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As histórias das canções escolhidas para o show Björk Orkestral

Dando início a nova turnê da islandesa, a ideia desse espetáculo é apoiar o abrigo que acolhe mulheres em Reykjavík, celebrar os músicos locais que colaboraram com a artista ao longo dos anos e reconhecer os arranjos incríveis que ela criou em todas as fases da carreira. 

Nos dias que antecedem as apresentações, Björk compartilhará nas redes sociais curiosidades sobre o repertório:

1. Stonemilker: "Compus em uma praia ao lado da região de Grótta em 2012, que fica bem perto do Harpa Music Hall, local em que iremos nos apresentar. Para mim, essa música é cíclica, uma espécie de "mini-fuga", então perguntei ao diretor Andy Huang, que fez o clipe comigo, se eu poderia andar em volta da câmera em círculos, incluindo no vídeo o panorama da paisagem que nos cercava. Há uma tentativa emocional de ser inclusivo, com um movimento circular, unindo tudo entre duas pessoas". 

2. Aurora: "Escrevi essa no Sibelius, um software que adquiri e me apaixonei em 1999. Tenho usado desde então. Estou animada por ter no show o arranjo original com harpa, que será tocado tanto em uma harpa quanto por 32 músicos em cordas em Pizzicato. É uma forma de "exagerar" as geadas "mágicas" que me entusiasmaram quando escrevi. Criei a seção do meio em uma cabana que fiquei durante o inverno, em Borgarfjörður. Lembro que a sombra da montanha cobriu todo o vale, e tentei adorar o formato dela. Desde então, quando canto essa parte, sempre me lembro daquele lugar e da humildade que tanto desejava naquele momento". 

3. I've Seen It All: "Eu me lembro da melodia dessa música girando na minha cabeça por um ou dois anos, com partes do arranjo de cordas. Lembro de uma noite de alegria e não tão sóbria em Londres, na qual cantei com força total debaixo de uma ponte em uma reverberação maravilhosa. Quero fazer uma confissão. Naquela época, eu ouvia sem parar a obra Pavane Pour Infante Defunte de Ravel. Fiquei profundamente inspirada pelo clima daquilo, aquela enorme, majestosa e maravilhosa humildade. Depois de expressar o lado muscular de Homogenic, foi um prazer estabelecer uma busca pelos sinais que estão dentro de uma imensa doçura... ou pelo menos tentar". 

4. Sun In My Mouth: "Foi escrita em um dia de improvisações no estúdio com Guy Sigsworth. Eu tinha selecionado livros de poesia e poemas de amigos. Harm of Will e Mother Heroic surgiram no mesmo dia. Quando ouço essas faixas, escuto a conexão entre eu e Guy naquele instante, junto ao lado sublime das palavras de E. E. Cummings. Mas também lembro de um momento, quando saí de um certo estúdio de cinema e recuperei os direitos da minha música. Foi o momento em que assumi o poder para me manifestar. O relógio do Me Too dentro de mim foi ajustado, para ser ativado 18 anos depois". 

5. You've Been Flirting Again: "Esse arranjo veio até mim depois de trabalhar com Eumir Deodato em Isobel e Hyperballad. Canções que eu costumava tocar e cantar para ele as linhas dos arranjos de cordas que criei, e então ele as orquestrava. Mas mesmo que o arranjo de cordas em You've Been Flirting Again seja simples, foi um grande passo para que eu pudesse encontrar a minha própria voz no que diz respeito a arranjos de cordas, e nesse sentido foi o início daqueles que escrevi para Jóga, 5 Years e Sod Off de Homogenic, que achei mais "islandeses"... ou seria mais "eu"?". 

