Pular para o conteúdo principal

Em carta aberta no Facebook, Björk fala sobre assédio sexual


Björk publicou em seu Facebook, na tarde deste domingo, um texto em que revela que foi vítima de assédio sexual por um diretor dinamarquês. Confira a tradução do post na íntegra:


"Me sinto inspirada por ver mulheres pelo mundo se pronunciando sobre esses casos (de abuso sexual) na internet. Isso me fez sentir vontade de contar minha experiência com um diretor dinamarquês. 

Porque eu venho de um país onde a diferença entre os sexos é pequena, apesar de ainda existir, e no momento em que tenho certa força no mundo da música com uma independência, que foi duramente conquistada, sempre esteve extremamente claro para mim que quando eu entrasse na carreira de atriz, meu papel e humilhação como uma menor sexualmente assediada seria uma norma para um diretor cuja a equipe de dezenas de pessoas permitiu e o encorajou a fazer isso. 

Eu estava ciente de que é algo universal, em que um diretor pode tocar e assediar suas atrizes à vontade e a indústria do cinema permite isso. Quando eu o confrontei por diversas vezes, ele me castigou e criou uma impressionante história ilusória para sua equipe, onde eu fui incriminada como alguém difícil de se trabalhar. 

Por causa da minha força, da minha grande equipe e porque eu não tinha nada a perder, já que não tinha ambições no mundo da atuação, fui embora dali e me recuperei com o passar dos anos. Estou preocupada com as outras atrizes que trabalham com este mesmo homem. O diretor estava plenamente ciente deste jogo e tenho a certeza de que o filme que ele fez em seguida, foi baseado em suas experiências comigo. Porque eu fui a primeira que não permitiu que ele fizesse algo e que não o deixou sair impune disso.

E na minha opinião, ele teve uma relação mais justa e significativa com as outras atrizes que fizeram seus filmes depois que eu o confrontei, por isso acredito que há esperança.

Vamos esperar que esta declaração sirva de apoio para as atrizes e atores por aí.

Vamos parar com isto.
Há uma onda de mudança no mundo.
Bondade! Björk".

A artista se sentiu inspirada pelas denúncias feitas por celebridades de Hollywood contra o produtor de filmes Harvey Weinstein. Tudo indica que o diretor a que ela se refere é Lars von Trier, que a dirigiu no filme "Dancer in The Dark", em 2000.

Em 2003, ele foi responsável pelo filme "Dogville", cuja a história se passa durante a época da grande depressão, também conhecida como Crise de 1929, e a personagem Grace (Nicole Kidman), uma fugitiva do FBI, encontra abrigo numa pacata cidadezinha chamada Dogville. O filme mostra  a mulher como vítima de vários tipos de violência: física, psicológica e sexual. Os moradores aceitam abrigá-la em troca de alguns favores, que, com o tempo, se aproxima de escravidão. Em troca de proteção, ela se sujeita a um tratamento desumano, fazendo com que este só piore com o tempo, chegando ao ponto de ser estuprada por todos os homens da cidade, com exceção do personagem Tom – que parece ser o único morador a apoiá-la. "Dogville" expõe uma visão pessimista sobre o comportamento humano, a vida em comunidade no qual impera o cinismo, a hipocrisia, a chantagem, a vingança, a mentira e a tensão que se estabelece entre a escolha individual e a norma coletiva.

Atualização (16/10): Lars von Trier nega acusações de assédio de Björk.

A um jornal dinamarquês, o cineasta disse apenas que "aquele não era o caso", referindo-se à onda de acusações, e ainda elogiou a cantora, dizendo que ela lhe deu uma das melhores performances de todos os seus filmes.

Coprodutor de "Dançando no escuro" e sócio de Von Trier na produtora Zentropa, Peter Aalbaek Jensen defendeu o cineasta. "Pelo que eu me lembro, nós (Lars e eu) éramos vítimas. Aquela mulher era mais forte que Lars, eu e nossa empresa juntos", disse ele, numa declaração que vem sendo criticada pela mídia internacional.

Ata.

Atualização (17/10): Em novo post no Facebook, Björk descreve com detalhes as diversas ocasiões em que foi assediada sexualmente por Lars Von Trier:

"No espírito #metoo (hashtag que expõe a magnitude mundial dos casos de assédio sexual), gostaria de dar uma contribuição às mulheres de todo o mundo com uma descrição mais detalhada da minha experiência com um diretor dinamarquês. É extremamente difícil compartilhar algo desta natureza com as pessoas, especialmente quando somos imediatamente ridicularizadas pelos culpados. Tenho plena simpatia com todas aquelas que hesitam contar, mesmo por anos, mas sinto que é o momento certo, especialmente agora, quando posso promover uma mudança. Aí vai uma lista de ocasiões que eu acho que contam como assédio sexual:

1 - Depois de cada take, o diretor corria até mim e envolvia seus braços ao meu redor por um longo tempo. Isso na frente de toda a equipe, e às vezes quando estávamos sozinhos, e me acariciava contra a minha vontade.

