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Relato: "O dia em que conheci Björk pessoalmente em São Paulo"


"O Dia das Crianças do ano de 1996, foi uma data inesquecível! Eu estava trabalhando pelas ruas de São Paulo e passando em frente ao Maksoud Plaza, tive a ideia de perguntar pelos convidados do Free Jazz Festival. Estávamos na semana das apresentações e para a minha surpresa, descobri a informação que eu queria, nossa amiguinha "islandeusa" se hospedaria lá. Todo envergonhado, perguntei do pessoal do hotel como eu poderia entrar em contato com os organizadores do evento, e me aconselharam subir até o segundo andar, lá existia uma sala chamada "Primavera", e uma coletiva de imprensa iria acontecer no dia do show. Encontrei sem querer, uma fada madrinha chamada Ana Paula. A mulher mais bonita que eu já vi na vida, e um fotógrafo que eu não me lembro bem o nome. A moça era encarregada de toda a organização do festival e eu disse que gostaria muito de participar da coletiva, e que tinha dois desenhos para entregar para Björk. Falei sobre o meu amor pela artista, que eu era fã, mas que jamais entraria em pânico, pediria autógrafo, choraria, etc. Ela me desestimulou de cara! Disse que os lugares estavam todos reservados para pessoas de revistas, TV, jornais e que nem de pé eu poderia ficar. Falou que eu poderia ficar no hotel para tentar vê-la descer do elevador ou quem sabe cruzar com ela por algum corredor. Já o fotógrafo me tranquilizava, dizendo que sempre dava para encaixar alguém. Sem esperanças e já indo embora, Ana me chamou e sussurando, disse: "Olha, você vem aqui amanhã, bem cedinho e fica nesse andar. Mas chega bem rapidinho, pois depois os seguranças vão barrar a entrada do hotel e precisará de credencial para subir. Fica dentro da sala "Primavera", sentado lá, quietinho e se alguém perguntar quem é você, você diz que é de um fã clube da Björk". Naquela hora, eu senti minhas pernas tremerem e após uma dor de barriga momentânea, eu não conseguia mais parar de imaginar como seria ver a cantora. Voltei no Metrô, pulando de alegria, querendo poder flutuar e sair pelas janelinhas para chegar depressa em casa, querendo contar para cada um que se sentava do meu lado. Chegando em casa, conferi os desenhos que tinha feito com tanto carinho. Uma 'Björkzinha' estilizada com uma fauna e flora bem islandesa, vulcões e um logo legal. A outra ilustração era ela num daqueles vestidos que ninguém nunca viu. Tudo muito colorido, com o meu endereço e uma dedicatória. Na época em que xerox colorida ainda era novidade, a única recordação e prova de que estes desenhos tinham sido feitos por mim, foi uma foto com uma câmera bem meia boca, que me quebrava o galho. Com o passar da noite, fiquei cada vez mais ansioso.

Acordei cedíssimo, era o dia em que eu finalmente encontraria a dona daquela voz que tanto me encantava. Eu estava muito gripado, mas a disposição era tão grande que nem sei como cheguei até lá. Segui o conselho da organizadora, despistei todos, entrei na tal sala e tirei uma foto do lugar. Um homem que controlaria o som da coletiva, me achou e começou a me questionar, eu tentei mentir como ela tinha me dito, mas não funcionou e minutos depois, lá estava eu contando toda a minha história de novo, a verdadeira! Mostrei-lhe o desenho e pedi que tirasse fotos minhas, e não é que ele tirou? Disse que eu era um cara de sorte e que se eu tinha conseguido chegar até ali, nada mais podia dar errado. Ele ficou testando os microfones, puxando os cabos, colocou até músicas dela para eu ouvir, me desejou sorte e disse que queria me ver entregando os desenhos para ela. Fiquei muito feliz com isso! Após isso, chegaram uns carinhas do sul, esses sim eram de um Fã Clube verdadeiro e estavam bem equipados, com gravadores, bloco de papel, um roteiro de perguntas, uma máquina fotográfica decente e um deles tinha o cabelo bem verde! Mostraram ser muito legais ao me darem a maior força! 