6. Isobel: "Eu me lembro que enquanto escrevia a melodia em Reykjavík, ao lado da janela da minha casa em Tryggvagata, não estava apenas tentando fazer algo apaixonado, mas também uma coisa que tinha que conter alguma piada estranha e graciosa, sabe? Tentei explicar por horas e horas para (o poeta e amigo) Sjón quem era essa criatura Isobel, e como esse humor era essencial. Em retrospecto, sinto que foi minha maneira de lidar com a criatura mítica que me tornei para a mídia, meio que escrevendo uma canção irônica sobre uma persona de realidade mágica. E talvez me permitindo ser a autora dela, poderia possuí-la e desviar da minha posição de vitima. Da mesma forma, Isobel era 8% do álbum, então de alguma forma eu estava revelando quanto de mim iria assumir essa persona no futuro. Para os outros 92% restantes, eu queria ser várias outras personagens, e a maioria delas estavam escondidas. Mas talvez todas as coisas irônicas tenham um fundo de verdade, e com certeza a história de uma garota que deixa a Islândia de forma impulsiva e instintiva, para seguir até uma cidade fria e calculista, não estava totalmente distante, né?". 

7. Hyperballad: "Tive a ideia para essa letra no meu diário por algum tempo. Lembro de estar no estúdio de Nellee Hooper um dia, e encaixá-la como uma luva em uma nova melodia. Recentemente, li livros junguianos sobre o conceito de Sombra. Me parece que combina muito bem com essa ideia. Definitivamente, eu não estava ciente dessas teorias quando a compus. Eu acho que fala sobre como em um relacionamento, a gente isola a nossa sombra, como lidamos com isso por conta própria, ainda se nosso parceiro ou nós mesmos não permitirmos que entre (em nossas vidas). Ou a encaramos com firmeza em uma "rotina inocente" como proposto na letra? Acho que é uma tentativa de criar um limite e, portanto, é possível realmente voltarmos e sermos generosos". 

8. Harm of Will: "Depois de compor a letra no improviso, passei meses escrevendo o arranjo de cordas. Pessoalmente, foi um momento importante para mim como arranjadora de cordas. Eu não estava buscando a grandiosidade, como as melodias das cordas dos refrões de Jóga ou Isobel. Optei por uma abordagem menos abstrata para a melodia. Eu queria que houvesse nuvens de exaltação, com uma energia erótica indo e vindo, mas sem comprometer ou restringir a nada sólido". 

9. Bachelorette: "É a terceira parte de uma série de 3 músicas. Human Behaviour é a infância. Isobel fala sobre a história de uma garota, que deixa a natureza pela cidade grande. Ela é movida por impulso, incompreendida na lógica urbana. É o instinto versus o lado lógico. Ela fica esgotada daquilo, e então volta para o campo para se curar e se isolar, mas treina mariposas para voltar até a cidade e voar na frente dos rostos das pessoas que estão presas a ideia de sempre fazer muito sentido. Ela diz a eles: "na na na na", até que saiam dessa. Bachelorette é sobre seguir as mariposas, voltar novamente à cidade, mas com a ferida cicatrizada. Alguém que está mais sábia para confrontar a frieza com amor. Portanto, eu queria que os arranjos fossem românticos, tão épicos quanto possível, o drama mais grandioso de todos, mas ainda com amor". 

10. Unison: "Com essa canção, eu estava muito ansiosa para tentar capturar uma caminhada mágica, como se a gente estivesse andando em uma floresta exaltados, uma das poucas vezes em que as forças da harmonia e do equilíbrio estão realmente vindo em nossa direção. A linha de baixo do arranjo foi uma tentativa de representar esse tipo de caminhada em um transe lento. Na época, foi uma emoção contrária a uma grande luta que eu tinha acabado de enfrentar. O "derretimento" após um conflito de longo prazo ou a tentativa de um. Às vezes, quando queremos muito algo, apenas precisamos fazer um "modelo musical" e depois seguir em direção a isso". 

11. Show Me Forgiveness: "Acho que essa é autoexplicativa. Hmm... a letra meio que diz tudo. Desde o início, sinto que eu sabia muito bem que não deveria ter arranjos ou instrumentos, então não tenho nenhuma história sobre partituras dela, exceto por uma parte da estrutura interna, na qual a inferior corresponde com a interior. 

