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As Engenheiras de Som de "Utopia"


Os bastidores da Utopia de Björk com as mulheres que trabalharam na produção do disco - Heba Kadry, Marta Salogni e Mandy Parnell falaram com o site "The Fader" sobre a alegria de colaborar com a islandesa:

"Eu recebi uma ligação de Derek Birkett em uma manhã de julho", disse a produtora e que também trabalha na mixagem, Marta Salogni. 

Birkett, o fundador da gravadora da qual Björk faz parte, a One Little Indian Records, queria saber se ela gostaria de mixar duas canções, uma delas era "The Gate": "Obviamente, eu disse que sim".

Heba Kadry se envolveu em "Utopia" através de Rob Angle Carolan, da Tri Angle Records, que a apresentou a Björk.

Mandy Parnell já havia trabalhado anteriormente com Björk.

Durante a entrevista, ficou claro que o processo de criação foi incrivelmente significativo para todas elas. Estar em uma equipe com a maioria das pessoas sendo mulheres, trabalhando em um disco tão transcendente e feminista foi, segundo as três, incrível e algo bem próximo do pioneirismo.

HEBA KADRY: A equipe de Björk é muito pequena. Ela gosta das pessoas ao seu redor como bons amigos, pessoas com quem ela gosta de sair e colaborar. Não houve nenhum momento durante o processo no qual me senti como apenas uma contratada. Eu sempre me senti muito envolvida. Ela é ótima em descobrir no que as pessoas são boas e como colaborar com elas de uma maneira muito eficaz.

MARTA SALOGNI: Houve uma boa comunicação entre todos. Em última análise, era apenas [eu e Björk] em um quarto, trabalhando, constantemente verificando os diferentes sistemas e tipos de sons, nos certificando de que [as músicas] soariam bem tanto nos alto-falantes de alta qualidade, quanto em aparelhos de rádio pequenos, no carro...

HEBA: Você dirigiu com ela no Land Rover dela? Nós também trabalhamos do lado de fora de sua cabana.

MARTA: Nós dirigimos sim em alguns desses carros. Reykjavik é um lugar tão lindo. Pela parte da manhã eu começava sozinha de acordo com as recomendações dela, e então ela se juntava posteriormente a mim. Depois nós íamos almoçar, e então talvez ela voltasse para casa para ouvir o resultado.

Às vezes, à noite, ela ouvia novamente a mesma mixagem em que eu havia trabalhado durante todo o dia, ou uma nova versão, e depois íamos jantar. Se houvesse tempo, também íamos assistir a algum show ou a um filme que havia chegado na cidade. Ela foi tão generosa! Ficávamos juntas todos os dias. Foi muito divertido. Ela me lembrou meus dois melhores amigos da Itália, mas combinados em uma só pessoa.

MANDY PARNELL: Já havia estado na Islândia com Björk no passado. Para "Utopia", Björk, Marta e Heba enviaram arquivos para o meu estúdio em Londres, onde trabalhei neles. Tivemos muitas conversas juntas via messenger, bem como e-mails e chamadas telefônicas, discutindo as direções que íamos tomar com as mixagens. Às vezes, durante o processo, estávamos todas em diferentes partes do mundo. 

- Trabalhar em uma equipe composta principalmente por mulheres:

HEBA: Eu poderia listar apenas poucos discos em que trabalhei onde havia uma equipe de produção predominantemente feminina. É uma posição esquisita e impressionante para Björk ser alguém que fica como: "Quer saber? Foda-se as regras. Não me importo. Não tenho que ter nomes masculinos no meu disco. Eu quero impulsionar as mulheres".

- Essa abordagem se traduziu na música?

MARTA: A mensagem, o processo e o peso conceitual do álbum são muito coerentes para mim. Eu vejo isso ilustrado não somente através das letras, mas também na "cor" das mixagens.

Quando eu estava trabalhando com a Björk, moldamos as mixagens das canções de acordo com o que as músicas diziam, então como resultado poderiam ser mais escuras, severas ou eufóricas. A ideia de utopia tem o potencial inegável de mudar as mentes das pessoas e ser uma inspiração para os mais jovens. Isso vai estar comigo até o resto da minha vida como uma memória muito preciosa.

HEBA: O disco anterior de Björk foi bem triste. Ela passou por muita coisa, e neste novo queria ir para um outro lado com uma nova abordagem para seu processo de cura. Parte disso era criar uma pequena utopia, de forma ativista, algo do tipo: Como faço para mudar o mundo em que estou agora de uma forma que não seja obscura?

- Vocês encontraram obstáculos relacionados ao mundo da engenharia musical, sendo um "clube de meninos" e viram uma mudança de cenário?

MANDY: Minha mãe era uma vendedora que trabalhava na área de seguros nos anos 60 e 70, que era predominada por homens. Ela me ensinou que ninguém estava acima ou abaixo de mim. Tem sido ótimo ver os frutos de nossa "campanha trabalhista" pela diversidade em todos os campos criativos nas últimas décadas.

MARTA: As estatísticas mostram claramente que as posições na engenharia e produção de músicas, são exercidas por homens brancos de classe média - isso acontece muito na Inglaterra - e essas pessoas ainda estão presas a suas posições. Mas vejo muitas colegas mulheres. 

