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O DNA Musical de Björk


- Colaborações:

Há uma história diferente com cada colaborador. É realmente como as amizades. Para cada amigo que você tem ou cada pessoa que está em sua vida, há uma história diferente e eu realmente sinto que é assim. Para mim, o que realmente diferencia é se é uma colaboração visual ou musical. Eu olho para mim mesma como uma musicista. Quero dizer, quando estiver sentada em uma cadeira de balanço aos 100 anos, provavelmente vou olhar para o lado da música como sendo o meu principal trabalho. Meus colaboradores musicais são em menor número, mas a conexão provavelmente é mais profunda porque não é apenas amizade, arte com jogos e coisas a se fazer. Meu tipo de DNA musical é meu núcleo, sabe, e minha pessoa. Quem quiser combinar com esse DNA musical, será algo que levará mais tempo e, geralmente, dura mais. Claro, tudo o que vou dizer depois disso vai contradizer isso. (...) Com o Alejandro (Arca) foi um processo muito gradual, mas, como nos conhecemos (em um DJset da festa depois do último show de "Biophilia"), foi muito profundo. Ele é tão complicado e enorme, que era como se toda vez que sentíamos que havíamos feito algo, era como montar uma outra camada. Eu também acho que talvez a magia seja porque nunca esperamos que durasse tanto tempo. Nós sempre pensamos: "Tudo bem, vamos fazer mais uma coisa e é isso". Nunca foi planejado.

Quando se trata de coisas do lado visual, é diferente. Eu volto para as raízes das minhas antigas bandas punk onde tudo era muito anti-autoridade. Era como uma anarquia, e funcionava com todo mundo sendo importante e sem qualquer absurdo de brigas de ego. Então, talvez meus visuais acabem por ser o oposto ou porque sou realmente extravagante, e há muitos como eu nesse meio. Mas acho que eles são muito colaborativos, especialmente quando nos encontramos e conversamos. Além disso, para publicar os vídeos, é depois de mais de 20 e-mails em grupo, com todos dando suas opiniões. Como, por exemplo, com "The Gate", foi um ano de conversa antes de ser lançado.

Além disso, mesmo que eu esteja em todos os meus vídeos, me sinto como uma dublê, ou algo assim. Quando conversamos sobre essas coisas, provavelmente estou falando sobre texturas e cores, e se elas funcionam com o ritmo da música ou com a texturas das flautas. O que é mais divertido para mim é esse tipo de lado esperto e seguro. O meu papel nisso é geralmente o e-mail final, ou algo assim.

Eu acho que as melhores conexões ou colaborações são quando você não assume nada e não há projeção e pressão, e as pessoas não são forçadas contra a parede. Nos poucos momentos em que me encontrei nesse tipo de situação, algo não estava certo.

Eu acho que uma colaboração funciona melhor quando se começa do zero tentando fazer algo diferente do que você fez antes, e você tenta encontrar uma coordenada, que não teria encontrado sozinho ou com alguém diferente. É quando se torna fértil.

Eu também acho que como acontece com muitas pessoas com quem trabalho, às vezes isso é a terceira ou a segunda coisa que fazemos juntos. É como um instinto. É semelhante às amizades que você estará dentro de cinco anos ou o que quer que seja e, certamente, se você tiver essa conexão, gostará da próxima etapa, seja lá o que for.

Descobri isso, por exemplo, nos vídeos que eu e Andy Huang fizemos juntos. Começou com "Mutual Core" e "Black Lake", depois "Family" e "The Gate". Não poderíamos ter feito "The Gate" como sendo o nosso primeiro vídeo juntos. Realmente era como se tivéssemos crescido juntos. Crescemos juntos de muitas maneiras. Foi realmente um sonho.

- Abandonar um projeto:

Penso que, provavelmente, em minha mente, nunca abandono uma ideia. Mas a realidade é que eu provavelmente faço isso. Se eu pudesse descrever do meu ângulo seria: você não espera que as coisas aconteçam. Tento não presumir. Eu sou grata por cada passo.

