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Björk: "Eu sou como o Tinder para a tecnologia"


Em entrevista ao site 'Music-News', Björk explica o motivo pelo qual a alta tecnologia usada em seu trabalho é resultado de um forte vínculo com a natureza: 

- Você já se apresentou em casas de ópera e pequenos clubes punks. Qual o seu lugar favorito para fazer um show? 
Eu canto melhor quando estou no topo de uma montanha. É onde costumo ter as minhas melhores ideias para músicas.

- Não é meio triste, já que normalmente você não tem público lá em cima? 
Geralmente eu tento imitar a experiência da montanha quando estou de volta ao meu estúdio, mas eu gostaria de tentar um recurso de gravação que eu possa levar comigo em minhas caminhadas.

 - Caminhar por aí aumenta a sua criatividade? 
Cantar na natureza é bom para o corpo. Quando estou em uma sala [de gravação], sinto que prendo a respiração. Também pode ter a ver com a minha infância. Caminhar 40 minutos para a escola em qualquer tempo era normal para mim. Eu cantaria para passar as horas. Afinal, a madrugada pode ser um pouco assustadora, pois é realmente escuro. Então parte disso era para me tranquilizar. A ideia de cantar ao ar livre me lembra o som da música. 

- Você já se aventurou na natureza da Islândia?
 Infelizmente, não a temos. Entendo que os que vivem nas grandes cidades a associem com abraçar árvores e tocar violão na frente de uma fogueira, mas a natureza na Islândia é hardcore. Não há nada romântico sobre ela. Nós não temos muitos animais. Também não temos muitas árvores. É vazia e brutal!

 - Mas ainda, inspiradora, né? 
Esse vazio é particularmente inspirador. Há uma grande tradição animista na Islândia. Animismo é a crença de que cada objeto tem uma alma. Assim, os penhascos e as rochas, todos eles têm histórias. 

- De onde vem essa crença? 
É por causa dos trolls. 

- Hmmm... trolls? 
Os trolls são criaturas noturnas. Se eles não retornam às suas cavernas antes do nascer do sol, se transformam em pedra. Então nós acreditamos que as montanhas e rochas da Islândia são trolls fossilizados. 

- E você tem essas pedras para contar suas histórias? 
Todo mundo cria suas próprias histórias. Um dos meus melhores amigos as usava para ganhar dinheiro durante os verões sendo um guia. Ele costumava inventar essas histórias loucas para os turistas. Ele os dizia que o musgo na lava esburacada era um rebanho de ovelhas, que ficou preso em uma erupção vulcânica. O vazio na Islândia alimenta a criatividade. É como uma tela em branco para a sua imaginação.

- Se você não morasse na Islândia entre trolls fossilizados, ainda acha que teria um forte vínculo com a natureza que fosse capaz de alimentar a sua criatividade? 
Absolutamente. Scanners do nosso cérebro mostram que após 45 minutos de caminhada, algo acontece com o corpo humano. Há um certo ritmo que estimula o processo do pensamento. Eu tento começar cada dia com uma caminhada, e geralmente depois de 45 minutos eu sinto um alívio extremo! Tudo em sincronia, e de repente, todos os problemas não importam mais.

 - Qual é o seu conselho para as pessoas que vivem em grandes cidades?
 É um problema que eu tenho enfrentado bastante, principalmente quando viajo em turnê. É por isso que gosto de estar nas cidades à beira-mar. Não é realmente sobre a água em si, mas se você caminhar pelo oceano, você tem 180 graus de vazio. Para alcançar esse sentimento de alívio, preciso de muito espaço.

- É interessante que você seja uma fã da natureza, considerando que está sempre por dentro das novas tecnologias quando se trata de música. 
Eu sou realmente muito menos aficionada por tecnologia do que as pessoas pensam. Preciso da ajuda dos meus amigos para organizar o meu laptop.

- Diz a artista que tem sido a última grande inovadora da música pop, fazendo álbuns de aplicativos e videoclipes em Realidade Virtual. 
Estou tentando construir uma ponte entre a tecnologia e a música. Estão saindo constantemente novas ferramentas que têm um impacto sobre a nossa vida, a gente gostando ou não. Com a minha arte, eu quero que elas façam sentido. Eu sou como o Tinder para a tecnologia.

 - O que você quer dizer? 
Eu sou um aplicativo casamenteiro. Sempre que há uma nova tecnologia saindo, instantaneamente tenho ideias para usá-la. Quando comecei com o meu primeiro laptop em 1999, soube imediatamente que substituiria o estúdio de gravação tradicional para uma certa extensão. Quando o touchscreen surgiu, percebi muito rapidamente que esta seria uma grande ferramenta pedagógica. Eu ficava tipo, 'Uau, com isso posso mapear minha visão de musicologia'. Eu fui uma jovem bastante difícil na minha escola de música. Os professores fizeram a musicologia parecer tão acadêmica, enquanto que na verdade é bastante visceral.

 - Björk era uma estudante de música rebelde? 
Sim, e tenho muito orgulho disso. Eu acho que a arrogância da juventude é importante. Eu estou parafraseando, mas Stravinsky disse em seu livro Poetics of Music na forma de seis lições algo como, "é ótimo odiar". Quando eu era adolescente não suportava Bach e Beethoven, e pensava: 'Eles são apenas caras alemães mortos! Por que eu deveria me importar?' 

- Porque eles estão entre os compositores mais importantes da história?
 O ponto é que o ódio é uma ferramenta importante para descobrir o que você não quer, já que posteriormente, poderá realizar aquilo que você deseja em sua carreira. Então eu encorajaria qualquer um a ficar furioso, a odiar as coisas. 

- Ter esta visão "é bom odiar" funcionou para você? 
Definitivamente. Eu desprezava instrumentos de cordas na minha adolescência. Agora eu trabalho bastante com eles. Minha ignorância adolescente em relação a isso me permitiu abordá-los de um ângulo totalmente diferente e criar algo original. 

- Voltando ao assunto anterior, na sua opinião, como a natureza e a tecnologia estão entrelaçadas?
 Eu acho que essa ideia de natureza como o passado e tecnologia sendo o futuro é um absurdo. É por isso que eu tenho dito, não é estar de volta à natureza. É olhar para frente dela. No futuro teremos que focar ainda mais na conexão entre as duas. Basta imaginar um mundo onde as empresas de tecnologia de ponta irão investir adequadamente no ambientalismo. Com a tecnologia que temos podemos facilmente limpar os oceanos.

 - Isso é um chamado? 
Sim! Com o sucesso vem a responsabilidade. Portanto, eu acho que devemos pedir que 10 empresas como o Google, Facebook e Apple desembolsem um bilhão de dólares cada uma para investir na limpeza dos oceanos. Tenho certeza que isso poderia ser feito até 2020.

- No caso de Mark Zuckerberg ler esta entrevista, ele deveria oferecer ajuda?
 Definitivamente! Vou convidar todos os bilionários da tecnologia para vir até a minha pequena cabana na Islândia. Vou preparar bebidas, e talvez eu também cozinhe para eles.

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