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Björk não quer transformar seu show em um karaokê com hits antigos


Em entrevista ao Corriere della Sera, Björk revela que não estava interessada em estudar as diversas versões antigas do conceito de Utopia, mas procurou conhecê-las, como por exemplo a tese de Tommaso Moro. Ela quer saber sobre o que isso significa hoje, em 2018. A artista ainda falou sobre outros assuntos:

As músicas do seu novo álbum às vezes têm uma leitura pessoal e íntima, em outros momentos os temas são universais, certo?

Eu acho que os dois elementos estão sempre conectados. Para determinadas pessoas, utopia é a possibilidade de comprar um barco, uma casa própria, viver em Nova York, casar, fazer muito sexo, sei lá!

A música parece ter perdido o interesse por questões sociais e políticas. Como você explica isso?
Na verdade, acho que existem muitas músicas que lidam com questões políticas. O que não está mais em questão é a política do passado. Os problemas de hoje estão mais relacionados ao meio ambiente e ao racismo. A MIA, por exemplo, e alguns rappers falam sobre a situação dos negros em seus trabalhos.

Quando o escândalo sobre Harvey Weinstein estourou na mídia, você também falou sobre ter sofrido assédio sexual por um diretor de cinema dinamarquês com quem trabalhou. Como é a indústria da música no meio dessa tempestade?

Existe uma dinâmica muito diferente no mundo da música. Escrevendo as canções para a trilha sonora desse filme eu me senti independente e forte. Quando você é atriz, no entanto, acaba por muitas vezes se tornando um instrumento do diretor. No teatro é ainda pior: há séculos de tradição de atrizes que sofrem nas mãos deles.

Você acredita que o caminho para a igualdade de gênero ainda é longo? 

Estamos escrevendo uma espécie de nova constituição global e não será como os dez mandamentos de Moisés. Aliás, alguns deles poderiam ser: "Trate a mulher como você trataria um homem", "Trate todas as raças da mesma maneira" e sobre tratar com respeito o meio ambiente.

Você se sente representada pela palavra Feminista?

Minha mãe era muito ativa nos anos 60 e 70 como ativista e eu não poderia ter feito o que fiz se não fosse pelas mulheres de sua geração. Mas também entendi que, se repetisse o que ela fazia, não teria progredido. Eu e as mulheres da minha geração andamos pelo mundo fazendo outras coisas. Nós não apenas conversamos, mas agimos. Paramos de nos comportar como pássaros que choram em uma gaiola aberta. Apenas queremos voar para longe!

Seu novo show é focado no novo disco e tem apenas algumas músicas do seu repertório de clássicos. Isso é como colocar o público em teste?

Eu não saberia como fazer o contrário. Se eu fosse assistir a um show de uma artista que eu amo tanto como a Kate Bush, gostaria de viver o presente e ouvir a música que ela havia escrito naquele momento. É uma maneira de tornar a apresentação mais preciosa, real e única. Eu quero que os que compram os ingressos e se esforçam para viajar até mim não participem de uma espécie de karaokê.

O site Les Inrockuptibles, também em entrevista com a islandesa, relembrou que as últimas palavras do álbum "Vulnicura" sugeriam que Björk precisava imaginar um futuro, especialmente para sua filha e seus descendentes, e perguntaram para a cantora: A utopia era a maneira ideal de atender a essa necessidade?

Sim, eu acho. O 'Utopia' é uma das minhas maiores viagens. Dura aproximadamente uma hora e onze minutos. Eu queria me dar espaço suficiente para considerar vários pontos de vista. Um dos mais importantes é, sem dúvida, a dimensão idealista do álbum. Meu objetivo era estabelecer uma grade de leitura sobre combater nossos erros pessoais, nos alertando para não repeti-los novamente. Algumas músicas são um ótimo reflexo dessa ideia, como a faixa-título, 'Utopia', e a última, 'Future Forever'. O álbum inteiro evoca essa vontade de fugir do que nos controla, que nos rodeia e nos empurra para uma direção que não escolhemos. Acho que esse é o erro mais básico que podemos cometer: viver uma vida que não escolhemos. Com 'Utopia', eu queria colocar em evidência a ideia de poder sonhar (e realizar esse sonho) como característica do que é o ser humano. Eu pensei que este álbum fosse um manifesto. Durante a época das composições, li muitos livros sobre utopias. Textos da Idade Média e outros, mais contemporâneos, detalhando utopias socialistas, comunistas, capitalistas... E então, um dia, Donald Trump decidiu retirar-se do acordo de Paris sobre o clima. Eu experimentei isso como um drama. Os políticos não têm visão para o povo, então cabe a nós escrever nosso próprio plano, nossas próprias utopias. Esta pode ser a única maneira de permanecer otimista.

