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Björk para a Imprensa: "Vocês não se olham no espelho e admitem que não podem pensar em mim como uma artista boa o suficiente?"


Confira a tradução completa de uma nova entrevista de Björk para a VanityFair.it:

"Via telefone direto de Reykjavík, Björk me contou que alguns jovens pesquisadores estudam como "limpar os oceanos, tornando os plásticos comestíveis, não é fantástico?", ela disse. E ainda completou: "Não seria pior do que a maioria das coisas que já comemos. Isso é o que eu quero dizer quando falo que a tecnologia não é inimiga da natureza". Ela se diverte me perguntando: "Você conhece Perséfone? Na mitologia grega é a filha da deusa Demetra, que foi forçada a viver pela metade do ano no submundo e a outra metade na terra. Ela desceu até o lugar dos mortos, mas depois voltou para continuar a viver. Dessa forma, sinto que também nasci de novo". Então aqui estamos em sua Utopia.

Mas você já usou o Tinder?

Hahaha! Nãoooo, nunca!

Nem mesmo para ver como funciona? 

Sou bastante curiosa, mas foi realmente apenas uma piada, mas em cada uma delas tem sempre um pouco de verdade. Era o fim de um período importante, houveram dias cheios de amargura. Com o "Utopia" eu queria comemorar o momento em que você se sente pronto para o próximo capítulo, quando percebe que se sente de maneira diferente porque está se abrindo novamente. O mundo inteiro está se movendo!

Então é melhor que você explique a sua ideia de Utopia. 

Eu queria imaginá-la como uma terra sempre a ser explorada, como chegar a uma ilha desconhecida e cheia de flores e pássaros nunca vistos. Um lugar assustador, e ao mesmo tempo novo. Eu acho que nunca foi tão importante quanto agora, na época de Trump, nos perguntarmos como podemos salvar nosso mundo. Enquanto isso, podemos imaginá-lo, e depois dizer com clareza o que queremos. Defina você mesmo, faça um cartaz. Para que algo se realize, todos devemos sonhar juntos.

E como essa utopia soa para você? 

É um lugar com muitos sons de flautas. Criei um material com 12 meninas islandesas com quem já venho tentando trabalhar há muito tempo. Eu não fiz isso de maneira aleatória. A Flauta foi meu primeiro instrumento ainda quando frequentava a escola de música na Islândia, quando nem imaginava que tudo isso iria acontecer na minha vida. Eu e Alejandro (Ghersi, conhecido como Arca, o jovem produtor venezuelano) queríamos criar sons suaves, com toda a sua leveza. Você já ouviu o canto dos pássaros? Eles são verdadeiros, nós os gravamos, principalmente na floresta aqui na Islândia.

Qual foi a ilha que o governo islandês deu para você? 
Aquela Ilha nunca foi minha. É um lugar chamado Elliðaey, que é muito pequeno e também fica perto de um farol. Eu adoraria comprá-lo. O primeiro-ministro na época, me disse que queria me dar de presente devido aos serviços prestados ao país. Respondi: não, obrigada. Eu não queria estar conectada a ela dessa forma. 

Você não gosta de política?

Eu não gosto de populismo. No que diz respeito ao presente, me parece claro que os governantes não encontrarão as soluções que precisamos, somos nós que temos que fazer algo. E temos poder para isso. E voltemos à utopia: precisamos de uma visão comum, devemos superar a ideia de que a tecnologia e a natureza são inimigas. Nunca na história houve tantas mudanças. E quando as coisas mudam é fácil ter medo, é fácil querer se render. Está tudo bem, isso é o que é a vida, que nunca deixará de ter seu lado triste. O importante é a intenção de ir até a luz, e sobre isso que é a Utopia. Se apenas metade dos nossos planos se concretizarem, seria mais do que o suficiente.


Você já se arrependeu de ter colocado muito da sua vida privada em "Vulnicura"?
Não, sem arrependimentos! Eu escrevi essas músicas depois que tudo terminou, sem conter a minha angústia. Então eu estive um pouco indecisa sobre o que fazer com elas, isso era ou não algo que deveria se tornar público? Eu fiz sabendo que seria o primeiro e único momento da minha vida em que iria expor algo assim. 


Por que essa escolha é tão drástica? 
Existe uma cultura patriarcal que meio que nos impede de evoluir. Artistas como Bob Dylan, por exemplo, ninguém julga seus álbuns com base em sua vida sentimental, ele pode experimentar, discordar, mudar, e ninguém questiona esse processo. Um luxo que, no entanto, não é concedido às mulheres. Vamos pegar alguns exemplos como Maria Callas, Édith Piaf...