Eu queria que a melodia fosse como uma bola que sobe e desce, para que houvesse uma extensão na primeira nota, daí em seguida seria como se a gravidade a puxasse para baixo, fazendo com que se enrolasse novamente. Talvez algo semelhante à melodia de Utopia e várias outras canções minhas". 

12. Pleasure Is All Mine: "14 meses depois da última vez que dei à luz, resolvi me presentear, uma viagem para um estúdio em La Gomera, uma floresta úmida que fica em uma ilha no Atlântico. Essa faixa é sobre a generosidade das mulheres. Se você ajustasse o desapego e a generosidade em até um milhão, o que seria essa experiência? Como o solo de guitarra de uma anfitriã! Essa música fala do ego do altruísmo nas mulheres (eu incluída), se isso faz qualquer sentido. 

Eu queria que o arranjo do coro parecesse quase "assombrado" pela feminilidade, "possuído" como em Wuthering Heights (O Morro dos Ventos Uivantes). Lembro de estar na ilha, bebendo meu café da manhã, depois de nadar bastante no oceano e de amamentar. Fiquei na frente do microfone, abrindo minha boca, inclinando levemente a cabeça para trás, tentando fazer sons que se conectassem com o meu interior, deixando o ar correr por mim. Quem dá mais?".  

13. Hidden Place: "Foi escrita do ponto de vista de se apaixonar secretamente por alguém, e não ser capaz de expressar isso. Então eu queria fazer do arranjo uma corrente grossa, que está suprimida debaixo da terra. Como um tabu, um amor não exposto, uma cobra muscular fossorial escondida". 

14. Cosmogony: "Quando terminei de escrever Biophilia, percebi que precisava de um tema universal, uma música tema para os aplicativos, como se estivesse em um filme, e esta é a faixa para isso. Eu inventei uma teoria caseira de que para os egípcios, judeus, as primeiras nações de pessoas, todas as tribos; os seus mitos de criação eram a sua ciência. E que o Big Bang foi simplesmente o mito da criação da nossa civilização e daqui alguns séculos, as pessoas nos achariam ingênuos. 

Mencionei isso para Sjón, que então escreveu a letra. Eu queria que a introdução e o final do coro fossem como planetas em órbita, deslizando em curvas. E para os metais, imaginei um hino nacional para a galáxia, se é que existe tal coisa". 

15. Sonnets/Unrealities XI: "No quarto de hotel, escrevi toda a melodia usando o meu ditafone/gravador em um único take, apenas seguindo o poema de E. E Cummings. Sinto que de todas as minhas melodias, essa é provavelmente a mais jazz? Penso que tive a fantasia de ouvir um dia essas palavras nesse estilo.  

É uma coisa tão estranha cantar uma letra sobre algo do pior cenário possível, quando o que está acontecendo na sua vida é o total oposto e a verdade. Quando se está completamente segura em um relacionamento, e então imaginamos o horror de aquilo acabar. A síndrome de estar sempre "carregando um vaso precioso pela rua". Isso 10 anos antes de realmente acontecer em Vulnicura". 

16. Unravel: "É uma letra que eu já tinha no meu diário há algum tempo. É obviamente sobre relacionamentos de longa distância. Eu e Guy Sigsworth queríamos que o arranjo soasse como se algo estivesse se desenrolando, um eixo eletrônico. Iremos tocar essa canção em um acordeão, que com seu ótimo acesso ao oxigênio será capaz de representar isso muito bem". 

17. Vertebrae By Vertebrae: "Em retrospecto, é provavelmente sobre Kundalini Yoga, que comecei a praticar naquela época e ainda faço. Fala do milagre de levantar a coluna e respirar excessivamente, as sensações que surgem a partir disso são milagrosas! Então, nos meus arranjos, eu estava buscando o máximo de energia possível. "Kundalini" significa a cobra na espinha, e o acesso a isso recarrega nossos quadris imensamente". 

