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Leitura recomendada: O encontro de Björk e Stockhausen


Especial para a revista "Dazed and Confused", edição de 1996 -
A entrevista de Björk Gudmundsdottir e Karlheinz Stockhausen:

"Estive na escola de música dos cinco aos 12 ou 13 anos de idade, e comecei a gostar de musicologia. Um compositor e professor islandês de lá me apresentou o trabalho de Stockhausen. Na escola, eu era do contra, era a garota diferente de todos. Eu tinha uma verdadeira paixão pela música, mas não gostava dessa besteira retrô de ouvir Beethoven e Bach constantemente. Essa frustração se devia à obsessão que aquele lugar tinha com o passado.

Quando fui apresentada ao trabalho de Stockhausen, fiquei tipo: "Aaah! Finalmente encontrei alguém que fala a minha língua. Ele dizia coisas como: "Devemos ouvir a "música velha" um dia por ano e nos outros 364 restantes devemos ouvir a "música de agora". E devemos fazê-lo do mesmo modo como quando olhamos álbuns de fotos de quando éramos crianças. Se você passa muito tempo olhando álbuns antigos, eles perdem o sentido. Você começa a se envolver demais com uma coisa que não interessa e deixa de pensar no presente". Era assim que ele enxergava todas aquelas pessoas obcecadas com a música antiga.

Para uma criança da minha geração, que tinha 12 anos naquela época, foi brilhante, porque ao mesmo tempo eu também estava sendo apresentada à música eletrônica de bandas como Kraftwerk e DAF. Eu acho que quando se trata de música eletrônica e música atonal, o Stockhausen é o melhor. Ele foi a primeira pessoa a fazer música eletrônica antes que os sintetizadores fossem mesmo inventados. Eu gosto de compará-lo como o Picasso deste século, porque ele passou por várias fases. Existem tantos músicos que construíram uma carreira a partir de apenas um período. Ele sempre esteve um passo à frente, descobrindo coisas que nem sequer haviam sido feitas antes musicalmente e, no momento em que outras pessoas entendem o que ele quer dizer, ele já está trabalhando na próxima etapa. Como todos os gênios científicos, Stockhausen parece obcecado com o casamento entre mistério e ciência, embora sejam opostos. Os cientistas normais estão obcecados com os fatos: cientistas geniais estão obcecados com o mistério. Quanto mais Stockhausen descobrir sobre o som, mais ele descobre que ele não conhece essa merda. Stockhausen me contou sobre a casa que ele construiu na floresta, lugar que viveu por mais de 10 anos. É feita de pedaços de vidro hexagonal com cômodos irregulares. A floresta fica espelhada dentro da casa. Ele estava me explicando que, mesmo depois de dez anos, ainda teve momentos em que ele não sabia onde ele estava, e ele disse isso com uma felicidade em seus olhos. E eu respondi: "Isso é brilhante: você pode ser inocente mesmo em sua própria casa", e ele respondeu: "Não só inocente, mas curioso". Ele é  um humorista!".

Björk Gudmundsdottir: A impressão que tenho é que a música eletrônica que você faz é como sua voz, e suas outras obras são menos pessoais. Você também sente isso?

Karlheinz Stockhausen: Sim, porque muitas das coisas que faço soam como um mundo muito estranho. Então, o conceito de "pessoal" se torna irrelevante. Não é importante, porque é uma coisa que não conhecemos, mas eu gosto disso e faço.

B: A impressão que tenho é que você simplesmente estica suas "antenas" e que isso é como sua voz, seu ponto de vista ou alguma coisa assim... Não consigo explicar direito.

S: Eu também não. O mais importante é que não é como um mundo pessoal, é algo que todos nós desconhecemos. Precisamos estudá-lo, vivenciá-lo. Se conseguirmos captar alguma coisa, teremos tido sorte.

B: Tem certeza de que não é você?S: Oh, fico surpreso comigo mesmo, muitas vezes. E quanto mais eu descubro algo que eu não experimentei antes, então, mais ansioso eu fico para seguir em frente.

B: Tenho um problema, a música mexe muito comigo. Entro em pânico porque sinto que não tenho tempo de fazer tudo. Isso também lhe preocupa?

S: Sim e não. Já aprendi que mesmo meus primeiros trabalhos, feitos há 46 anos, ainda não são compreendidos pela maioria das pessoas. Então, é um processo natural: se você encontra algo que lhe surpreende, é ainda mais difícil para outras pessoas absorver. Às vezes, leva 200 anos, digamos, para um grande grupo de pessoas, ou até mesmo para somente alguns indivíduos, atingir o mesmo estágio que eu atingi depois de passar, por exemplo, três anos em um estúdio, durante oito horas por dia, para criar alguma coisa. Você precisa de tanto tempo para ouvir a obra tanto quanto eu precisei para criá-la. Isso, sem nem mesmo falar em compreender o que ela significa. Bom, é um processo natural, onde certos músicos criam algo que demanda muito tempo para ser ouvido muitas, muitas vezes, e isso é muito bom.

