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Björk está cheia de amor novamente


Após um doloroso desgosto, a artista detalha o poder restaurador de seu novo álbum "Utopia", em entrevista ao Pitchfork:

A islandesa que recentemente definiu o disco como "Tinder", diz que nunca usou o aplicativo de namoro. Para ela, Tinder é a abreviatura de um espaço emocional elevado, do tipo em que as conexões com novas pessoas vêm prontamente. Claro, se abrir e confiar em pessoas que você ainda não conhece pode ser assustador, mas também um processo rejuvenescedor, e "Utopia" está recheado com um certo brilho, mesmo que ocasionalmente remeta para momentos mais sombrios de toda a carreira de Björk. (...) Não é que as cicatrizes de "Vulnicura" tenham desaparecido. É mais como se tivessem se fechado ao mudarem de forma e se transformado em algo novo. 

- "Utopia" traz vários momentos com impressionantes cantos de pássaros e quase meio que alienígenas. De onde esses sons surgiram?

Alguns deles foram registrados na Islândia. Eu tenho uma cabana ao lado de um lago, e alguns deles vivem lá do lado de fora. Eles são muito bonitos e enormes. Eles obviamente acabaram no álbum! 

Além disso, usei um álbum de música venezuelana chamado "Hekura", que foi gravado nos anos 70. Os pássaros ali soam completamente diferentes, até mesmo como o R2-D2 ou techno

Há um som bonito que acabou no início de "The Gate", uma gravação desses pássaros que os venezuelanos acreditam serem os fantasmas dos fetos. Se eles nasceram mortos ou crianças pequenas morrem, eles pensam que eles vão para a selva e fazem esses sons. Soam como sintetizadores analógicos dos anos 70. É um dos meus ruídos favoritos de todos os tempos. Eu tive alguns sentimentos específicos sobre esse álbum em particular. Você pode realmente ouvir os arranhões do vinil que usamos no som dos pássaros. É uma afinidade que, para mim, acontece em camadas. 

- Muitas vezes, você se inspirou em animais e no "mundo natural" em seu trabalho. Você olha para a natureza de acordo com as maneiras que ela pode iluminar a humanidade?

Definitivamente. Quando eu era criança, eu era realmente muito tímida. Eu andava 40 minutos sozinha até a minha escola. Me sentia alguém mais com a natureza e os animais do que com os humanos. Naquela época, eu meio que gostaria de encontrar cidades claustrofóbicas, e não era tão boa em "situações sociais". Mas acho que estou melhorando. Agora, acho que prefiro estar com os humanos.

- Você colaborou com Arca novamente neste álbum. Por que você acha que trabalhar em conjunto é tão eficaz?

É que existe uma conexão tão musical entre nós. Nós ficávamos nos enviando músicas, vendo um ao outro como um potencial que sentimos que outras pessoas não podiam enxergar. Era como se pudéssemos nos espelhar um no outro. 

No geral, é a mesma quantidade de co-produção que tivemos em "Vulnicura". O que mudou neste álbum é que o Alejandro (Arca) escreveu mais: acho que compus 60% sozinha e ele co-escreveu os outros 40%.

Talvez seja uma contradição estranha, porque há alguns anos, uma mulher que me entrevistou para o "Pitchfork" [Jessica Hopper] realmente me encorajou a falar sobre produtoras mulheres que não foram creditadas o suficiente. E então eu estava falando muito sobre isso, e me sentindo mais resolvida, mais saudável, mais forte e também mais apreciada. As pessoas começaram a me fazer tipos de perguntas diferentes depois disso. Realmente fez a diferença. Eu fiquei mais equilibrada e mais confiante, e eu me senti vista pelo o que eu posso fazer. E então foi realmente emocionante encontrar essa pessoa para quem eu pude soltar todas as minhas defesas e simplesmente brincar como crianças.

- Em que medida o processo de criação do "Utopia" foi uma extensão do de "Vulnicura"? Você sentia que isso era como uma continuação ou um capítulo inteiramente novo?

É um pouco das duas coisas, embora seja algo mais diferente. De certa forma, "The Gate" é a ponte de um álbum para o outro, mesmo que essa não tenha sido a primeira música que compus para esse projeto. A ferida apresentada em quase todos os vídeos de "Vulnicura" se transformou em um portão que você pode amar. Então o resto das músicas estão em um lugar novo.

"Vulnicura" é tão triste e doloroso. Todos os sons daquele álbum são pesados ​​- as batidas são como rochas. Existe muito peso em tudo isso. Foi realmente emocionante deixar cair todas essas rochas e, de repente, ser realmente livre. Você simplesmente tira tudo isso como um balão de ar e flutua até o céu. Comecei a ouvir músicas completamente diferentes, músicas muito mais eufóricas. Eu precisava taaanto dessa luz!

Olhando para trás agora, as melodias em "Vulnicura" são muito tristes, e há curtos espaços entre as notas. A primeira música que escrevi para este álbum, a canção de abertura, "Arisen My Senses", é o oposto. A melodia é como uma constelação no céu. É quase como uma rebelião otimista contra a melodia narrativa normal. Não há uma melodia. É como umas cinco melodias. Eu realmente amei isso.

