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As aventuras musicais e a escuta de Björk

Eu sou Elia Einhorn. Sou músico, radialista e DJ. E, como curador de Listening, tenho o grande privilégio de trazer a você percepções de algumas das mentes mais empolgantes da música, como Laaraji, Neko Case, Jlin e a convidada de hoje, Björk.

Como alguém apresenta uma artista como Björk? Ela fez algumas das músicas mais fascinantes e aventureiras a serem adotadas tanto pela crítica quanto comercialmente. Indicada tanto para o Grammy quanto para o Oscar, a voz inimitável de Björk voa alto e ocupa espaço nas paisagens emocionais evocativas. Muitas vezes, é de tirar o fôlego. Neste episódio, veremos como Björk descobriu sua sensibilidade única como artista, a influência de seu país natal, a Islândia, e como ela encontra a faísca de uma gravação. Em seguida, seremos teletransportados para uma de suas apresentações mágicas recentes com o Hamrahlíð Choir, recontextualizada em colaboração com o lendário gravador de campo Chris Watson.

E: Björk, obrigado por falar comigo hoje.

B: Obrigada por falar comigo também!

E: Você criou essa combinação absolutamente linda dessa performance ao vivo com o coral, com "Hidden Place" e "New World". E você adicionou este belo estrondo vulcânico e um ruído da superfície do gelo marinho. Antes de discutirmos isso, eu adoraria falar sobre o ato de ouvir. Você consegue se lembrar de um momento em que percebeu o som pela primeira vez?

B: Boa pergunta! Definitivamente, eu era o tipo de criança que não falava muito. Me disseram que eu estava sempre cantarolanda para mim mesma. Então, acho que provavelmente era uma criança com um senso de audição muito sensível. Lembro de algumas coisas, como quando uma das minhas melhores amigas na escola me convidou para ir à casa dela. Não sei, eu tinha dez anos ou algo assim e a família dela tinha acabado de comprar o primeiro pacote de... Você provavelmente é muito jovem para se lembrar disso, mas era um tipo específico de café coado [que vinha em uma embalagem].

E: Ah, teria sido talvez uma máquina de café automática?

B: Não sei. Mas fazia um tipo de som realmente interessante. Eu apenas balançava a cabeça. Falando agora, parece uma caricatura total de quem eu sou. Eu literalmente estava apenas lá sentada lá em frente àquilo com meus ouvidos bem próximos. Escutando o tempo todo durante aqueles 15 minutos (ou o tempo que levasse para fazer um café).

E: Sim. Sim.

B: E eu pensei que aquela era a melhor coisa de todas. Eu estava no céu! Ouvir aquilo me dava arrepios. No geral, não é tanto assim com o material visual para outras coisas. É sempre assim, se eu me apaixonasse por alguma coisa, sempre é porque tinha um som bom.

E: Com toda essa experiência de escuta ao longo dos anos e ao longo de sua carreira, você sente que escuta de forma diferente das outras pessoas?

B: Não, acho que não. Eu tenho muitos amigos que não são músicos, mas a conexão deles com os ouvidos é muito deliciosa e satisfatória, como uma coisa sensual de ouvir um lindo som de buzinas de navio no porto ou qualquer outra coisa, sabe? É como chocolate.

Uma vez, fui para a Jamaica e não pude acreditar que o me disseram era realmente verdade! A gente passava pelas casas, que chamávamos de "galpões de jardim". Nem mesmo eram à prova d'água, mas fora de cada casa, havia alto-falantes do mesmo tamanho e até melhores do que aqueles que vemos em shows. Fiquei tipo: "Uau!". As pessoas se sentariam orgulhosamente do lado de fora, com seus alto-falantes do tamanho de um ser humano! Daí é que a gente entende, sabe? "Ah, então o dub sound veio daqui. Entendi!".

