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A carreira solo de Björk rastreou as decisões de uma mulher que sabe o que quer


"Utopia" sucede a dor exposta em "Vulnicura". O segundo tópico abriu caminho para que você explorasse o primeiro?


Eu vivi um tempo conturbado. Depois de romper um relacionamento de mais de treze anos, fiquei paralisada pela dor e compus "Vulnicura" neste estado. Não pude fazer mais nada, nem pensei, tudo aquilo saiu sozinho. Mas quando alguém se afunda em profunda dificuldade, tudo o que se pode tentar fazer é tentar voltar para a superfície. Isso foi possível trabalhando com Alejandro Ghersi (Arca). Em "Vulnicura" fiz, praticamente, tudo sozinha. Desde os arranjos de cordas até a edição dos vocais. Ele se juntou a mim mais tarde, mas nossa cumplicidade artística foi imediatamente instaurada e "Notget", a última música que produzimos para o álbum, foi uma colaboração real entre nós dois. Eu nunca senti essa harmonia ao trabalhar com outra pessoa. Assim, abrimos caminho para o "Utopia".

Você sempre teve "trocas musicais" durante toda a sua carreira. Você dizer que tem uma relação mais forte com seus colaboradores é uma mensagem de esperança para todos.

Absolutamente! É por isso que eu nomeei o álbum "Utopia". Porque é basicamente só sobre isso: mantenha a esperança. Espero que este seja um mundo onde a hierarquia entre seres será banida. Uma forma mais matriarcal, ao invés do modo patriarcal. Este álbum é realmente um trabalho todo projetado em parceria com a Arca. Ele pode brilhar e eu também, e fazemos isso juntos. Geralmente, nestas situações há sempre um que quer tomar o poder. Como alguém apaixonado, muitas vezes, infelizmente, vi minha colaboração com ele ser como a união pacífica de duas forças. Os vinte e quatro anos que nos separaram não importaram. Existem muitas outras coisas em que somos diferentes, mas outras onde estamos muito conectados. Uma progressão de arranjos de cordas, por exemplo, nos coloca em um tipo de êxtase artístico. A música "Arisen my Sensens" é parte disso. Eu a toquei em um loop curto, adicionei um arranjo de harpa, coloquei uma letra e a enviei como presente a ele, que mal podia acreditar, pois tinha a sensação de que eu tinha penetrado seu inconsciente!

The Gate é capaz de despertar emoções positivas...


Muitas vezes eu me conecto com pessoas de uma sagacidade incrível, e que entendem tudo o que eu queria dizer. Infelizmente, eu não sei de nada! Como todos os outros, pesquiso, me pergunto em voz alta, para que isso sirva de impulso para eu seguir em frente, algo como: "Vamos, minha filha, você tem que sair daí!". Eu faço música como os outros fazem ioga, para que eu possa respirar... Já fiz muitos trabalhos quando estava aberta a outras pessoas, que também expunham sua vulnerabilidade. Para estar em contato com emoções puras e intensas, a única saída é continuar a viver plenamente. O caminho ainda é longo, não podemos desistir no meio dele.

Você aceita a sua vulnerabilidade enquanto tenta exibir algum tipo de força?


Você precisa confiar em seu corpo, na memória do seu corpo. Em "Body Memory", uma longa nova canção e uma das peças centrais de "Utopia", isso funciona como um manifesto para a vida. Não é preciso mais analisar, nem permitir que nossas neuroses assumam o poder nos fazendo mergulhar em um abismo de ansiedade, e sim confiar no instinto do corpo para se reconectar com tudo o que nos une à vida. Se não podemos mais amar, enfrentar o futuro, nosso corpo ainda lembra. Apenas deixe que ele faça algo, confie.

Você é vista como uma pessoa em sintonia com o futuro. Talvez você seja apenas alguém que está hoje em um mundo que se apega ao passado?