A mensagem de "Utopia" do novo álbum contrasta fortemente com a ideologia punk que você encarnou na época do Tappi Tikarrass, uma de suas primeiras bandas, né? Quais foram os estágios da sua carreira que te levaram ao conceito de "Future Forever"?

Eu acho que nunca me senti confortável no estilo punk que adotei na minha adolescência. Na época, eu li muitos livros de ficção científica, então acho que as perguntas que vão além de mim sempre me interessaram, como também acontece hoje em dia. Quando alguém é educado por esse tipo de questionamento, necessariamente se torna otimista por natureza, porque aguarda uma resposta sobre tudo. Quando adolescente, eu ouvia muito mais a Kate Bush e o Brian Eno do que as bandas punks do estilo que eu tocava. Isso me levou a estados de êxtase e euforia tão elevados! Agora que penso nisso, lembro que houveram muitas conversas com os outros membros da banda, já que era eu em um papel otimista e eles defendiam um ponto de vista mais niilista. Eu compus uma música do Sugarcubes chamada "A Day Called Zero", cuja letra é muito semelhante às do "Utopia", e isso foi há trinta anos! Fazendo uma observação geral, eu diria que os islandeses são muito otimistas. Nós rimos muito e somos pessoas que sentem de alguma forma o destino umas das outras. Acreditamos na autoeficácia e na capacidade de escrever nosso futuro.

Björk ainda revelou mais alguns detalhes sobre seu primeiro encontro com Arca e o tempo de mixagem do álbum "Utopia":

"Nos conhecemos em setembro de 2013, em Londres, depois do último show da turnê do "Biophilia". (aquele que virou o filme). "Fizemos o DJset juntos da festa de comemoração e bebemos champanhe por seis horas! Já faz mais de quatro anos que começamos a trabalhar juntos. A mixagem do novo álbum foi longa e desafiadora, pois levou quatro meses! (...) Quando eu descobri que ele conhecia o disco "Hekura" de David Toop, fiquei completamente louca porque não é tão popular! Eu escuto desde a minha adolescência, e foi uma forte influência em "Utopia". O Arca é da Venezuela e ele tinha uma leitura muito diferente da minha, com relação a esse disco. Todos aqueles cantos de pássaros que me pareciam exóticos eram bastante comuns para ele. Na minha opinião, a noção de utopia depende muito de vários tipos de perspectiva, pois ela só é completa quando o real e a fantasia se juntam em um mesmo ponto. Quando uma das 'peças' está faltando, a equação está incompleta e se torna completamente tendenciosa. Vou lhe dar um exemplo bem concreto. Atualmente, na Islândia, tem algo que todo mundo acha muito bizarro: Todos os comerciais de automóveis que visam exaltar as virtudes dos carros usam como pano de fundo a paisagem do país! E isso não faz sentido. Além de ser uma forma muito confusa de apropriação cultural (risos)".

Você pode explicar o seu envolvimento com o uso de máscaras?

Para ser honesta, meu relacionamento com máscaras é bastante instintivo e impulsivo. Geralmente, tudo começa a partir de uma atração por uma forma ou cor. Eu percebo que as máscaras que usei na época do "Vulnicura" estavam fortemente relacionadas ao contexto de luto. Eu às vezes parecia uma viúva! Escondia meus olhos enquanto hoje estão claramente visíveis. Há uma ideia de pós-caos nas peças que uso hoje. A catástrofe passou e uma nova ordem natural se instalou com mais esperança e oportunidades. Pode parecer assustador, mas estou convencida de que nossa única chance de sobreviver será evoluir com a natureza e a tecnologia, para construir um novo relacionamento com confiança.

(...) Acho que o que aconteceu no final de 2017 (com o movimento #MeToo) marca um momento decisivo na história. Eu tenho uma filha de 15 anos. Se eu quero que ela cresça em um mundo diferente, eu tenho que fazer minha parte. Falar sobre tudo aquilo não foi fácil para mim. Foi libertador, mas também humilhante. Eu observo a nova geração com muita admiração. Meninas que hoje têm seus 20 anos são diferentes. Elas se defendem e se apoiam muito mais, e me influenciaram, por isso não consegui mais ficar em silêncio. Devemos aproveitar essa onda de mudanças, sem esquecer de compartilhar informações. Acho que muitos homens na faixa dos vinte anos também mudaram sua percepção sobre relacionamentos. Não devemos excluí-los do combate.

Seu primeiro álbum foi lançado há pouco mais de quarenta anos. Se você pudesse, que conselho daria para aquela criança?

É uma pergunta difícil... Acho que eu diria: "Tudo bem se você não tiver medo de se transformar de novo e de novo".

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