E: Você mencionou a pequena Björk de dez anos, pressionada contra a cafeteira ouvindo aquele som. Se você pudesse voltar no tempo e dizer ao seu eu de dez anos uma coisa sobre ouvir, o que seria?

B: Na verdade, me sinto muito sortuda por, quando criança, não saber que a música se tornaria um trabalho. Era apenas uma coisa privada minha comigo mesma, sabe? E eu me senti muito sortuda por ser inocente do fato de que poderia ganhar a vida com isso ou algo assim. Era apenas como um mistério só meu.

E soa muito, muito estranho dizer isso, mas eu costumava caminhar em todos os climas possíveis indo para a escola, já até disso em muitas entrevistas. Eu escrevia várias melodias. Da minha infância até a minha adolescência, mesmo no período que fui parte de bandas, nunca misturei esses dois mundos. Era como um mundo particular, entende? As coisas que eu fazia sozinha com a música eram por prazer, um espaço que jamais dividiria com ninguém. Era realmente uma coisa muito espiritual, um êxtase.

Não foi diferente até os 25 anos ou algo assim, quando comecei a tentar coletar todas as melodias que escrevi, mas não em uma sala de ensaio com uma banda. Eu me senti nua, tipo: "Oh, meu Deus, estou compartilhando algo que nunca compartilhei com ninguém". Era quase obsceno, como se eu estivesse abrindo meus diários para o mundo, convidando todos a entrar.

Existem áreas em nossas vidas em que somos muito impulsivos, e então protegemos isso o máximo que podemos. Daí há a outra metade de nós que, como testes de matemática, aplica os formulários da Previdência Social e tudo mais. E essa é uma seção muito separada de nós como pessoas!

E: Björk, muito obrigado por sua música linda e envolvente. Eu me pergunto, quais são alguns dos sons que você simplesmente adora?

B: Eu amo o barulho do vento, claro. É muito islandês. Acho que o som que coloquei na gravação do coral desse show foi o de um lago congelando. Existem alguns sons incríveis! Por exemplo, tem um artista... esqueci qual é o nome dele, acho que é Jess. Certa vez, ele montou um tipo de sistema de som surround e fez um show na Islândia. Foi nos Alpes no inverno, e ele gravou os acordes metálicos que estão entre os Alpes. Esses acordes eram como o vento! Levou cerca de meia hora para aquilo congelar, enquanto ele fazia anotações. Daí ficávamos sentados lá em meio a isso, ouvindo aqueles acordes lentamente congelando. Devo dizer que esse é um dos áudios mais satisfatórios que já ouvi! Acho que eram cordas de violino gigantescas esticadas entre os Alpes. Foi bem épico! Obviamente, sou uma grande fã de Chris Watson, que obviamente é um ícone quando se trata de gravações em campo.

E: Sim.

B: Ele fez algumas coisas espetaculares, gravando sons todos os anos, inclusive na Islândia. Uma das minhas gravações favoritas dele é uma de quando ele foi a um fiorde no norte da região de Husavik. Ele colocou microfones na água em um enorme fiorde! Gravou uma coisa que acontecia anualmente ali: milhões de camarões estalando suas garras.

Elia: Ai, meu Deus!

B: Era assim... [imita os barulhos desse som]. E ele não conseguia descobrir o que era aquilo. Incrível! Ele teve que perguntar a todos os cientistas. Era basicamente um número de percussão no oceano.

E: Incrível! E você e Chris colaboraram em uma biblioteca de sons que você mesma reuniu, incluindo os sons que ouvimos ao longo de sua gravação para o "Listening".

B: Sim! Para ser honesta, na verdade não gravei isso sozinha. Mas é claro, darei crédito aos autores porque sei o suficiente sobre gravações de campo. É uma forma de arte por si!

Realmente também já estive por aí! Gravei coisas como pássaros para "Utopia", barcos para "Volta", sons de gelo em "Vespertine". E sim, algumas das minhas coisas acabaram nos discos. Mas, para ser sincera, quando entrei em contato com os profissionais desse tipo de gravação e comprei o trabalho deles, obtive permissão e usei no meu próprio trabalho. Precisamos tirar o chapéu e ter respeito, porque é uma forma de arte em si. Então resolvi seguir por esse caminho.

