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Curiosidades sobre a versão de Björk para Travessia e o especial de TV gravado no Rio em 96

Essa história ainda me encanta...

Arnaldo DeSouteiro é um produtor musical, arranjador, músico, jornalista, publicitário e educador brasileiro.

No dia 28/01/2023, das 13h às 17h, o Sesc São Paulo apresentará uma homenagem aos 80 Anos de Eumir Deodato no Centro de Pesquisa e Formação, com entrada gratuita.

Arnaldo irá oferecer um workshop sobre o incrível trabalho do artista brasileiro. Ele pediu que a produção do espaço imprima algumas cópias do manuscrito original de "Isobel", com o arranjo completo do sucesso de Björk. A intenção é distribuir durante o evento caso alguém tenha interesse.

Saiba mais clicando AQUI.

Relíquias:

Nas redes sociais, @arnaldodesouteiro, compartilhou fotos de alguns dos tesouros de seu acervo pessoal:

- Cópia promocional antecipada do que veio a ser o álbum "Post":

- Fita com títulos provisórios das faixas do disco:

- Manuscrito original do arranjo de Eumir Deodato para "Isobel", clássico de 1995.


Além disso, ele contou histórias importantes que nos ajudam a finalmente entender melhor os bastidores da gravação da versão de Björk para "Travessia" do Milton Nascimento, que infelizmente nunca foi lançada oficialmente. Segundo matérias da época, como a da Folha, a faixa foi planejada para a coletânea Red Hot + Rio.

O relato também traz detalhes da origem das filmagens do famoso show da "Post Tour" no Rio de Janeiro. Ambos os registros foram disponibilizados na internet em baixa qualidade há alguns anos:

"Tive o prazer de trabalhar com Björk em alguns projetos. Fiz o roteiro para o primeiro show dela no Brasil, em Outubro de 1996, no Free Jazz Festival. Eu e a empresária Federica Boccardo estávamos há anos tentando fazer uma apresentação de Eumir Deodato no Rio de Janeiro. Até conseguimos um concerto em São Paulo, em 1993, com orquestra sinfônica, que foi sensacional, mas no Rio não rolava nada.

Quando a Federica, então assessora da Monique Gardenberg na Dueto Produções, que organizava o Free Jazz, me ligou confirmando a vinda da Björk para o festival, eu estava excursionando com Ithamara Koorax pelo Japão. Mas imediatamente vi ali a chance de levar Eumir para o Brasil, costurando a participação dele no show como convidado especial, já que ele estava trabalhando com a islandesa.

Björk adorou a ideia, e fiz o roteiro de modo a incluir Eumir regendo a seção de cordas. O show de estreia no Rio foi um mega sucesso, superlotado, com a plateia em delírio. A primeira vez na vida em que ela cantou com "cordas de verdade" (como ela dizia) no palco, e a partir de então ficou fascinada por shows com orquestra.

Convidei vários amigos para o show, inclusive Marcos Valle, que assistiu a apresentação ao meu lado. Quando Björk chamou Eumir ao palco, o genial maestro recebeu uma tremenda ovação que nem ele esperava. Na introdução das cordas em "Isobel", as pessoas urravam. Em "You've Been Flirting Again", o êxtase total".





"A "esticada" aconteceu na casa noturna Ritmo, em São Conrado. Filmamos tudo (show, ensaio, festa, entrevistas) para um especial de TV (do canal Multishow), mas não houve acordo financeiro, e nunca foi exibido. Hoje, me deparei com um post que me fez contar esta história. Quem sabe um dia não exibimos o concerto?".

Em 1998, Björk deu uma entrevista para O Globo com Milton Nascimento, que lamentou não ter assistido ao show dela no Free Jazz Festival, pois estava em turnê na Europa. Ela respondeu: "Ainda bem, eu estava tão doente naquela época. Me apresentei ardendo em febre e não gostei, tanto que cancelei os outros shows que faria no resto da América do Sul. Mas acabei indo para uma ilha (na região de Angra dos Reis) com meu filho, foi um paraíso". 

Eu conversei com Arnaldo no Instagram, que falou sobre o tempo que Björk passou em Angra:

"A ilha é da Irene Singery, que é amiga do Eumir. A Björk conheceu ela através da gente, daí a Irene a convidou. Essa ilha, inclusive, que fica em Angra, foi durante um tempo a Ilha de Caras, da revista. A Caras já teve várias ilhas, uma delas era essa (Ilha da Piedade). Eu não cheguei a ir pra lá nessa época, mas o que eu soube é que a Björk cancelou os shows, porque não queria sair da ilha.