2 - Depois de 2 meses disso tudo acontecendo, eu disse a ele que ele tinha que parar de me tocar, então ele explodiu e quebrou uma cadeira na frente de todos no set de filmagem, como alguém que sempre teve permissão de todos para acariciar suas atrizes, então todos nós fomos enviados para casa.


3 - Durante todo o processo de filmagem, houveram diversas e estranhas insinuações e ofertas sexuais da parte dele, cujas descrições eram sussuradas e até desenhadas, às vezes com sua esposa ao nosso lado.

4 - Enquanto filmávamos na Suécia, ele ameaçou subir da varanda de seu quarto para o meu no meio da noite com uma clara intenção sexual, enquanto sua esposa estava no quarto ao lado. Eu escapei para o quarto dos meus amigos. Isso foi o que, finalmente, me fez acordar e perceber a gravidade de tudo isso para que eu procurasse me defender.

5 - Histórias fabricadas sobre eu ser difícil de se trabalhar foram publicadas na imprensa pelo produtor dele. Isso combina lindamente com os métodos e o bullying do produtor Harvey Weinstein. Eu nunca comi uma blusa. Não tenho certeza de que isso seja possível.

(Em 2000, a produção do filme espalhou para a imprensa que Björk rasgou uma blusa que ela não queria usar em uma cena e que até comeu um pedaço).

6 - Eu não me conformei ou concordei em ser assediada sexualmente. Isso foi retratado como ser alguém difícil. Se ser difícil é não estar de acordo em ser tratada assim, então eu sou.

Com esperança vamos romper essa maldição.

Calorosamente,
Björk".

Comente com outros fãs:

Postagens mais visitadas deste blog

Uma conversa entre Rei Kawakubo e Björk

“Essa entrevista poderia ser chamada de Folclore do Futuro ou algo envolvendo a palavra "folclore"?”. Essa foi uma solicitação de Björk antes da Interview Magazine publicar em outubro de 2019 uma conversa por e-mail inédita entre ela e Rei Kawakubo, fundadora da marca Comme des Garçons e da Dover Street Market. Confira a tradução completa do bate-papo:
BJÖRK: Querida Rei, estou muito honrada por termos essa conversa! Você é uma das pessoas que eu mais admiro, estou emocionada que isso esteja acontecendo. Estava pensando onde os interesses de nós duas se sobrepõem e, por algum motivo, comecei a pensar nas raízes, no folclore, ou na falta dele. Você mencionou em uma entrevista de 1982, que queria se afastar das influências folclóricas da moda japonesa. Acho isso muito interessante. Sempre achei que as culturas japonesa e islandesa têm  coisas em comum que, quando o budismo e o cristianismo chegaram, foram feitas com menos violência do que em outros países, o que serviu de pont…

Relembre as vindas de Björk ao Brasil

As apresentações mais recentes de Björk no Brasil aconteceram há mais de 10 anos, entre 26 e 31 de Outubro de 2007. Relembre essas e outras passagens da islandesa, que já disse ter vivido momentos mágicos em nosso país.
Mas antes de tudo, uma curiosidade: Björk já foi capa da famosa/extinta revista brasileira Bizz, edição de Dezembro de 1989, o que comprova a divulgação do trabalho da artista no Brasil antes mesmo do grande sucesso e reconhecimento em carreira solo.
1996 - Post Tour:
SETLIST:  Army of Me One Day The Modern Things Venus as a Boy You've Been Flirting Again Isobel Possibly Maybe I Go Humble Big Time Sensuality Hyperballad Human Behaviour The Anchor Song I Miss You Crying Violently Happy It's Oh So Quiet.
Em outubro de 1996, Björk vinha pela primeira vez ao Brasil com shows marcados em São Paulo (12/10/96) e no Rio de Janeiro (13/10/96), como parte do Free Jazz Festival.



Em entrevista à Folha de São Paulo, Björk se disse ansiosa pelas apresentações:
"Vai ser m…

Em 1997, Björk já pensava em trabalhar com a realidade virtual

Vulnicura VR é o primeiro álbum em realidade virtual da história. Nele, cada experiência musical faz parte de um todo maior; uma narrativa visual que une cada canção. No entanto, segundo a edição de setembro de 2019 da Crack Magazine, esta não foi a primeira tentativa de Björk em querer dar vida a um projeto com esse tipo de tecnologia. Nos anos 90, quando a ferramenta começava a ganhar visibilidade, a islandesa quis criar uma experiência semelhante para o álbum Homogenic. Na época, muitos estudiosos acreditavam que os VRs seriam a próxima grande mudança de paradigma da humanidade após a Internet. Mas ficou como promessa, já que além de cara, não estava desenvolvida o suficiente para materializar as ideias da cantora, não para o mundo que ela queria construir. A artista acredita que a realidade virtual ficou por muito tempo em segundo plano.
Só em 2013, os primeiros headseats especializados foram lançados. Então, Björk e seu diretor criativo (e braço direito) James Merry entraram em c…