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As conexões da Islândia com a arte de Björk

"Quando abro o link no zoom, o nome «Bear/Ursa» aparece na tela preta. A câmera está desligada, não sei quem está por trás disso. "Saudação", responde a voz misteriosa, segue-se um silêncio. Para quebrar o gelo, pergunto como está o tempo, e ela responde: "Aqui em Reykjavík a luz está chegando, todos os dias o sol nasce dez minutos mais cedo". Então reconheço a voz, aquele som que lembra flautas cheias de vapor, madrepérola, lava solidificante, aurora boreal.

É Björk, a etérea e multifacetada musicista da Islândia. Habituada aos espaços pneumáticos da sua ilha, ela sente prazer nas pausas, adora calibrar sólidos e vazios. Enquanto fala, ela que teve uma banda punk quando menina e se dividia entre shows e trabalho em uma fábrica de peixes, é delicada como um floco de neve. "It's Oh So Quiet", ela cantou em 95 em um dos sucessos que a fizeram explodir em todo o mundo. "Sempre fui atraída por atividades lentas, mesmo sendo uma pessoa muito 'física'", diz ela.

Há quem sempre a tenha definido como "eclética", porque é impossível concentrar numa só palavra os gêneros que incorpora no seu grande géiser artístico, entre trip hop alternativo, pop e sons new wave com inflexões nórdicas, jazz e techno dance. Talento extraordinário – ela escreveu seu primeiro álbum aos 11 anos -, multi-instrumentista refinada (toca gaita, piano, flauta, oboé, flautim) e foi atriz (com prêmio de Cannes para "Dancer in the Dark"), Björk estará de volta aos palcos em 2023, com um gigantesco espetáculo cinematográfico. Em abril será uma das atrações no Coachella para um maxi-concerto que celebrará 30 anos de carreira em versão orquestral, e a partir de setembro iniciará a "Cornucopia Tour", que também chegará à Itália com duas datas, em Milão (12/9) e Bolonha (23/9).

- Ela nasceu e cresceu na Islândia, entre desertos de lava e montanhas de arco-íris. Quantas inspirações vêm da natureza não domada pelo homem?

"Nesta ilha, a gente pode treinar o deslumbramento todos os dias, dar um passeio na praia, ter o olhar perdido na aurora boreal ou nos vapores da água quente. Qualquer som pode virar música, basta saber ouvir. Mas já vi sítios igualmente selvagens na Itália. Voltei três vezes a Lampedusa, lá eu me sinto na Islândia". 

- Sua turnê começará em setembro. Como será?

"Acho que é o trabalho mais envolvente que já fiz, certamente o mais complexo, com sete flautistas, clarinetistas, percussionistas, um coro e muitos telões. Vai ser uma espécie de grande teatro digital. Começamos em 2019, aí chegou a Covid. Mas de certa forma foi bom parar, porque fiz um novo disco, por isso agora no palco vão estar "Utopia" e "Fossora", o meu novo álbum".

- Fossora significa "aquela que cava": um retorno à terra.  

"É um "álbum de fungos", uma reflexão sobre as raízes e o meio ambiente. Representa o momento em que as ações ideais devem ser vividas. "Utopia", o álbum anterior, é um lugar nas nuvens, o sonho de um futuro a ser imaginado, contém contradições, questionamentos. "Fossora" tem a mesma alma, mas com os pés na terra".

- Mas também é comovente, desata os nós do coração. Tem duas canções dedicadas à sua mãe, falecida em 2018. 

"Quando crianças estamos convencidos de que as pessoas que amamos podem viver 500 anos, depois descobrimos que não é assim. "Sorrowful Soil" expressa a tristeza implacável, o momento em que pensamos: "Este é o último capítulo da vida dessa pessoa, chegamos lá". Sentimos essa melancolia". 

- E depois há o épico "Ancestress", escrito logo após a morte dela.

"Quando minha mãe morreu, eu escrevi páginas e páginas, depois trabalhei na edição para ter certeza de que tinha chegado à essência [daquelas palavras]. Agora entendo que essa canção também fala de mim e do meu irmão, retrata as sensações nos corredores do hospital, as emoções atormentadas. Ninguém nos ensina a lidar com um pai que está doente, é um papel em que de repente nos encontramos e que temos que improvisar, passar por todo o processo. Essa faixa conta o que significa testemunhar o sofrimento de uma pessoa que amo".

- Em "Fossora", há uma sensação de separação, perda e renascimento nas canções.  

"Na realidade, "o álbum da dor" foi "Vulnicura". Todos nós somos feitos assim, quando algo traumático nos acontece temos que fechar um capítulo, e então dizemos "Ok, vamos começar de novo".