Eu acho que isso é muito sobre o tempo. Em minha mente, é mais como se isso acontecesse a cada 10 anos.

Talvez possa acontecer dentro de 50 anos. Esse é o próximo passo. Ou outra pessoa vai olhar para o meu trabalho, e isso pode inspirá-los a escrever um poema. Eu olho para isso mais assim, sabe, como se fosse algo que eu não possuo.

É uma energia que existe, especialmente em uma colaboração. Trabalhando por conta própria, acho que é diferente. Mas em colaborações, é algo que não se pode controlar. Você conhece alguém, e sente muito rápido o potencial do que essa relação poderia ser. 

- Bloqueio Criativo:

Bem, acho que provavelmente o que eu menos falo é sobre os assuntos que sou mais protetora, e é assim que olho para o meu trabalho. Como, por exemplo, 80% disso são as minhas composições, melodias, arranjos e minha produção. O que eu faço sozinha, no meu laptop. Eu nunca poderia escrever um álbum em um mês. Acho que parte disso é porque comecei a escrever melodias ainda quando criança, caminhando para a escola, e sempre foi como minha maneira de lidar com o mundo. Para mim, isso nunca foi algo que deveria existir no resto do mundo ou com os meus amigos, na escola, nas vendas dos meus álbuns ou que você quiser chamar.

Sou eu sozinha. É como a lua cheia, que vem uma vez por mês. Isso não muda. Eu também acho que talvez porque estive em bandas no passado, desde os 12 ou 13 anos, dependendo de quando você começa a contar, o que é bastante tempo. Eu também fui mãe solteira, e tudo o que fiz além de cuidar do meu bebê foi escrever melodias e letras. Acredito que apenas me tornei algo que eu poderia fazer enquanto eu criava uma criança, fazendo compras ou com uma rotina diária normal. É como outra função no meu subconsciente.

Quando eu tinha 27 anos e o "Debut" saiu, isso se desenvolveu. O que já acontecia desde que eu era criança. Quando estou fazendo turnês, videoclipes ou o que quer que eu esteja fazendo, isso sempre esteve lá. Eu não acho que tenha tido algum bloqueio.

Eu acho que meu bloqueio tem sido mais em lidar e interagir com o mundo, ou ter certeza de que todos os meus relacionamentos de trabalho estão fluindo. Você tenta entender as pessoas e ouvir. Aceitar que às vezes, algumas relações de trabalho têm um relógio ligado a elas. É como uma fruta na hora da colheita. É preciso esperar que você amadureça o suficiente para que possa se deixar ir quando coisas assim acontecerem. Isso é algo sobre o qual eu tento trabalhar conscientemente.

- Tempo para cuidar de si mesma:

Talvez porque eu ter tido uma criança quando eu era bem jovem, e talvez porque eu sou uma cantora, sempre cuidei de mim mesma. Felizmente ou infelizmente, dependendo de como você olha para isso, escrevo melodias muito ambiciosas para mim, então não consigo tocar músicas punk para todas as minhas canções. Tenho que me certificar de que minha voz mantenha todos os seus registros, tanto gentis como brutais, porque eu gosto de ser livre na minha voz. É bastante difícil. Mesmo que eu simplesmente cantasse brutalmente o tempo todo, isso não seria tão difícil, mas eu gosto de extremos. Gosto de coisas gentis e brutais e de pular entre as letras da mesma canção; Para fazer isso vocalmente, eu sempre tive que cuidar bem do meu corpo. Me lembro de quando estava em algumas das minhas primeiras bandas quando viajamos de van para algum lugar em Berlim, quanto eu senti que tinha perdido parte da minha voz. Eu fiquei: "Oh meu Deus, eu vou fazer o show, e não vai ser divertido. Posso dar todas as minhas notas brutais, mas não posso ter detalhes delicados ou sensibilidade". Eu fiquei realmente triste quando isso aconteceu comigo. Então, eu acho que desde muito cedo, aprendi um ritmo de como cuidar de mim mesma.