B: Sim, mas também falo sobre a relação que temos com nós mesmo, e o tempo entre o nascimento a morte. Se for suficiente para fazer todas as coisas que você deseja ...  

S: Não, você só pode fazer um número de coisas muito pequeno daquilo que deseja fazer. Isso é natural.

B: Talvez eu seja muito impaciente. É difícil para mim.

S: 80 ou 90 anos não são nada. Existem muitas obras musicais muito belas do passado que a maioria das pessoas vivas hoje jamais vão chegar a ouvir. São trabalhos extraordinariamente preciosos, repletos de mistério, de inteligência e de um espírito inovador. Estou pensando em determinadas obras de Johann Sebastian Bach ou, até mesmo, de compositores anteriores. Existem tantas composições fantásticas, feitas há 500 ou 600 anos, que nem sequer são conhecidas pela maioria dos seres humanos. São bilhões de coisas preciosas no universo que não temos tempo para estudar.

B: Você parece ser tão paciente, como se tivesse toda essa disciplina para usar seu tempo. Isso me deixa mal, ainda não aprendi a sentar na minha cadeira, é muito difícil para mim. Você trabalha sempre oito horas por dia?
 

S: Mais.

B: Você acha que seu impulso primordial é mostrar e gravar as coisas que existem por aí - provando que elas existem, como se fosse apenas por razões científicas - ou é algo mais emocional, um desejo de criar uma desculpa para que todos se unam? Para que alguma coisa aconteça, talvez, possibilitada por sua música?

S: Sou como um caçador tentando encontrar alguma coisa, e, ao mesmo tempo, tem esse aspecto científico, o de tentar descobrir. Por outro lado, sempre fico em estado de alta tensão emocional quando chega o momento em que tenho que agir com as pontas dos dedos, com minhas mãos e meus ouvidos, para mover o som, para modelá-lo. É nessa hora que não consigo separar o pensar e o agir, pois são igualmente importantes para mim e o investimento total acontece em ambos os estados: se sou mais um pensador ou mais um ator, se estou totalmente envolvido ou se não me envolvo.

B: Antigamente, eu viajava por aí com um gravador e uma bolsa cheia de fitas procurando encontrar a canção certa. Eu não me importava qual canção fosse, desde que conseguisse unir todos os elementos presentes. Mas isso, às vezes, é um truque barato, sabe? Eu me lembro que, certa vez, li que uma das razões pelas quais você não gosta de ritmos regulares é por causa da guerra.

S: Não, não é isso...

B: É um mal-entendido?

S: Acho que sim. Quando eu danço, gosto que seja ao som de uma música regular. Sincopada, naturalmente. Não deve ser sempre como uma máquina. Mas, quando componho, muito raramente utilizo ritmos periódicos e, quando faço isso, é apenas em um estágio intermediário, porque acho que existe uma evolução na linguagem da música na Europa, que leva de ritmos periódicos muito simples a ritmos cada vez mais irregulares. Então, tomo cuidado com a música que enfatiza esse tipo de periodicidade minimalista, porque ela traz à tona os sentimentos e impulsos mais básicos de cada pessoa. Quando digo "básico", me refiro ao lado físico. Mas não somos apenas um corpo que anda, que corre, que faz movimentos sexuais, que tem um ritmo cardíaco de aproximadamente 71 batidas por minuto num corpo saudável, ou que tem determinados impulsos cerebrais. Somos todo um sistema de ritmo periódico. Mas, já no interior do corpo, existem muitas periodicidades sobrepostas, desde as muito rápidas até as muito lentas. A respiração, em situações de calma, dá-se a cada seis ou sete segundos. Existe uma periodicidade. E todas estas coisas juntas constroem uma música muito polimérica no corpo, mas, quando faço a música artística, faço parte da evolução toda, e também me envolvo em uma busca constante por uma diferenciação cada vez maior, que também acontece na forma.

B: Por ser mais honesto, é mais real?

S: Sim, mas o que a maioria das pessoas gosta é a batida regular, que, hoje em dia, chegam a fazer com uma máquina na música pop. Acho que devemos procurar fazer uma música que seja um pouco mais... flexível, por assim dizer, um pouco mais irregular. A irregularidade é um desafio, você entende. Até que ponto podemos tornar a música irregular? Apenas em termos de um pequeno momento em que tudo cai na sincronicidade, e depois parte outra vez em metros e ritmos diferentes, mas em todo caso, é assim que a história tem sido.