É uma presença que tem sido cada vez mais forte. Quando eu comecei minha carreira na Itália, eu tinha 16 anos. Eu me sentia assim: "Puta merda, não tem mulher nenhuma agora que faça esse trabalho que eu quero fazer". Eu senti que talvez eu fosse a primeira. Algumas pessoas pensavam que eu estava fazendo um trabalho "infantil". Agora, eu não tenho que lidar com isso ao entrar em uma sessão de gravação e ter que provar o fato de ser engenheira de som, produtora ou mixer porque as pessoas saberão que eu sou. Eu definitivamente estive em sessões onde senti que tinha que me estabelecer - como alguém que está lá para fazer o trabalho, para não ser um pedaço da tapeçaria. 

Há sempre esse sentimento persistente na minha cabeça de que eu tenho que trabalhar muito mais, que nada é aceito, nada é fácil. Eu não sei o que seria ser um homem e sentir: "Eu quero ser um engenheiro. Posso ir lá e ser um engenheiro. Sim, é claro que posso. Qual tipo de obstáculo haveria nisso?". Isso é por muitas vezes cansativo.

MANDY: Eu encontrei pessoas ignorantes ao longo da minha vida, não apenas na indústria da música. Tive muita sorte, quando trabalhei em outros estúdios ao longo da minha carreira, para me sentir capacitada pelos meus chefes para não aceitar quaisquer preconceitos. Quando comecei, era muito raro trabalhar como uma produtora ou engenheira de som.

Estou realmente gostando do clima atual na indústria da música trabalhando com tantas talentosas jovens produtoras e engenheiras de som. É ótimo ver que Björk tem sido entrevistada sobre os aspectos técnicos de sua música.

HEBA: Venho do Egito. Houve uma pesquisa mundial recente publicada na Reuters que disse que o Egito é oficialmente o país mais perigoso do mundo para as mulheres. Você está condicionada a estar em torno do sexismo. Tudo isso estava definitivamente a minha volta. Apenas andando pela rua, é normal ser assediada e insultada sexualmente. Meus pais eram extremamente solidários, eu sou tão grata por tê-los em minha vida. Claro que eles estavam aterrorizados por eu ser uma garota sozinha indo para a escola de produção de áudio. O maior obstáculo na minha carreira foi que essa era a única maneira de eu conseguir um emprego em um estúdio e eu odiava isso. Meu único obstáculo era fazer parte da merda da administração do lugar. Mas você sempre encontra uma maneira de poder seguir em frente. 

Eu sempre sinto que é exaustivo ter que provar algo toda vez que eu vou para uma dessas conferências de trabalho, que são como, 100% clube para meninos. Quando você conhece alguém, eles perguntam o que você faz e, então, há uma necessidade súbita de testar o que você conhece. Essa besteira condescendente. Você sente pelo tom de voz. Entretanto, agora é muito melhor do que quando comecei. 

Temos mais presença feminina em todos os lugares. Está bom, mas pode ser muito melhor.

MARTA: Eu e Björk tivemos uma relação tão pessoal e direta. Muitas dessas músicas significam tanto para mim! Quando eu as escuto de novo, acho que trazem memórias e me fazem sentir como se eu ainda estivesse lá. Björk tem essa maneira muito pensativa e significativa de expressar a sua imaginação. Quando ela explicou o que queria que eu traduzisse em som, ela ilustrava as ideias como se usasse lindas imagens com as quais eu podia ver e me conectar totalmente. Ela tem uma maneira muito bonita de se comunicar, impulsionada pelo entusiasmo e pela paixão. Você pode ver isso em seus olhos. Você pode perceber pela maneira que ela trabalha e ver que isso significa muito para ela. Você absolutamente acredita!

HEBA: Ela lhe dá descrições extremamente precisas sobre o que está procurando. Mas ela não vai te amarrar, não vai te dizer o que fazer. Ela lhe dará ideias muito detalhadas de uma maneira quase infantil. Isso faz você trabalhar muito. Um dia ela veio e gravamos usando um velho aparelho que eu tenho dos anos 70 e o incorporou em seus vocais. Ela não te repreende se você tem essas ideias malucas, mas ela sabe como intervir (sutilmente) e como dar instruções específicas quando quer. Não há barreiras!

MARTA: Eu me senti tão energizada e inspirada toda vez que ela estava por perto. Isso me fez uma pessoa melhor. Eu me senti muito livre para experimentar durante a mixagem, mas também senti como se eu soubesse para onde eu estava indo, porque eu a tinha. Quanto mais trabalhamos, mais compreensão havia. E então você desenvolve essa sinergia. Eu estava trabalhando por horas, mas não havia nada no mundo que eu preferiria estar fazendo além daquilo. Isso me inspirou a escrever. Fui inspirada a me reconectar com pessoas com as quais eu não falava há bastante tempo. Senti o poder de dizer certas coisas a outras pessoas.

HEBA: Björk é bem legal. Ela é sempre a Björk. Quando ela aparece, parece alguém incrível, e não intimidante. Ela realmente é a sua arte. Ela está muito consciente e sempre animada e emocional sobre o que ela faz. Há um pensamento real e uma intenção criativa em cada letra, cada verso único, cada som.

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