Eu acho que também tenho uma criança jovem dentro de mim, eu sou um pouco oldschool. Eu saio uma vez por semana. O resto dos dias, sou bastante sensata. Apenas ouço muita música e leio muitos livros, então acho que sempre terei esse tipo de ritmo, não mudou muito. Simplesmente permaneço a mesma. O bom de Reykjavík é que estou cercada por todas as crianças com as quais cresci. Todos vivem umas cinco quadras da minha. Uma resposta rápida é: sempre é uma luta. Você sempre fica: "Oh, droga, agora não tenho nada para fazer por dois dias", e então, sempre no final do segundo dia, fica: "eu estou entediada sem merda nenhuma pra fazer". Mas você tem que se forçar a fazer algo. Eu acho que para todos, isso sempre será como precisar fazer malabarismo até o fim da vida.

- Quando sabe quando um projeto está finalizado:

Eu não sei por que, mas isso nunca foi um problema para mim - eu só sei quando está pronto. Gosto de coisas quando não estão completamente concluídas. Eu gosto quando os álbuns simplesmente saem. Talvez tenha algo a ver com estar nas bandas. Nós passamos muito tempo em pelo menos um ou dois álbuns, tornando todas as músicas muito perfeitas, e depois mudando-as demais no estúdio, e então quando íamos tocá-las nós já estávamos meio mortos. Eu acho que há algo em mim, como um instinto, que não quer só a versão final, prontinha no álbum. 

Eu quero deixá-las abertas a outras versões, o que provavelmente porque eu ainda faço com que as pessoas produzam remixes, e quando as toco ao vivo, eu me sinto diferente e as músicas podem crescer.

Sempre haverá uma música em cada álbum, talvez um pouco produzidas demais, mas está tudo bem. E aquelas que não estão tanto assim e talvez mais tarde, eu acabe fazendo uma nova versão. Digamos que escrevo nove músicas por ano, então meus álbuns são lançados a cada dois, três anos. Se você olhar para a matemática disso, cada vez que um álbum sair, haverá uma música antiga, e haverá uma nova música. Olhando para trás agora, uma coisa que não aprendi a fazer até meu primeiro álbum solo foi tentar criar um fluxo uniforme. Como segurar a respiração como se fosse por cinco ou sete anos, não liberar nada, e então acumular muita coisa. Talvez você até já tenha obtido algumas versões impecáveis ​​e perfeitas de algumas dessas músicas, mas no geral, acho que há mais ou menos uma obstrução do seu próprio fluxo. Você perde contato com essa parte de você. Seu subconsciente está escrevendo músicas o tempo todo e parte de você está mostrando isso ao mundo. 

- Eu estava pensando sobre o modo como Kanye West continuou ajustando o álbum "The Life of Pablo" depois que o lançou:

Tinha uma parte de mim que queria liberar o "Utopia" sem todas as canções com sons dos pássaros - apenas mais racionalizadas. Parte de mim queria lançar duas versões, como se um estivesse limpo, com grandes intervalos de silêncio entre cada música. A outra versão que eu liberei é o contrário. Estávamos tentando fazer uma viagem, quando você chegava a esse lugar específico. Eu ia manter isso em segredo, mas já que você o mencionou, estou meio tentada a dizer. O que estou preparando agora provavelmente se tornará uma versão ao vivo, onde eu quero levar mais flautas, em mais um tipo de domínio acústico virtuoso, e talvez eu tire os pássaros. O que eu estou tentando dizer é que quando se lança um álbum, é importante manter o fluxo em andamento, e se você tiver algo extra ou novo, você o usa como combustível para a próxima etapa. Eu acho que isso é importante, porque se esperar mais seis meses ou algo assim, pode perder tempo também com outras músicas antigas. Eu acho que é mais importante manter o impulso e depois seguir em frente. 

No geral, meus fãs mostraram muito entusiasmo sobre como, quando toco ao vivo, faço diferentes versões de minhas músicas. Não há necessariamente uma versão correta de cada música. É uma experiência que continua.

.:: The Creative Independent, dezembro de 2017.

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