Adorou tanto aquilo! E ela começou a chamar uns amigos, veio gente da Islândia pra ficar com ela lá. Depois desse show [no Rio], quando a gente foi lá pra Ritmo, que é uma boate com restaurante que tinha em São Conrado, ela estava ótima. Dançou a noite inteira, ficou feliz da vida".

Sobre a gravação do show no Rio, Arnaldo me disse que a filmagem disponível na internet, com um registro de um único ângulo do palco, não é a única fonte que existe da apresentação, mas apenas uma parte que alguém publicou. A cópia que ele tem até hoje é do show na edição final, com imagens de quatro câmeras diferentes, incluindo uma móvel.

"Trabalhamos por vários dias seguidos para a Björk aprovar o mais rápido possível. Quatro dias de trabalho pesado. Ela adorou, mas não houve um acordo financeiro com a produtora e a exibição foi desautorizada. Filmamos também cenas na casa noturna Ritmo, onde Björk comemorou com Eumir após o show".

😦

"Era para ser um especial lindo, né?", ele comentou comigo. Realmente! Seria muito bom algum dia poder assistir a esse espetáculo tão especial. Imagine só assistir a esse show completo e digitalizado, com tanta riqueza de detalhes! Um sonho!

Infelizmente, talvez não seja possível. Respondendo a um comentário em um post no Facebook, Arnaldo disse: "Foi um grande concerto, mas eu não possuo os direitos autorais. Eu era apenas o roteirista".

😭

Mas... temos uma surpresa! Ele compartilhou gentilmente conosco os registros inéditos de "You've Been Flirting Again" e "Isobel". Confira:


No YouTube, ele também contou uma outra curiosidade em um comentário de um vídeo: ""Travessia" estava no setlist original, mas no último minuto ela decidiu não cantar a música".


Travessia:

"Fiz a produção executiva da gravação de "Travessia" em Fevereiro de 1996, quando escolhi os músicos Jamil JoanesCarlos BalaNelson Angelo, o engenheiro Marcelo Saboia e o estúdio Impressão Digital.

Tive a honra de co-produzir a gravação de "Travessia" feita por Björk com Eumir Deodato, que me encarregou de escolher estúdio, músicos, engenheiros, etc. Ele viajou de Nova Iorque para o Rio em fevereiro de 1996, especialmente para a gravação.

Björk queria um arranjo totalmente acústico e que a base fosse gravada no Brasil! Marquei uma data no estúdio Impressão Digital (Barra da Tijuca, Rio de Janeiro), e convidei músicos como o baixista Jamil Joanes, o baterista Carlos Bala e o guitarrista/violonista Nelson Angelo, um dos integrantes do Clube da Esquina, e que tocou anos com Milton Nascimento e também com Elis Regina. Além de Marcelo Saboia como engenheiro de som. Eumir Deodato no piano acústico, obviamente.

Só que no dia da gravação, ao chegarmos no estúdio, o piano havia sido alugado para um show da Gal Costa no Canecão... O jeito foi usar um teclado, providenciado pela jornalista Claudia Cavallo (editora da revista Backstage naquela época), para que Eumir pudesse gravar a base junto com os outros músicos. Cortou um pouco a animação, mas no segundo take a base ficou pronta.

O engenheiro de som Toninho Barbosa, que eu havia levado para assistir a gravação e me assessorar, chorava de emoção. Depois, Eumir substituiu o teclado pelo piano em outro estúdio e adicionou as cordas em Londres, tendo Isobel Griffiths como arregimentadora. Eumir, assim como a maior parte do staff, queria que Björk gravasse a música com a letra em inglês de Gene Lees, mas ela preferiu cantar em português mesmo porque, mesmo sem entender o idioma, havia aprendido a música através da gravação original de Milton Nascimento".

Quando perguntei ao Arnaldo se os vocais de Björk em "Travessia" foram gravados no Brasil, ele respondeu que a intenção era gravar tudo no país, inclusive em um dueto com o Milton Nascimento, no Rio de Janeiro. "Mas Björk acabou gravando a parte vocal em Londres, onde também foi gravada a orquestra", explicou.

"Aliás, Luiz Bonfá também assistiu a gravação da base de "Travessia", porque estava gravando um outro disco produzido por mim (dele com a Ithamara Koorax) naquele mesmo estúdio. E o Bonfá e o Eumir eram muito amigos. Mil histórias!", finalizou.

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