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Björk fala sobre a cultura do cancelamento

Björk disse ao The Atlantic que se preocupa que "as campanhas de nome e vergonha" nem sempre sirvam à cura e à compaixão. "Se você cancelar todos, isso não é uma solução. Especialmente com os homens mais jovens, eles precisam ter a oportunidade de evoluir, crescer e aprender".

Acontecimentos recentes a testaram nessa questão. Um de seus principais colaboradores em "Fossora" foi o duo indonésio Gabber Modus Operandi. Uma acusação de abuso sexual que surgiu online neste verão levou um dos integrantes, Ican Harem, a emitir um pedido público de desculpas e entrar em hiato.

A artista editou a voz de Harem da faixa-título de "Fossora" e removeu takes dele do vídeo planejado de "Atopos". Mas quando deu essa entrevista, ela ainda estava debatendo se também deveria apagar do álbum o criador de beats do duo, Kasimyn, que não foi acusado de nada. "Quero ter coragem para estar na zona cinzenta/turbulenta", ela disse ao jornalista. Uma semana depois do bate-papo, o vídeo de "Atopos" estreou, com takes e a voz apenas de Kasimyn.

Quando questionada pelo Frettabladid se sente uma mudança após o movimento Me Too e uma possível reação negativa no debate, Björk respondeu: "Estamos meio que cercados por pessoas que pensam como nós, o que às vezes é um pouco perigoso. Mas acho que isso ainda é um avanço. Depois do Me Too, tudo ficou muito preto e branco. As pessoas eram monstros ou anjos. A segunda onda foi mais para entrar nessa área cinzenta [do debate]".

Björk diz que discutiu com seus amigos como hoje, as questões do Me Too se tornaram algo calculista: "Se uma coisa do Me Too surgir no local de trabalho, é tipo: "Oh, tudo bem. O quão sério foi?" Umas quarenta coisas para se analisar e saber como agir. Nem sempre fazendo igual, nem sempre sendo apenas um chanceler ou um "não chanceler". Em vez disso, fica tudo apenas como uma questão de "contabilidade".

Acho importante que a gente se permita entrar nessa área cinzenta, porque não podemos colocar todos os homens que fizeram algo ruim em uma ilha e nunca mais falar com eles. É preciso haver perdão e é preciso haver uma diferença entre os crimes.

Mas com maior responsabilidade, estamos todos definindo isso juntos. Eu gostaria de poder ligar para a "polícia do Me Too" e que eles cuidassem de todas essas coisas. Mas esse luxo não está disponível. Nós mesmos temos que sentar, pegar uma xícara de café e resolver isso, caso a caso. E é assim que cresceremos juntos. Há uma reação quando o dinossauro balança a cauda. Mas, no geral, o navio está virando na direção certa".

O La Tercera perguntou a Björk como o feminismo atual permeou sua forma de ver o mundo, e ela respondeu:

"Eu acho que (o feminismo) é um trabalho em andamento, que ainda está crescendo, que está dando belos passos. As meninas nascidas hoje e suas filhas, viverão em um mundo melhor do que as meninas nascidas há 20 anos. Isso é lindo!

Com o movimento Me Too, muitos de nós começamos a questionar nosso comportamento, o que é ótimo. Mas cada incidente é diferente, nenhum de nós é juiz e cada um pode ter sua própria opinião sobre cada incidente que afeta as pessoas que trabalham com você ou que estão próximas a você. Sinto que é um movimento que ainda há muito trabalho a ser feito. Isso não é fácil, mas podemos fazer juntos".

Para Warp, Björk explicou: "Acho que globalmente, com a internet, estamos ganhando mais voz. E acredito que, por exemplo, o Me Too não teria acontecido dessa forma sem uma ferramenta como a Internet. E, claro, primeiro tudo era tipo: "Se algo aconteceu com você, diga". E então muitas pessoas foram canceladas, e talvez desse jeito fosse sem chance de mudança.

E depois uma segunda onda do Me Too aconteceu, um ou dois anos atrás. E acho que foi aí que as pessoas começaram a se aprofundar nessas áreas cinzentas. Não é realmente preto e branco, sabe? É muito mais matizado e muito mais complexo. Cada caso é diferente, não há dois casos iguais, embora existam certos padrões de comportamento.

Estamos todos criando nossos valores juntos, como se 7 bilhões de pessoas concordassem em modificar nossa concepção de tudo. Agora, se algo do Me Too acontecer, na família, no trabalho, entre amigos ou online, cada caso é um caso.

Tenha 20 detalhes e diga: "Sim, era desse jeito aqui, mas ali era diferente". Assim, a complexidade começou. Sempre dizemos: "não consigo lidar com a complexidade, isso é demais para mim", mas agora sinto que o Me Too se tornou algo como Atman. É quase como uma lista de muitas, muitas pequenas coisas e então devemos decidir: "Ok, conforto essa pessoa? Eu faço isso publicamente? Eu não torno isso público? Eu continuo falando com você? Você deve se desculpar?". 

Tudo isso tem muito mais camadas a se considerar, você sabe o que quero dizer? E na verdade eu acho que é uma coisa boa, porque é uma questão muito complexa e fingir que é simples banaliza, não é verdade. Então é claro que vai levar milhares de anos, ou o que for, mas todos nós vamos formalizar isso juntos e globalmente. E penso que é uma coisa boa que não se trate apenas de levar a julgamento ou não levar a julgamento, que haja mais, uma reflexão".

- Entrevistas para The Atlantic, Frettabladid, La Tercera e Warp, 2022.

Foto: Interview Magazine.

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