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A atual situação do mundo, a tecnologia e a retrospectiva da carreira de Björk


Em um recente dia de primavera em Nova York, onde vive pela metade do ano, Björk, vestida de preto desde a maquiagem ao redor de seus olhos até os sapatos plataforma em seus pés, concedeu uma entrevista ao Pitchfork:
 
O que você aprendeu sobre si mesma como compositora ao rever seu próprio trabalho na criação do seu livro de partituras?
Eu gosto de coisas que são um pouco peculiares e excêntricas. Acho que há um DNA nos meus arranjos. Me chamavam constantemente para trabalhar em algo assim. Ficava lisonjeada, mas não sabia se funcionaria. Você não pode simplesmente tocar tudo isso em um violão, porque é apenas diferente, mas quem sabe em um piano, então tentamos resolver. Eu pensava como faria algo assim com a minha música. Então percebi o quanto eu tinha aprendido, que tinha percorrido um longo caminho. Isso foi meio satisfatório. Na maioria das vezes, todos nós sentimos que não estamos aprendendo nada, mas existe algo bom sobre ficar mais velho: adquirir essa perspectiva.

Você rotulou a criação deste livro a afirmação de si mesma como autora, como um ato "feminista suave". O que quis dizer com isso?
Para mim, é muito difícil me gabar dos meus arranjos. Talvez eu seja a culpada, mas depois de todos esses anos, muitas pessoas, até meus parentes, não sabem que eu os faço em minha música, pensam que contrato alguém. É claro que tive colaboradores, mas 80-90% é de minha autoria.

Ao mesmo tempo em que você está para lançar este livro, também tem continuado a viajar o mundo com sua exposição de VRs. É um momento de ansiedade sobre a tecnologia - robôs roubando nossos empregos, guerra nuclear com a Coréia do Norte, tweets de Trump, exaustão da mídia social...
Eu tento olhar para a tecnologia apenas como uma ferramenta. Sempre tivemos ferramentas. Descobrimos como trabalhar com o fogo, fizemos a primeira faca... A bomba nuclear vem e todo mundo fica: "Oh, bem, nós poderíamos realmente matar todo mundo". Nós temos que ver pelo lado da moral de tudo isso! E assim temos que reagir com a tecnologia. Eu definitivamente fico ansiosa, mas tento propor soluções. Me sinto tão culpada por não estar vivendo na Islândia em tempo integral, vivendo de energia totalmente verde e cultivando todos os meus próprios vegetais. Isso é o que todos nós deveríamos fazer. Mas eu acho que a maneira de superar os problemas ambientais é com a tecnologia. O que mais vamos usar? Nós temos que defini-la. Não existe uma única resposta. Talvez agora existam muitas crianças que não sabem como andar em uma floresta. Você pode estar no Facebook por um longo tempo, e então sente como se tivesse comido três hambúrgueres. E sabe que isso tudo é um lixo! Sempre aconselho os meus amigos: basta ir dar uma caminhada por pelo menos uma hora e então ao voltar verá como se sente. Acredito que estamos destinados a estar ao ar livre. Eu fui criada na Islândia, e mesmo se estava nevando ou chovendo, eu estaria ao ar livre durante todo o dia. Divirta-se! Faça algo! Acho que precisamos colocar humanidade em tecnologia, a alma. Trata-se de usá-la para se aproximar das pessoas, para ser mais criativo.

É tão agradável ouvir alguém soando tão esperançosa em um momento quase impossível para o mundo.
Eu estou obviamente devastada com essas atitudes do Trump, como todo mundo. Fiquei atordoada, especialmente quando se trata do meio ambiente. Vejo que as pessoas estão se reorganizando, e aí temos que engolir a pílula brutal de que o governo não vai salvar o planeta. Temos que fazer isso! Eu gostaria de desafiar pessoas como Bill Gates, lhe dar algo como dois anos para limpar os oceanos. Eles têm o dinheiro e sabem como usar a tecnologia para fazer isso.