Eu estava um pouco receoso e já via a hora de ser esculachado de lá, pois não tinha ninguém para me proteger. Resolvi sair da sala, já estava lá já fazia muito tempo, comecei a andar pelo hotel e a observá-lo quando que do alto, como se um alienígena pousasse na Terra, Björk apareceu dentro do elevador transparente com o Sindri, seu filho mais velho. Os dois usavam roupão e chinelos fofinhos e com a maior calma do mundo, dirigiram-se para a piscina, que ficava do outro lado do lugar em que estávamos. Naquela hora, eu não tinha mais gripe, não tinha mais dor de barriga. Eu era a pessoa mais feliz do mundo! Corri e chamei os amigos sulistas. Ficamos sem palavras. Éramos três bobos. Babávamos! Eu era o mais transtornado com uma vontade tão grande de cantar e dançar, de dizer um oi, de tirar uma foto, mas respeitamos a privacidade dela e ficamos fitando-a discretamente por horas. 

Eu sabia do gênio e das características que a mídia impunha ao perfil da Björk, por isso mesmo a contemplei de longe, até criar coragem e pedir para o pessoal da segurança se eu podia entrar naquela área. Após prometermos que não a incomodaríamos, nos deixaram entrar. Eu e meus dois novos amigos! Entre nós, combinamos de não olhar de jeito nenhum para ela, de não tentar conversar, de nem sequer respirar mais oxigênio do que precisássemos! Ela estava fazendo aquele exercício de step, que você fica andando numa espécie de bicicleta. Ao passarmos na frente dela, eu não resisti e a olhei diretamente! O que eu vi e o que eu senti, nunca vou consegui descrever com palavras, mas foi mais ou menos assim: Ela é uma alienígena. Sem dúvidas. Ela lembra uma japa, mas seus olhos são tão profundos e verdes, que parecem ser rasgados com uma força desconhecida, gata é pouco, ela é uma pantera. Seu rosto parece descender de uma tribo de "mulheres gato", de tão felina que ela é. Milhares, não, milhões de pintas de sardas se estendem acima do seu nariz e acima das bochechas. Seu cabelo, bem preso por uma presilha que ia da testa ao pescoço a tornava ainda mais estranha e bela. Reparei também em suas pernas, pois ela estava de maiô. Pernas bem grossinhas, pele bem branquinha. Ela é irresistível e linda! Isso foi o que eu vi, o que eu senti é ainda mais difícil de falar. Ela é perfumada, mas ainda não consegui definir que cheiro é aquele. Talvez seja do meu cérebro, sabe. Acho que nessas horas a gente fica meio etéreo. Demos a volta na piscina, e eu vi o Sindri brincando naquela piscininha menorzinha. Pensei comigo: “Puxa, a Björk nadando nessa piscininha. Puta hotel e uma piscininha dessa!”. Mas minha vontade era de tirar a roupa e nadar com ela. Quantos executivos estavam lá naquela hora e nem ligavam. Nadavam ao seu lado e nem tchum!

Sentamos na mesinha e ficamos conversando um pouco sobre as coisas que víamos. Eu e os sulistas tomamos um fôlego e resolvemos voltar. Ela sabia que estávamos ali só por causa dela. Na volta, eu não resisti e a olhei nos olhos. Ela retribuiu o olhar e como se dissesse: “Seu safadinho!”, balançou a mão graciosamente. Aquilo foi a gota d’água, foi o meu momento! Precisei me sentar depois. Queria conversar com ela, mas não podíamos extrapolar. Às vezes, já na salinha "Primavera", ou melhor, muitas vezes eu saia e ficava debruçado na sacada olhando pro lado da piscina. Vi a "islandeusa" nadar com seu filho, conversar com uma mulher que fumava feito uma condenada, fazer exercícios e depois fazer o mesmo caminho para pegar o elevador. Fomos atrás, queríamos subir junto com ela, mas achamos melhor não abusar da sorte.