Acho que é como tentativa e erro, assim como qualquer coisa na vida. Quer dizer, eu sei que talvez eu pudesse ser uma bom gravadora de campo, mas isso significa que eu teria que largar tudo o que faço e apenas fazer isso. Ouvindo histórias de Chris Watson e seus colegas, entendi que eles vão aos lugares e esperam por semanas e assim conseguem as melhores gravações.

Chris Watson me contou uma linda história! Quando a BBC estava filmando na África alguns leões comendo zebras, eles simplesmente não conseguiam acertar o som, mas fizeram toda a captação. Depois, levaram Chris de helicóptero de volta ao local. Era como urgência! Ele se instalou em um Land Rover, em algum lugar na savana. Basicamente, esperou e instalou muitos microfones dentro daquelas carcaças de zebra.

E: Uau!

B: A um quilômetro de distância, ficou esperando em um Land Rover por quatro semanas ou algo assim. Ele ouvia o que acontecia em som surround, os leões vindo e comendo a carcaça. É uma gravação fenomenal! Mas se você quiser capturar algo assim, é um trabalho de tempo integral.

E: Ah, com certeza.

B: Falando em som surround, acho que com "Vulnicura", decidi voltar à estaca zero e fazer apenas música, não tecnologia, porque em "Biophilia" era algo que estava no topo da lista. Quando fiz o álbum também em realidade virtual, comecei a ficar muito animada com o som 360°, pois mixamos as faixas dessa maneira produzindo os vídeos.

E: Isso é tão legal! Portanto, a experiência sonora do público realmente acaba, de forma retroativa, afetando sua abordagem. Você pode me falar sobre esse coral incrível [da gravação para o "Listening"? O resultado foi muito além! A maneira como tudo foi microfonado soa incrível. São 54 membros?

B: Sim! É um coro lendário na Islândia. Nós temos uma escola aqui, que é frequentada por aqueles interessados em artes.

E: E como se chama?

B: Hamrahlið Choir. E a senhora que dirigiu este coro é uma lenda total na Islândia, porque ela tem um espírito muito generoso. Muito amorosa e com grande coração, mas também bastante disciplinadora. Ela sempre foi capaz de levar o coral a uma espécie de lugar que é algo extra, como um estado superior. 

O que eu aprendi rapidamente, tanto em "Homogenic" quando estava em turnê quanto em "Vespertine", foi obter cada vez mais a experiência acústica no palco, mas ainda com beats loucos de techno. Microfones fechados e suspensos, mixados como diferentes indivíduos, mas que também precisam se fundir. Na verdade, o melhor desempenho sai disso. Então é muito trabalho, mas minha esperança era que isso saísse sem esforço, para que as pessoas sentissem como se estivessem ao lado do coral e pudessem ouvir as vozes individuais. Queria também que tivessem essa sensação mágica, com o coral se unindo.

E: O que essa gravação diz sobre você e como documenta onde você estava naquele momento?

B: Não tenho certeza se consigo colocar isso em palavras. Acho que essa é a beleza do som. Foi muito interessante tentar encaixar o estrondo vulcânico, porque muitas músicas simplesmente não combinam. E sim, é como o Tinder: é raro encontrar a combinação que funciona.

E digo o mesmo sobre a gravação em campo, com o som do gelo. Acho que foi apenas por tentativa e erro. Na verdade, muito disso é difícil de explicar. Tipo, "o que é isso?". Qual é o alimento emocional que se obtém ao inclinar o ouvido para um coador de café? Não tenho certeza do que é. Ainda é um mistério para mim. 

E: Muito obrigado por se juntar a nós nesta maravilhosa jornada de escuta!

Foto: Santiago Felipe.

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