Até onde você gostaria que o VR e a música chegassem?
Atualmente, é algo bastante presente na indústria de jogos. Gosto do fato de não estar se expandindo de forma elitista. Acho que vai acabar sendo tão facilmente disponível como um iPhone. É imersivo, e tudo o que é criativo é uma coisa positiva. Do meu ponto de vista musical, VR é a continuação natural do videoclipe. E o que é animador sobre a realidade virtual é que agora não tem essa hierarquia do patriarcado. Trabalhei com sete ou oito equipes diferentes, e tinha um monte de garotas no processo. Espero que isso venha a refletir o tempo em que estamos vivendo, onde existe mais igualdade entre homens e mulheres.

Você esteve em modo retrospectivo, até certo ponto, com a exposição do MoMA e agora todos esses projetos. Você já ficou melancólica ou nostálgica sobre seu próprio passado?
A exposição do MoMA não foi minha ideia. Foi um curador que durante dez anos tentou me convencer a fazê-la, e conseguiu [Klaus Biesenbach]. Fiquei lisonjeada, mas não era o meu ponto de vista sobre mim mesma. Mas definitivamente aprendi algumas coisas com isso. Apenas vejo como álbuns de fotos antigas, algo como: "Essa daqui foi em 1997, e eu me lembro da maquiadora, ela era tão engraçada". Vou lembrar o que estávamos comendo e as piadas que estávamos contando.

Sua carreira envolve uma
intensa colaboração artística. O que você ganha trabalhando com outras pessoas?
Eu falei muito com o Arca sobre essa fusão e como não gostamos que ela seja vista como uma fraqueza. Acho que é um talento que muitas mulheres possuem: se tornar a outra metade de alguém. Um monte de caras também têm, talvez especialmente se são gays. Deve ser como uma força e acredito que isso deva estar na próxima fase do feminismo - ou movimento por igualdade de gêneros, não sei como chamá-lo.

Você adquiriu uma reputação na vida noturna de Nova York, não obstante o seu nível de celebridade. O que você ganha em apenas sair e conhecer novas pessoas?
Eu sempre fiz isso. Tive um momento nos anos 90, em Londres, quando eu era uma celebridade com o nome na lista principal de convidados, e me sinto sortuda por ter tentado isso por um ano ou dois. Fui em algumas festas assim, e descobri que as conversas são realmente chatas e a música é horrível. Tipo, obrigado por me incluir, mas preciso fazer uma pequena viagem, rs. Uma das coisas boas de se mudar para Nova York é que as pessoas são muito legais. Londres tem quatro tabloides, Nova York tem apenas um. Talvez seja por ter vindo da Islândia, lugar onde você encontra o presidente no supermercado. É bastante "faça você mesmo". Se tentarem ter qualquer tipo de hierarquia, será ridicularizado. Então eu sou grata por isso. Tenho bons amigos e um bom tempo no Brooklyn agora. Quando eles abriram a Rough Trade, mudaram a minha vida. Eu já tinha esse estranho romance com a cidade há muito tempo.

Você trabalha meticulosamente em quase todos os aspectos artísticos de sua carreira. Como controlar tudo isso?
Eu já venho fazendo isso há muito tempo. Se você publicar seu primeiro livro, talvez não se sinta incomodado pelo tipo de papel usado, mas três publicações depois, é o contrário. Com o passar dos anos, começa a pedir opiniões sobre como fazer as coisas. No começo, quando estive em bandas punks na Islândia, eu era realmente dogmática que tudo era sobre a música. Não deveria haver preocupação com roupa e cabelo, pois era superficial. Mas então você vê quatro fotos antigas suas - não que seja algo feio ou bonito - só não representava aquilo. É uma transição gradual.

Você acha que está melhor no que faz agora do que nunca?
Eu não sei. Vejo da seguinte forma: Você está em órbita em torno da lua, e a idade só significa que está sempre olhando para a mesma coisa, mas a partir de um ponto de vista diferente. Para ser capaz de não ser disparado fora da órbita, é preciso que se tenha muito cuidado em se livrar de qualquer bagagem que não é relevante e que te coloque para baixo.

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Franzindo a testa, esfregando o rosto a todo o momento, cutucando o nariz, fazendo alongamentos no pescoço. É perceptível que, longe de ser alguém de outro mundo, é uma pessoa extremamente pé no chão". 
- Jornalista responsável por matéria publicada na Raygun Magazine, setembro de 1997. 
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