Eu não sou uma especialista ou filósofa. Eu sou uma artista de música pop e estou orgulhosa disso. Esse papel me convém. A magia da música pop é algo que é para todos. Eu acredito na humanidade, canto para ela. Tenho a impressão de estar continuando o que meu pai, um sindicalista ativo durante quarenta anos, ou o que minha minha mãe, uma mulher notável do povo, fez no passado. Isso também é devido à minha identidade islandesa. A Islândia foi uma colônia durante mais de seis séculos, e todos os islandeses rejeitam visceralmente a autoridade de quem pensa que é superior aos outros. A música pop sempre teve a mesma função: ser básica o suficiente, colocada como uma questão universal. Como artista, aprendi a sair de padrões preestabelecidos para tentar criar algo novo, e assim, talvez tenha surgido minha capacidade de nunca aceitar que as coisas estão estagnadas. Como o Trump no poder, por exemplo. Sua eleição foi um golpe - eu vivi em Nova York por um longo tempo. Quando aconteceu tudo aquilo com o acordo climático de Paris, fiquei devastada. Chorei muito. É hora de acabar com esta civilização dominada pelo homem branco ocidental. Percebi que a mudança nunca viria do poder. Cada um de nós tem de trabalhar. Se os artistas têm as respostas? Meu trabalho é escrever músicas que fazem parte da criação, algo imaginado que possa se transformar em realidade. Vontade e energia estão lá. 

Este otimismo, essa "utopia" que você alimenta, está enraizada na Islândia? 

Absolutamente. A Islândia é um país duro. Algumas das minhas músicas refletem suas paisagens, onde você pode ouvir a música dos pássaros típicos da "fúria", como os grandes corvos... Eu sempre quis que minha música fosse nova, onde você pudesse descobrir animais desconhecidos. Quando o irreal se encontra com as emoções. Quando você tem um coração partido, você sente que tudo está desmoronando ao seu redor. Eu estou no meio desta desolação, como em uma terra queimada, onde tudo o que resta é replantar. É claro que é preciso esforço. Nem tudo se renovará sozinho. Meu novo álbum é baseado em canções de pássaros e em sons de flauta, a banda ideal para criar esse novo mundo onde a emoção seria a 'rainha' da situação. Quando um capítulo de nossa vida se encerra, redescobrimos tudo de uma perspectiva diferente. Tudo o que foi familiar para você já não é mais. É assustador e emocionante. O ser humano precisa sonhar, acreditar em um mundo melhor, na Terra, do qual ele seria o artesão. Devemos nos atrever a imaginar o impensável, caso contrário, nada acontecerá. Inventar uma receita que, mesmo que não seja perfeita, já será uma forma de progresso. O nacionalismo teve seu dia. Foi útil e necessário no passado para nos libertar da colonização, mas apenas uma abordagem global nos salvará agora. Eu posso ser uma idealista porque eu venho da Islândia, uma ilha muito longe de tudo. Nós não temos um exército, e quanto mais eu entendo, mais eu vejo isso como uma virtude. Que não temos essa cultura de treinamento de jovens para matar os outros, pois nossa construção individual consegue ser ainda mais forte do que nossa conexão com a natureza. 

A Islândia está na vanguarda do feminismo. Você foi a primeira a nomear as mulheres no poder...

Tenho muita sorte de ter sido criada neste país. Foi um choque quando comecei a descobrir como funciona o resto do mundo. De repente, eu era uma mulher, e considerada como tal, neste outro sexo estranho que governa o resto do planeta. Isso não me afetou tanto assim por causa do meu status de cantora e artista, já que muitas vezes fui bem tratada. Mas porque muitas mulheres, mais jovens, me pediram para falar sobre esse assunto, percebi que tinha uma posição privilegiada. Até os 27 anos de idade, vivi igual a um homem. Ao estar em outros lugares, percebi que este não era o caso no resto do mundo. Como quando trabalhei com Lars von Trier em "Dançando no Escuro", em 2000. Mas eu soube imediatamente que seu comportamento abusivo era inaceitável. Eu tenho minha pequena teoria sobre o assunto da dominação masculina. Acho que na Escócia ou na Irlanda - experimentaram uma emasculação da população masculina. Porque eles se viram subjugados, humilhados por seu próprio povo. Como resultado, as mulheres se rebelaram, resistindo e assumindo o poder. Os homens nesses países não têm o mesmo status dominador que em outros lugares. 