A narrativa em "Vulnicura" era tão pesada, a história era tão importante e proeminente, e os instrumentos e batidas serviram essa história. Quando fizemos os shows, isso se tornou ainda mais exagerado. Nós tocamos no Carnegie Hall, e todas as pessoas da plateia estavam soluçando de tanto chorar. Quando fizemos o último show, eu e Alejandro fomos até o backstage e tomamos alguns copos de champanhe. Quando escrevi as canções de "Utopia" e continuei em turnê ainda cantando as músicas de "Vulnicura", senti como se estivesse vendo um caso do meu próprio sofrimento. Talvez isso tenha exagerado o contraste: você canta uma música realmente muito triste, e depois vai para casa e aquilo fica em sua cabeça como uma batida de uma máquina de ping-pong. 

- Depois de terminar este álbum, você sente que está mais perto dos lugares que você queria atingir quando começou a fazê-lo?

Absolutamente! Um coração partido é uma coisa tão estranha - eu me pergunto se a física pode medir isso ou tirar uma foto. Eu não sei quando os humanos começaram a escrever histórias, mas todos falam sobre o corações que estão sendo quebrados. Espiritualmente, é como punhais em seu peito. É algo extremo. E eu apenas acaricio meu peito agora e sinto que está tudo bem. É como se eu fosse eu de novo. É uma diferença extrema e física. E isso foi uma grande surpresa para mim.

- Há uma suspeita cultural em torno da tecnologia - as pessoas dizem que isso nos aliena, mas sua música sempre pareceu abordá-la positivamente. Em "Blissing Me", você canta sobre trocar arquivos em MP3s com um "interesse romântico" como forma de ligação. Você vê um relacionamento entre a tecnologia que você usa para criar sua música e a tecnologia que você usa para se conectar com outras pessoas?

Definitivamente houve um momento fazendo esse álbum onde eu troquei muitas mensagens. Foi com várias pessoas e não apenas uma. Algo muito curioso! Eu era quase como um exploradora indo para um novo território, vendo como eu me sentia.

Quando você se sente realmente conectado a alguém e está enviando mensagens de texto todos os dias, às vezes durante todo o dia, e depois quando conhece essa pessoa, você se sente envergonhado. É como se fosse mais natural enviar mensagens de texto do que se sentar ao lado dele. Eu nunca tinha sentido isso antes. Descobri de forma muito exótica. Era essa energia mental e quase utópica, como uma fantasia. Eu queria explorar isso e ver o que eu sentia. Não acho que você pode culpar a tecnologia - você ouve histórias sobre pessoas há 200 anos, escrevendo cartas e se apaixonando completamente. Talvez eles não se encontravam com frequência, mas ainda era puro amor.

Obviamente, como alguém que faz música, tenho muita curiosidade sobre a palavra escrita ou o fato de que você pode fazer alguma coisa, seja uma peça de teatro, um filme, uma música, literatura, poesia - ou outros textos - que podem ser tão fortes ao ponto de ter vida própria. Se torna algo mais poderoso do que a vida cotidiana. Isso é muito interessante. É como um experimento físico.

Talvez seja divertido por um tempo, mas eu não acho que seria saudável se todos os seus relacionamentos fossem assim até o fim da vida. Como com qualquer coisa, precisa existir um equilíbrio. Sempre que eu tenho uma ideia, de repente consigo um laptop e faço tudo em minha casa. A tecnologia me serviu tantas vezes dessa maneira. É apenas uma das formas que temos para nos expressar.

Tudo isso em áreas onde não poderíamos nos expressar antes, como gravar uma música no topo de uma montanha e enviar mensagens de texto para seu amigo cinco minutos depois. Esse é um sentimento poderoso.

- Você já compôs algumas músicas de amor incríveis sobre amizade. Existe uma conexão entre amor romântico e amor platônico para você? Parece que há muito dos dois neste álbum.

Muitos artistas de música pop fazem isso: simplificar as coisas e encontrar uma coordenada emocional e depois escrever uma música completa sobre isso. Talvez o primeiro verso de uma música possa ser sobre um amante, e o segundo sobre um amigo, e o terceiro ser algo que você viu em um filme, mas é tudo sobre essa localização emocional particular. A música pop é muitas vezes uma tentativa de dar sentido a algo que é realmente complicado na vida cotidiana. Muitas vezes, o método que funciona é diminuir o zoom e tentar olhar de longe. Definitivamente, as músicas deste álbum são sobre o amor platônico e, em seguida, também há um verdadeiro amor romântico. E também amor maternal. É uma mistura real.

- Você escreveu arranjos de cordas em "Vulnicura", enquanto em "Utopia" há muito mais flautas. Você estudou esse instrumento quando criança, então, o que te levou de volta a esse som?

Foi uma coisa gradual que se tornou óbvia. Quando criança, tive um relacionamento complicado com a flauta. Não foi a minha primeira escolha. Eu sempre me afastava disso e tocava tudo, exceto a flauta.