...Que são grandes artistas.

Sim! Elas deram tudo de si ao público até a última gota de suas emoções. Como resultado, dizem que elas estão incorporadas para sempre na imagem de "artista trágica". Sofrendo pelo amor. Isso é a moral patriarcal. Ninguém nunca pede que músicos homens de coração partido expliquem isso, e se eles decidirem que sim, não serão julgados. Eu não queria terminar essa história com uma camisa de força como símbolo da minha dor. Gostaria de fazer uma pergunta à imprensa: vocês não se olham no espelho e admitem que não podem pensar em mim como uma artista boa o suficiente?


Não seria tudo isso também uma espécie de clichê do que é excêntrico?
Na verdade, eu tenho uma vida saudável. Também tenho toda essa fantasia "selvagem", isso faz de mim uma louca? As pessoas só veem o lado estranho porque ignoram a prática. Eu logo aprendi a lidar com coisas mais óbvias, como gastar dinheiro ou cozinhar. Aos vinte anos eu já era uma mãe solteira, não tinha um centavo ou uma casa para seguir em frente com a minha vida. Eu estava cantando em uma banda de música punk, e me organizando na ética do DIY (faça você mesmo) tanto no palco quanto fora dele.

Você está cansada de ser a Björk?

Hahaha! Às vezes eu fico cansada de estar também na frente do computador. Então eu o fecho e dou uma volta.

Você sempre está morando em Nova York? 

Eu e a Isadora nos dividimos entre o Brooklyn e Reykjavík. Pelo menos metade da minha vida estive aqui, eu não vivo muito longe de onde eu nasci. Este é um país ainda muito rural, quase como no século XIX, não posso pensar que não posso me perder na floresta de vez em quando...

Uma das novas músicas se chama "Future Forever", você gostaria de viver para sempre?

Para ser sincera, não! Embora existam tantas coisas que eu gostaria de fazer e nunca terei tempo de realizar. 

Como por exemplo?... 

Eu me refiro principalmente ao meu trabalho. As músicas continuam sendo o meu principal projeto de vida, como quando você vai até um novo lugar, como assistir ao pôr do sol, vendo o horizonte e se sentindo completo e cheio de esperanças para o futuro. Existem músicas tristes, complicadas, fáceis e coloridas, músicas que merecem existir e esta é uma delas.

O que você sente ao ver pessoas entretidas e apontando celulares para você em seus shows?

Isso me machuca, mas não demonizo. Há duzentos anos, na Islândia, todos os camponeses moravam nas montanhas e, no inverno, conheciam talvez dois outros humanos diferentes. Eles ficaram felizes em viver tão isolados? Eu acho que eles ficariam felizes por ter internet. Eu não quero simplificar, eu também tenho momentos em que devo me esforçar para não me fechar neste mundo digital. Todos estamos tentando aprender a ouvir mais; podemos fazer isso.

Sua filha também fica o dia todo colada no celular? 

Ela e seus amigos não têm celular! Não fui eu que proibi! É uma escolha deles. Devemos incentivar os adolescentes a seguir seus impulsos, eles estão à nossa frente: encontrarão soluções que nem imaginamos".

E tem mais....

Em mais uma parte de outra entrevista de Björk à revista australiana "The Big Issue", foi divulgado um trecho da letra de "Sue Me", que possivelmente é sobre a batalha pela guarda da filha da islandesa e seu ex-marido: "Vamos quebrar esta maldição para que não caia sobre a nossa filha. Me processe por tudo o que você quiser". Em outro momento da conversa, a cantora ainda classifica o novo álbum como uma "rave de flautas", pois se trata de uma fusão de elementos de sons, que ela tentou fazer com que parecessem bons juntos, como os de flautas, batidas e sintetizadores: "Foi uma grande alegria tornar sons de flautas parecidos com sintetizadores, sintetizadores que soassem como passáros e pássaros que se assemelhassem ao som de flautas. É algo com que me importei bastante e dediquei muito esforço". A ambientação de "Features Creatures", embora pareça um compilado de vozes, se trata de flautas tocadas por Sarah Hopkins.

"Blissing Me" é uma música separada por intervalos: "É algo que eu já fiz antes em "Possibly Maybe".

Sobre a nova turnê de "Utopia", Björk não quer revelar nada até o ano que vem. De acordo com a cantora, correr para dar notícias sobre projetos ainda não finalizados pode bagunçar tudo, mas pediu que ficássemos atentos.


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