Isso foi o que lhe permitiu conciliar sua carreira e seu papel como mãe de dois filhos? 

Certamente. Acima de tudo, cresci com seis irmãos e irmãs pequenas. O meu meio irmão mais novo é ainda mais jovem do que meu filho mais velho. Basta dizer que durante toda a minha vida, eu tinha dois ou três pequenos que se agarravam nas minhas pernas e me puxavam pela saia! Essa cultura é muito islandesa. Meus pais se separaram quando eu tinha um ano de idade, e assim que pude andar, fiquei de uma casa para outra, em completa independência, o que era possível em uma cidade pequena como Reykjavík. E em aniversários, todos se reuniam. A comunidade é tão pequena que todos estão em toda parte. Isso nos obriga a não ficar presos no ressentimento e na amargura.

A flauta está no coração de "Utopia". Foi o seu primeiro instrumento, certo? 

Quando eu era pequena, eu sonhava em ter um outro instrumento, sabe? Mas minha mãe não podia bancar. Então surgiu a coisa da flauta. Eu sempre pensei, com um pouco de decepção, que ela era como uma segunda escolha. Mas eu devo muito a esse instrumento. Porque todos aqueles anos de luta para aprender a tocá-la me ensinaram a respirar melhor, a trabalhar meus pulmões. Foi assim que acabei com essa voz incrível e incomum quando comecei a gritar em uma banda punk. Como eu nunca quis me tornar uma cantora, isso me fez sentir como uma criadora. Cantar era como o meu jardim secreto, desenvolvido para mim mesma. 

Antes de começar sua carreira solo, você teve experiências infelizes que lhe permitiram saber o que queria fazer.

Sim. Quando criança, meu sonho era simples. Eu me via vivendo sozinha, em uma ilha, junto da natureza, perto dos pássaros. E eu só tocaria para os animais. Eu me sentiria cercada por amor e amigos. Segui uma evolução inversa da maioria das pessoas. Eu era introvertida e feliz especialmente quando estava sozinha. Pode parecer ridículo, mas para mim, a felicidade estava em ficar cantando alto na nevasca islandesa! As outras pessoas me pareciam corpos estranhos, todos muito preocupados. Não sabia como me comunicar. "Human Behavior", meu primeiro sucesso solo, contou esta história. Mas quanto mais eu consigo realizar isso, mais acredito na interação entre indivíduos. Tente sempre superar as diferenças. Se nos isolarmos, morremos, especialmente nesta era em que a tecnologia está por todo o lado. A ideia de fugir, de viver como um eremita já não é nobre. Devemos nos unir. Ao longo da minha vida, fui forçada a deixar a minha parte introvertida de lado, como quando fiz aquele álbum aos meus 11 anos de idade. Eu estava aterrorizada, mas aquele disco me ensinou o que eu mais queria fazer. A mesma coisa mais tarde, quando eu fazia parte de uma banda de guitarra s barulhentas. Não sei como teria sobrevivido se não estivesse neste ambiente seguro na Islândia. Acima de tudo, tive a sorte de poder pegar o meu tempo e encontrar a minha própria direção. Meu primeiro disco --de fato- foi lançado quando eu tinha 27 anos. Minha carreira solo rastreou as decisões de uma mulher que sabia o que queria. Eu consegui amadurecer com pessoas que me transmitiram muitas coisas. Começando com o Einar, com quem eu estive no grupo KUKL; e depois nos Sugarcubes, que me abriram o caminho para o punk anarquista e para todos os tipos de domínios culturais e intelectuais - arte, moda, cinema - que ainda me servem até hoje. Einar estudou meios de comunicação em Londres quando eu era apenas uma garota assustada que falava inglês! É graças a ele e a tantas outras pessoas que me motivaram que saí da minha concha para me tornar o que sou. Sem eles, eu teria me encontrado na seguinte situação: Com 35 anos, isolada e gritando: "Me tire daqui!" Mas teria sido tarde demais.

- Revista 'Télérama' entrevista Björk, novembro de 2017. 

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