Então, talvez tenha passado o tempo suficiente, e por isso pude realmente voltar e redescobrir isso. E depois de toda a gravidade do último álbum, é algo tão leve e flutuante. É como se sentar nas nuvens.

Começamos a colecionar histórias mitológicas de todo o mundo, da América do Sul e da África e por toda parte, e li todos esses livros sobre utopias. Eu estava tentando entender: "Por que eu estou obcecada com as flautas agora? Onde é pessoal e onde é universal?". Então, foi muito satisfatório descobrir que muitas das histórias foram sobre mulheres em tribos roubando as flautas. Elas escaparam com as crianças e foram para um lugar utópico. Às vezes, eram descobertas e acontecia algo terrível, como a violência. Mas em algumas histórias, elas conseguiram criar um mundo onde não houve violência ou guerra. Eu estava realmente animada com isso! Eu também acho que pessoas que acabam sendo tocadores de flautas são personagens tão interessantes. Eles são sempre excêntricos.

- "Utopia" parece uma ideia de algo que as pessoas já tiveram para sempre. Sempre parece que os humanos estão se esforçando para isso, mas temos ideias diferentes sobre o que isso seria. Você acha que é possível alcançar ou que é algo que sempre iremos querer, mas nunca conseguiremos? 

Eu acho que é um pouco das duas coisas. É tão humano sonhar e querer algo de grande alcance. E, às vezes, realmente se torna realidade, e às vezes não. Eu gosto do espaço entre essas possibilidades. 

Apenas olhando para os meus amigos, vi que havia uma lacuna interessante entre "isso é o que eu quero, este é o meu manifesto" e o que realmente acontece. Se há uma grande diferença, isso é ruim, mas é uma qualidade bonita que os humanos têm. É um mecanismo de sobrevivência sobre ter uma receita para o que vai acontecer. Acontece com uma minoria, mas você ainda precisa dessa receita para começar. Talvez eu apenas quis escrever um álbum sobre essa necessidade.

- Como você explorou essa ideia com o "mundo sonoro" que você criou no álbum?

Havia três etapas [de escrita]. Há a parte utópica, futurista, sexy, onde estamos indo para esta ilha, onde todos estão nus e não há violência, como um romance de ficção científica. Estávamos lendo esses livros de ficção científica lésbica e negra e realmente indo nessa direção. A segunda parte é mais real e humana. E então, na terceira seção, músicas como "Body Memory" e "Loss" são mais como uma continuação de meus álbuns anteriores.

"Loss" é como uma continuação de "Pagan Poetry", um certo tipo de música gótica de menina. "Body Memory" foi uma música realmente estranha para mim. Não sabia o que fazer com essa canção. No começo, tinha 20 minutos de duração, e acabei gravando um coro de 60 peças [o Hamrahlid Choir]. Todos vieram para a minha cabana. É um dos melhores coros de todos os tempos.

Convidamos Þorgerður Ingólfsdóttir, essa incrível mulher islandesa que tem 70 anos. Ela é uma lenda na Islândia. Eu cantei neste coral quando eu tinha 16 anos. Os escutei durante toda a minha vida, para finalmente escrever algo para trabalharmos porque, para mim, era algo realmente assustador e corajoso. Ficamos sentados dentro da igreja quando gravamos, foi realmente satisfatório. Parecia que eu havia entrado em um novo lugar.

"Black Lake" em "Vulnicura" foi a canção mais sombria e triste que já fiz. "Body Memory" é uma resposta a isso. É o meu manifesto. Meu subconsciente ficava tipo: "OK, vou deixar você escrever sua música mais triste se você escrever algo para contrariar isso". E então essa música saiu de uma só vez. Cada verso é sobre coisas grandes na vida: destino, amor e sexo. É sobre: "OK, como vou viver a segunda metade da minha vida?" É um novo território, uma porta aberta.

Saiba mais:


"Queridos amantes da música! Aqui está um pequeno set para vocês. É definitivamente um mix de flautas e "temas aéreos" que talvez revelem o ambiente sonoro em que meus ouvidos estavam no ano passado. Agradeço a todos os músicos - Com gentileza, björk".

- Björk está na nova edição da revista "Mixmag". Enquanto o "Utopia" não chega, uma nova seção musical de 40 minutos foi preparada pela própria islandesa para acompanhar a matéria. Vários pássaros da Islândia estão presentes nessa edição feita pela artista no Pro Tools, além da intro com flautas de "Losss" (a partir de 10:14). Confira clicando aqui.

- Novo trecho de entrevista para a Rádio BBC: "Eu nunca assistia televisão quando criança. Minha mãe era um pouco hippie. A única coisa que eu via quando ia à casa dos meus avós, eram os programas de natureza de David Attenborough, que se tornaram meio que uma obsessão minha. O otimismo, a generosidade e o entusiasmo como ele os fez para que fossem educacionais.... porque eu adoro aprender sobre coisas novas. Estou muito curiosa, mas também é uma espécie de poesia, acho que ele fez isso de forma bonita e graciosa".


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