18. Oceania: "Compus para as Olimpíadas, então meu estranho senso de humor foi direto para Tom e Jerry competindo entre 2 pianos, como se fosse um esporte. Aqueles espaços extremos entre as minhas frases, eram primeiramente essas "corridas de piano". Só depois, quando o foco da canção se voltou para (os jogos na) Grécia, decidi transformá-los em ninfas, em sirenes voando e se lamentando no céu. 

Pedi a Sjón para escrever a letra, e como não sou do tipo ligada a esportes, solicitei que ele fizesse isso do ponto de vista da figura do Oceano, que envolve e une todos os países. Ainda tenho aquela sensação de "exuberância" ao cantar o trecho: "Seu suor é salgado. Eu sou o porquê!". Isso na posição do Oceano falando com todos os humanos. Aquelas longas notas de fermata eram eu indo ao Mediterrâneo (Eu sou Fenícia... mas há 2.000 anos, então isso é um pouco forçado)". 

19. Who Is It: "É sobre a celebração de quando encontramos o amor e sentimos que isso nos completa, que nos faz voltar ao que deveríamos ser. Portanto, "devolveu a minha coroa". No arranjo, eu queria grandeza. Tentei torná-lo grande, mas simples para combinar com o "humor" dessa faixa". 

20. Mouth's Cradle: "Essa música é sobre amamentação. Um "feto fantasma", que chegou com a "energia prangsta" que os bebês têm. Um tipo de humor super forte, mas extremamente gentil. Eu queria que o arranjo soasse divertido. Estava tentando fazer com que o caráter irregular das frases, representasse um recém-nascido. Um espírito na forma líquida, ainda sem ter coagulado, então eu quis captar aquele sentimento totalmente novo. E o mais importante: é um hino sobre nutrir. Celebrar a boca e os dentes, que são como uma "escada" até isso. E por último, mas não menos importante: A nutrição que estamos recebendo, bem como os provedores que somos". 

21. Where Is The Line: "Existe um padrão nas minhas melodias que revelam um DNA islandês. Esse modelo e irregularidade se parece com uma "cobra", que eu e o coral de metal iremos cantar. Isso me lembra os talhos na madeira nas colunas das camas no Museu Nacional daqui. Nas canções folclóricas da Islândia, é bastante comum que se tenha compassos em um tempo irregular (5/4, 4/4, 3/4 e assim em diante, para frente e para trás). 

Essa faixa é também um tipo estranho de "piada musical" misturando death metal, techno e a tradição do coral da minha terra natal. Para mim, a letra é sobre o absurdo de se repreender alguém (quando nós mesmos não somos nenhum anjo). E eu acredito que esse estranho humor na fusão de gêneros musicais, era supostamente para representar isso. Além de tudo, a pessoa que estou repreendendo nessa história é meio metaleira". 

22. Human Behaviour: "Eu escrevi a melodia dessa música quando ainda estava nos Sugarcubes. Eu a chamava de Marsinn Minn, e meio que nunca havia terminado. Apesar disso, guardei por um tempo. Poucos anos depois, quando compus a letra, senti que havia encontrado a combinação para aquilo. As palavras que cantei são sobre os seres humanos, principalmente os adultos, analisados do ponto de vista de uma criança. Foi por isso que pedi a Michel Gondry para fazer um vídeo do ponto de vista dos animais. Todos molhados e peludos". 

23. New World: "Essa é uma melodia que estava girando na minha cabeça por um longo tempo. Tentei ter alguma clareza sobre isso. Então, apenas observei de modo simples o círculo de quintas, para ver através dos acordes. Como quando encostamos em uma superfície de vidro e podemos ouvir aquele "som claro", sem nenhuma bagagem. Um novo começo". 

Foto: Santiago Felipe.

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