Muitas pessoas da mídia já estavam na sala "Primavera" para a coletiva de imprensa do Free Jazz Festival, que aconteceria no Hotel Maksoud Plaza. Eu encontrei a Ana Paula, e ela disse para eu ficar lá, quietinho que somente se não sobrasse lugar eu precisaria sair. Nesse intervalo de tempo vi muita gente importante. O Fábio Massari da MTV Brasil sentou do meu lado, e acho que porque fui tão sincero, tudo deu certo para mim. Mostrei os desenhos para ele e para todo mundo, dizendo que entregaria pessoalmente para a "islandeusa" logo depois da entrevista. Encontrei uma garota da Galeria 24 de Maio que vendia discos da Björk, conheci fotógrafos, jornalistas, repórteres, mas ninguém com uma história como a minha. Só senti alívio quando a sala ficou lotada. De repente, a porta se abriu, e para minha surpresa, um jornalista atrasado entrou. Como que num impulso involuntário, senti minha perna se firmar para me levantar e dar lugar ao cara, mas nem bem tentei e a Ana Paula disse a ele que não era mais possível entrar. Ela olhou em minha direção e disse num sussurro: “Conseguiu!”; eu olhei e retribui o sorriso e falei sem som: “Conseguimos!”. 

As câmeras foram ligadas, os microfones plugados, os gravadores iniciados. As formalidades foram se desenrolando, uma pasta com várias coisas legais do Free Jazz Festival foi entregue para todos na sala, distribuíram os copos d’água, o tradutor ditou as regras para se fazerem as perguntas, os organizadores sentaram-se. Anunciaram a entrada da Björk e, para minha surpresa, do Eumir Deodato. Eles sentaram e ficaram cochichando entre eles, ela evitava olhar para as pessoas da sala. Perguntaram coisas bobas, as coisas que um fã da época já sabia de cor e salteado. Para mim, a mais legal e inesquecível foi o que ela estava escutando atualmente. A cantora riu, disse que ouvia de tudo, mas que estava apaixonada pela trilha sonora de Star Wars! Hoje, eu forço a mente para lembrar de mais algumas coisas. Eu lembro que era maravilhoso ouvir sua voz carregada de sotaque e assistir seus trejeitos. Gente, ela fala com as mãos! Os amigos sulistas sentaram-se bem a frente. Fizeram uma pergunta, acho que relacionada com os fãs. Após o fim da coletiva, eu procurei a Ana Paula, organizadora do evento, e silenciosamente perguntei se poderia ir até lá entregar os desenhos para a islandesa. Ela disse que eu precisaria ser rápido, pois haveria a sessão de fotos lá fora e que quando termina uma coletiva, os fotógrafos formam uma espécie de "muralha" e não dão chance. Mas como fora proibido tirar fotos na sala, apenas as câmeras de vídeo obstruíam o caminho. 

Agarrei meus desenhos e não sei de onde tirei tanta força, tanta agilidade e coragem. Pulei fio, ultrapassei repórteres, contornei câmeras e finalmente fiquei de frente com a Björk. O que aconteceu foi em câmera lenta. Pois deve ter durado menos de um minuto, mas para mim pareceu uma eternidade! Eu a chamei: "BJÖRK!", e ela me olhou! Retirei os dois desenhos da minha sacolinha de plástico e entreguei para ela. Ela sorriu, olhou pros pergaminhos e desenrolou a fitinha. Viu o primeiro e deu risada. Abriu o segundo, olhou, tentou ler o meu nome, mas acho que não entendeu bem. Disse com a cara mais linda do mundo: “Thank you!!!!”. Esse “thank you” parecia um “thaaaannnnk yyyyooooooooouuuuuuuuu!” de tão maravilhoso que foi. Os seguranças a agarraram pelo braço e ela precisou segui-los. Me agradeceu de novo e guardou os desenhos enroladinhos de novo na sacolinha que carregava no seu colo. 

