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A importância das entrevistas no trabalho de Björk

Björk: Dei tantas entrevistas. Todos os dias! Muitas. Era insano! Nunca me arrependi, porque fazer isso por 18 meses, estar em capas de revistas em todos os lugares... Isso também me deu muitas coisas. Eu poderia conseguir melhores posições nos festivais, poderia conseguir mais dinheiro para contratar orquestras sinfônicas. Tudo isso me deu mais ferramentas para fazer minhas músicas.

Mas para mim, parecia uma fusão genuína com cada jornalista. Coloco o meu coração em cada um, porque essa é a única maneira de fazer as coisas, sabe? Mas, eu agia tipo: "Agora vou ser como os extrovertidos". Meio que sabendo que estava empurrando uma máquina introvertida ao limite, de alguma forma provando a mim mesma que poderia fazer isso! Para uma cantora introvertida, se testar é algo que está no cenário musical e em um tipo de terreno emocional.

Oddny Eir: E não dizendo "não" para as entrevistas, porque como você me disse, a sua avó era uma artista, mas ela não tinha voz. A sua mãe também. Como acontece com muitos artistas, homens e mulheres, especialmente se são "experimentais" ou algo assim, marginalizados de certa forma. Às vezes, eles não têm voz. Mas, em alguns casos, eles nem querem ter voz. Ou quando lhes é dada a oportunidade, se torna uma "qualidade" do "experimental" não responder a perguntas.

Então, talvez não fosse óbvio para você responder a todas aquelas perguntas sobre a Islândia, sobre os Alpes, sobre você, sua personalidade e assim por diante. Deve ter sido quase como uma decisão política, apenas para dizer "sim" e usar a sua voz. Publicamente, também como uma artista mulher, sem toda vez ficar pensando: "Isso foi péssimo? Eu falei demais?".

Björk: Sim, sim, definitivamente! Também acho que, talvez, fazer parte de bandas por 10 anos, do selo Bad Taste e toda aquela coisa de ser anti-qualquer coisa que fosse corporativa ou comercial; e todas as ofertas de entrevistas que recebemos na Islândia... Nós sempre dissemos "não". Apenas fizemos nossas próprias coisas do nosso jeito, sabe? Sempre foi muito estar "contra a máquina". Eu era a mais jovem, observando todas essas pessoas mais velhas do que eu. E eles estavam dizendo "não" para tudo, para um monte de coisas!

E eu pensei: "Sim, é incrível fazer isso". Realmente é algo que honro, é uma coisa linda, linda. Mas eu também estava me questionando: "Talvez se você disser "não" para tudo, vai estar se isolando em um canto? Você estará presa nesse seu "não" para o resto do mundo?”. Tive que me esforçar e quase provar que podemos ser genuínos. Que poderia dar uma entrevista na estação de rádio comercial mais corporativa do mundo, mas ainda assim fazer isso com muito, muito significado.

Oddny Eir: Depois disso, você foi criticada por ser um pouco positiva demais, por não ser "crítica o suficiente" naquela época. Ou foi essa a sua crítica?

Björk: Havia garotas, as chamadas "Millennials", nascidas nos anos 80, basicamente que meio que diziam: "Você poderia, por favor, parar de fingir que é tão fácil para você", sabe? E eu pensava que era tão interessante [ouvir isso delas]. E eu ficava tipo...

Oddny Eir: Tipo: "O que foi fácil? A carreira, gostar de ser musicista, ser uma mulher nisso"….

Björk: Sim. O que quero dizer, é que tive muitos momentos em que fui a um estúdio de gravação e, quando voltei à minha gravadora, o engenheiro que contratei naquele dia havia sido creditado como o produtor da música.

Oddny Eir: Sim, sim, sim.

Björk: E isso porque ele era o único homem ali! E até mesmo pessoas como o meu empresário, que me conhece, sabe?

Oddny Eir: Então, você não estava abertamente reclamando ou criticando isso publicamente, naquela época, mas você usou a possibilidade de falar sobre outras coisas, certo? Você só começou a criticar isso [diretamente] mais tarde, analisando e apontando que tinha sido uma luta para você dizer: "Não. Fui eu. Eu sou a autora, não esse cara que me ajudou por 15 minutos!".

Björk: Eu acho que, obviamente, os Millennials, eles não estavam por perto nos anos 90, então eles não me ouviram fazer 1.000 entrevistas, sabe? Então, eu tive essa oportunidade e esse espaço aberto e pensei: "Ok, vamos apenas fazer música, enquanto estou aqui.E pensava que isso seria mais um progresso do que ser crítica: "Este não é o momento de ser crítica. Talvez daqui a cinco anos, mas não agora!". Naquela época, eu apenas decidi ir em frente. E estou muito feliz por ter feito isso. Para ser honesta, não foi realmente algo muito pensado. Tudo aconteceu tão rápido!

Oddny Eir: Sim, mas é isso que estou dizendo! Agora, talvez pareça óbvio, que você tinha essa possibilidade, que você disse "sim" e fez todas aquelas entrevistas, sabe? E depois, talvez seja fácil criticá-las por aquilo que você estava ou não dizendo, mas de alguma forma essa é a ironia dos tempos.

Quando estamos de algum jeito tentando ser críticos, é tão importante entender que só o fato de agarrar a possibilidade de falar e dizer "sim" para uma entrevista... Talvez isso por si só, já era algo radical! Mas talvez agora seja tão óbvio que nem consideramos como um ato político, algo radical, como uma posição ou algo importante. Você demonstrou vulnerabilidade, mas também força e coragem, que eram coisas necessárias para as mulheres naquela época.

- Entrevista para o podcast "Sonic Symbolism", 2022.


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