que o tornava alguém diferente poderia ser "alquimizado" em uma força.

Para mim, Björk era como uma pessoa "esquisita" gloriosa. Uma alienígena, como foi rotulada pelo mainstream, que a recebeu em seu seio após Debut, em 1993. Suas excentricidades estavam embutidas em sua identidade pública: ela é islandesa, então falava com um "sotaque engraçado". Quando ganhava prêmios, não dizia coisas como: "Gostaria de agradecer a Deus e a minha gravadora". Seus videoclipes eram expressões oníricas de mundos que ninguém jamais havia imaginado; e sua voz cantada trazia diversas marcas próprias em meio ao lado dramático e gutural. Por volta da época do Post, em 1995, e de seu single de maior sucesso, It's Oh So Quiet, ela se tornou um alvo dos tabloides do Reino Unido, alimentados pelo infame evento em um aeroporto de Bangkok. 

Eu estava ciente de Post e Debut. Lembro-me de ficar fascinado pelo vídeo de Human Behavior, no qual Björk se apresentava como observadora de uma raça humana que não entendia totalmente ou não sabia como interagir. Mas foi só em Homogenic, de 1997, momento em que ela lutava contra as percepções convencionais, que mergulhei de cabeça em sua obra.

Fiquei imediatamente atraído pela imagem dela na capa do disco, uma princesa guerreira serena, mas pronta para a batalha. Nunca tinha comprado um álbum baseado apenas na capa, ou sem ouvir pelo menos dois ou três singles. Era uma coisa emocionante, como mergulhar em um universo governado pelo "estranha" mais habilidosa da música! O título do projeto também me fazia questionar: seria uma alusão à sexualidade? Uma nova forma de viver fora de determinados rótulos?

A onda de emoções de Homogenic me abriu um outro mundo. Enquanto isso, sua "paleta sonora" raivosa, com batidas vulcânicas misturada às cordas arrebatadoras (quase lindas demais para suportar), combinava com meu humor, que sempre oscilava. Para ser honesto, depois de anos obcecado com a fase "pós-imperial" de Michael Jackson, Björk também atendeu ao meu constante desejo adolescente de ser visto como alguém que poderia, na melhor das hipóteses, ser visto como legal.

Seu mundo criativo envolveu tantas mentes, incluindo Michel Gondry, Mark Bell, Stéphane Sednaoui, Alexander McQueen... Eu gastei muito dinheiro colecionando singles físicos, boxsets luxuosos, livros não oficiais, ingressos para shows, camisetas...

Minha obsessão era genuína e duradoura. A letra emocionante de Jóga, especificamente "estado de emergência", podia ser frequentemente encontrada rabiscada em meus cadernos, envelopes rasgados e nas bordas de jornais. Eu ansiava por estar com o coração partido como a protagonista de Unravel, ou tão caótico quanto o que quer que estivesse acontecendo em Pluto.

Björk se envolveu com a condição humana de maneiras abstratas e emocionantes, que pareciam canalizar as ideias preconcebidas das pessoas para algo poderoso. O fato de ela ter entregado tudo com uma voz que parecia, e ainda parece, enviada de outro planeta, apenas elevou aquela admiração.

Cada um de seus álbuns soou como um ponto crucial de mudança em minha vida. Vulnicura, por exemplo, chegou no mesmo dia de uma notícia devastadora para a minha família. A faixa Black Lake marcou uma tristeza inigualável, mas também foi uma espécie de cura. A dor de Björk refletia a minha. Os vários universos de cada disco anterior, com lugares de um conforto escapista, agora estavam bastante enraizados na realidade.

Ao final de Black Lake, tem uma dica sobre a chegada de algo novo: "Eu sou um foguete brilhante voltando para casa. Enquanto entro na atmosfera, queimo camada por camada". Ali está o poder de cura da transformação física e emocional, assim como Björk sempre me ensinou.

- Michael Cragg para o The Guardian, março de 2021. 

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