Naqueles segundos, eu não ouvi nada além daquele agradecimento, não percebi se alguém filmou, se as pessoas viram, comentaram ou nada, eu estava em transe. Saí rapidamente para fora da sala. Já havia começado a sessão de fotos. Ela estava lá, com o cabelo ainda úmido, com a mesma presilha que usara na piscina. Mas não estava mais de roupão e sim com um vestido azul estranhão, que ia até o chão, parecia ter um forro de uma cor mais clara. O vestido era muito doido, mas as mangas compridas da sua blusa traziam nos cotovelos, espuminhas, como de enchimentos usados para colocar nos ombros. Ela estava tão envergonhada! Tão quietinha! E eu peguei o bonde andando. Cliques, cliques e mais cliques. Eu tirei a minha modesta maquininha e bati o botão da câmera mais rápido do que um interruptor de luz. Doce empolgação! Mal sabia eu que minha câmera era lenta e que o flash havia funcionado apenas na primeira vez! Nem pensei em nada disso, mas consegui pelo menos uma! No dia da revelação, o remorso não foi maior porque pelo menos uma foto havia saído. Tão rápido ela chegou ali, tão rápido ela sumiu. Por uma porta secreta que se abriu na parede ela nos deixou.

Cansado, realizado e iluminado, agradeci a assessora. Eu estava indo embora, porque nesse mesmo dia, tinha ainda o show, que iria acontecer no Galpão Fábrica, quando vejo a Ana Paula me chamando de novo. Ela me perguntou se eu gostaria de participar da entrevista do Eumir e eu pulei de alegria! Ela me apresentou para o repórter e o Deodato. O cara é uma figuraça. Super simpático e simples. Falou bastante da Björk, disse que quando ele recebeu a ligação dela, ele estava no Japão trabalhando com uma cantora, acho que a Clementine. Ele disse que a filha dele ligou pro Japão dizendo: “Pai, a Björk ligou para você!” – Foi muito engraçado ouvir aquilo! Confessou que na hora da entrevista, os cochichos da Björk eram de puro nervosismo. Ele disse que ela não via a hora de que tudo aquilo terminasse. “Ela é uma pessoa magnífica, dona de uma cabeça privilegiada. Adoro trabalhar com ela, mas ela é muito tímida, sabe". Ele teve a paciência de ouvir cada um de nós. Os caras trocaram e-mails, mas naquela época isso era um luxo e eu nem sabia para que servia. Eu dei para ele o meu endereço. Ele pediu para eu escrever um recadinho para Björk em português, que ele leria para ela e traduziria. Foi o que eu fiz! Escrevi dizendo para que guardasse bem os desenhos, que um dia ainda bateríamos um bom papo sobre nossos países. Ele ficou bem contente com o que eu escrevi e garantiu que se ela tivesse ganhado algum outro presente, com certeza levaria o meu para a Islândia pra enfeitar uma casa linda que ela tem lá.

“Ela adora qualquer tipo de arte. E se essa arte vem do coração, ela dá mais valor ainda. Não importa se é feio ou bonito, mas cá entre nós, você desenha muito bem. Estou te esperando lá em casa um dia desses. Será bem-vindo!” – e sem perder mais tempo sacou a caneta do bolso e assinou seu nome no envelope do material do Free Jazz Festival. 

Foi duro deixar aquele mundo e caminhar na Av. Paulista com aquele sol fritando uma cabeça tão movimentada como a minha. Eu queria contar para todo mundo. Olhava tudo de um jeito diferente. Olhava o material que eu tinha ganhado e ainda não acreditava! Cheguei em casa e contei tudo para minha mãe, minha irmã, meu pai, meus primos, minhas tias, meus amigos. 
Não me julguem à priori. Não sou só isso o que está escrito aqui. Sei que tive muita sorte ao conhecer a artista mais importante para mim, mas eu conheci a artista e não a pessoa Björk, com suas manias, seus ideais, suas verdades e seu interior. Isso, assim como vocês, eu não tive a oportunidade. Se tem algo que eu gosto de fazer, é de compartilhar tudo, cada momento que eu vivi naquele dia com um fã de Björk, e já estava mais do que na hora de fazer um relato como este, pois cada vez que eu tinha que escrever, acabava refazendo tudo, e agora eu acho que está completo".

- João Elias de Brito

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