- Você cresceu em um bairro hippie com uma mãe ativista. Que relação tinha com ela?

"Quando ela se divorciou do meu pai, eu tinha um ano de idade. Nos mudamos para fora de Reykjavík, para um subúrbio boêmio onde viviam artistas, pessoas que não se encaixavam nas regras, pessoas com pouco dinheiro. Morávamos em uma casinha. Se chovia muito, tínhamos que levantar à noite para esvaziar o balde cheio d'água, mas quando crianças parecia emocionante, era uma época muito feliz.

A natureza do relacionamento entre pais e filhos é interessante: a percepção muda com o tempo. Não lembro qual o poeta que disse isso, mas uma vez quando questionado se uma de suas obras havia sido escrita para sua mãe, respondeu: "Nada do que escrevo é sobre ela e tudo que escrevo é sobre ela". Agora que estou mais velha, entendo que ela rompeu com o patriarcado e se mudou para lá porque, embora fôssemos pobres, éramos livres".

- Então ela era forte, mas também criativa, imaginativa.

"Ela havia encontrado um trabalho muito "físico" na frente de casa, onde aprendeu a ser carpinteira. Então ela construiu nossas camas e outras coisas. Depois fez a ligação da energia, costurou nossas roupas e cozinhou. No meu tempo de criança na Islândia comíamos mal, muito salgado, com muitos molhos e conservas, o que é normal para uma população que vive há mil anos no frio. Em vez disso, ela era tipo: "Ok, sem açúcar, apenas comida fresca". Vegetais, alimentos naturais. Na época me rebelei contra os princípios dela, mas hoje sou muito grata a ela por minha relação equilibrada com o que como".

- Desde tenra idade, você estava cercada por música.

"O mais musical de todos paradoxalmente era o meu padrasto: à noite, ele se sentava comigo e aprendíamos novas canções. Minha mãe se dedicava à filosofia e à espiritualidade, ela se interessava mais pelo meio ambiente. Na nossa casa cada pessoa era importante, não havia hierarquias, as crianças eram tão relevantes quanto os adultos e os "grandes" tinham vinte e poucos anos. Meu padrasto é apenas 17 anos mais velho que eu".

- Há outra mulher, que você já definiu antes como modelo, sua avó paterna.

"Depois que meus pais se separaram, passei os fins de semana com ela e em determinada época, ela foi para a escola de arte e começou a pintar. Fui modelo dela, tem muitos quadros que me retratam nessa idade. Ela era calma, sólida e forte. Foi a primeira mulher, na verdade uma das primeiras pessoas na Islândia, a ter uma carteira de motorista na década de 1940!

Ela era muito independente. Muitas vezes ficávamos juntas por duas horas em silêncio total. Eu adorava isso. Existia ali uma presença real e era algo muito vibrante, mesmo que não se dissesse uma única palavra. Era tridimensional. Quando comecei a escrever música, percebi que eu sou a continuidade dela, criando coisas que de alguma forma ela também faria".

- Anos atrás, falando em sexualidade fluida, você declarou que escolher entre um homem e uma mulher seria como "escolher entre bolo e sorvete". O que você acha disso hoje?

"Acho que foram os anos 90, mas é uma frase tirada de contexto. Era um discurso muito mais longo. Ainda acredito que somos todos bissexuais em graus variados, cerca de 1%, cerca de 50% ou 100%, mas nunca compararia gênero com comida, isso seria desrespeitoso.

Havia muitos repórteres homens na época, que queriam me pintar como uma "elfo excêntrica". Eles colocavam palavras na minha boca que eu não disse. Infelizmente, não havia muitas jornalistas mulheres. Desculpe, estou dizendo coisas que não interessam a você".

É interessante saber como ela via os jornalistas e como se sentiu quando ficou famosa:

"A boa notícia é que agora as coisas mudaram muito! É um mundo totalmente diferente, não comparável [ao da época]. Felizmente, muito mais mulheres escrevem artigos e há mais musicistas". 

- Em seus vídeos, você usa roupas extraordinárias, quase teatrais. O que é moda para você?

"É uma forma de expressão, de arte, não é só glamour. Não vou a desfiles nem inaugurações. Gosto de colaborações, de sentar e pensar com Alessandro Michele, Pierpaolo Piccioli. Antes era com Alexander McQueen.

Trabalhamos de igual para igual! Acho importante entrar no ofício da música, compartilhar palavras e acordes. Com Pierpaolo, falei muito sobre minha mãe para o vídeo de "Ancestress", contei a ele quem ela era. Gosto de explorar lugares profundos e sou grata por poder fazer isso com esses imensos talentos".

- Entrevista para Francesca Delogu, publicada na Vanity Fair, em março de 2023.
Foto: Vidar Logi.


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