B: Acho que na música pop atual as pessoas estão tentando se conciliar ao fato de que estão convivendo com todas essas máquinas, tentando combiná-las aos seres humanos e uni-los em um casamento feliz - isso tentando enxergar com otimismo. Fui criada por uma mãe que acreditava fielmente na natureza e queria que eu ficasse descalça 24h por dia, então cresci com um grande complexo de culpa em relação aos carros e arranha-céus. Fui ensinada a odiá-los, e, por isso, acho que estou mais ou menos no meio termo, por assim dizer. Vejo essa geração que é dez anos mais jovem do que eu fazendo música e tentando conviver com tudo isso. Mas tudo tem a ver com aqueles ritmos regulares, com aprender a gostar deles, mas se mantendo humano, conservando sua característica orgânica e imperfeita.

S: Mas os ritmos regulares sempre foram a base da estrutura em todas as culturas. Foi apenas muito recentemente que se começou a fazer um ritmo mais complexo, portanto não acredito que tenham sido as máquinas que trouxeram a irregularidade.

B: Acho que uma das coisas que me deixa mais feliz é o seu otimismo, especialmente em relação ao futuro. Também acredito que estou falando da minha geração. Nos ensinaram que o mundo está indo pelo ralo e que vamos todos morrer em breve, então, encontrar alguém tão otimista quanto você é algo muito especial. Muitos jovens ficam fascinados com o que você está fazendo. Você acha que seu fascínio pela música se deve a esse otimismo?

S: Compreendo que as obras que compus fornecem muitos subsídios para estudo, aprendizado e vivências. Especialmente para as pessoas se conhecerem, e isso lhes dá confiança, fazendo com que elas percebam que ainda há muito a ser feito.
B: E também talvez porque você já fez tantas coisas que eu acho que tantos jovens só precisam encontrar um por cento do seu material para se identificarem.

S: Talvez com diferentes trabalhos, porque eles não podem conhecer tudo o que já foi feito. Tenho 253 que foram oficialmente publicados, e cerca de 70 ou 80 CDs com versões diferentes, então há muito a se descobrir por aí. É como um mundo dentro de outro mundo. Não gosto de me repetir.

B: Você acha que é nosso dever impelir tudo até o limite, usar nossa inteligência o tempo todo e experimentar tudo, especialmente se for difícil, ou que é mais uma questão de seguir os instintos, deixando de lado o que não desperta o nosso entusiasmo?

S: Neste momento estou pensando em meus filhos. Tenho seis e todos são bem diferentes. Um deles é trompetista, mas, em dado momento, quis ser um professor de ioga para ajudar outras pessoas que precisavam acreditar em um mundo melhor. Mas, depois, eu disse a ele que já há pregadores o suficiente no mundo e o aconselhei a ficar com seu trompete. Ele levou alguns anos até voltar ao instrumento e agora parece estar concentrado, deixando de lado a maioria das coisas que seriam outras possibilidades para ele. Eu poderia ter sido arquiteto, filósofo ou professor em só Deus sabe qual área entre as muitas faculdades que existem. Trabalhei como empregado agrícola por muito tempo e também em uma fábrica de automóveis, eu gostava desse trabalho. Quando eu estava fazendo doutorado e estudando piano, eu estudava de 4 a 5 horas por dia. Eu tocava em um bar todas as noites para ganhar a vida, mas desde que compus minha primeira obra, senti que tenho um som muito diferente de tudo o que eu conhecia, passei a me concentrar na composição e deixei de lado quase tudo o que o mundo tem a me oferecer, outras faculdades, outros modos de vida, as coisas instigantes de várias espécies, as diversões de todos os tipos. Venho realmente me concentrando, dia e noite, nesse aspecto único e restrito que é compor, tocar e corrigir minhas partituras, além de editá-las. E tem sido o caminho correto para mim. Não posso oferecer conselhos gerais, porque se não ouvimos aquele chamado interior, não fazemos as coisas. É preciso ouvir aquele chamado e aí você não terá mais dúvidas.

B: Sim, é só assim que se pode avançar mais longe.

S: Não sei. Acho que não conseguiria realizar nada que fizesse sentido para mim mesmo se eu não me concentrasse inteiramente em uma única coisa. Então acabo perdendo muito do que a vida tem a oferecer.

B: E aprender como se sentar em uma cadeira...
 

S: Você sabe que eu também conduzo todo o trabalho, não é apenas sentar em uma cadeira. Conduzo orquestras, coros, e organizo todos os ensaios, então não é apenas sentar em uma cadeira, mas sei o que você quis dizer, sim, é estar concentrando naquela vocação.


Karlheinz Stockhausen faleceu em Dezembro de 2007 aos 79 anos. O músico alemão é considerado um dos maiores compositores do final do século XX, e foi o responsável por trabalhos artísticos de grandiosidade indiscutível. As suas obras revolucionaram a percepção de ritmo, melodia e harmonia.

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