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A diferença entre a Björk da vida real e a da capa dos discos


- Você escolheu um título muito sugestivo para o seu novo álbum. Como é a utopia com a qual você sonha?

Não vou negar que esta ansiosa busca pela utopia no ser humano me causa uma grande curiosidade. Estou interessada em como a definiremos, como gostaríamos de ser e que coisas tentaremos para torná-la realidade. Então, eu me pergunto: "Estaríamos dispostos a ter apenas uma "meia utopia" desde que se tornasse real ou esperaremos que ela venha por completo?". Possivelmente, o que mais me chama atenção é a diferença entre os dois aspectos: o sonho e a realidade. A diferença entre os dois é o que nos faz o que somos como uma espécie, o que nos torna humanos. Então, o álbum é sobre esse desejo constantes, embora também tenha uma leitura mais pragmática.

- Temos muitas referências ao ambiente natural neste álbum: as flautas competindo com autênticas canções de pássaros. Podemos concluir que você é uma outra espécie de pássaro exótico?

[Risos] Obrigada pelo elogio! Neste álbum, fiquei ainda mais consciente quanto ao som das músicas, da atmosfera, e em torná-lo mais etéreo. O "Vulnicura" teve um peso muito grande. Agora eu estava desesperada para preencher tudo com leveza e humor... Eu queria fazer melodias que tivessem a estrutura de uma constelação no céu. Eu queria provar que esse lugar, essa utopia, existe.


- Há algo também muito místico neste álbum, mais do que no anterior, com músicas como "Blissing Me" e "The Gate". Como esse misticismo se concentra em sua vida? É um sentimento pagão ou religioso?


Hmmm... Eu não estava completamente consciente disso, mas agora que você mencionou, acho que neste álbum eu me deixei curar ou fiz minha alma crescer de alguma forma. Não quis fazê-lo por pura vontade ou disciplina. É por isso que agora acho que tenha mesmo algo místico sobre isso. Ou não é místico acreditar que existe algo mais forte do que você, que guia e cuida de você?

- Na sua música, sempre houve uma comunhão entre o lado eletrônico e ecos de canções populares antigas, da tradição da sua terra natal. Isso é algo que você sempre teve em mente, essa mistura entre o passado e o futuro?

Como cantora, mas também como alguém que tem trabalhado em melodias desde a infância, entendo que existe uma espécie de "arquitetura antiga" por trás de uma boa harmonia, algo que sempre esteve lá. Meus drivers de pesquisa de músicas estão permanentemente ativados. A música é algo tão simples, mas tão profundamente gravada nesse DNA intemporal dos humanos! Penso que, quando o seu principal instrumento é a voz, você aprende rapidamente sobre todas as suas fraquezas e pontos fortes. Por outro lado, sempre gostei da liberdade de escrever com a ajuda de computadores, de usar instrumentos eletrônicos. Dessa forma, você não está vinculado apenas pela história ou pelo alcance da sua voz. Para mim, a tecnologia é como o artesanato, o meu tempo e a fantasia. Ela alimenta mais energia mental do que a física. A mente imagina o impossível, e o que é realmente importante para mim é que tudo esteja cercado por arranjos, flautas ou cordas. E vozes! Eu acho que sim, mantenho um equilíbrio entre o que sonho e o real.

- A capa do disco corresponde a essa dicotomia? Ela novamente mostra seu interesse em propostas estéticas extremas e é retratada como se fosse produto de uma metamorfose corporal, ou como se tivesse se misturado com outros seres, não necessariamente terrestres. O que é mais divertido em vê-la assim?

Eu acho que o que me leva a criar essas imagens é entender que as músicas que compus nos últimos dois anos meio que tem algo em comum. Eu tento colocá-las todas juntas em uma única imagem. E não, não é só sobre mim. Talvez, para ser mais precisa, seja sobre a pessoa com quem eu estava naquele momento, enquanto eu estava escrevendo as músicas. A única maneira de capturar tudo isso de forma precisa e visual é tentar reconhecer o lado mais representativo do todo e corrigi-lo inventando esse arquétipo. Imagino isso quase como uma carta de tarô, com toda essa simbologia diferente resumida em uma única imagem. Isso me leva a pensar sobre as texturas, as cores, a escala, a emoção, no cabelo, na maquiagem, mas também nos símbolos e ao que eles se referem. Além de como eles se fundem emocionalmente quando aparecem todos juntos na imagem final. Porque na maioria das vezes eu não acho que aquilo seja realmente eu. Não é mais do que um mero documento que testemunha o tempo em que aquilo foi feito, a expressão visual de toda a energia das pessoas envolvidas para fazê-lo, de todas as risadas que demos, e o sofrimento e o estresse em terminá-lo. No geral, posso usar uma foto real minha, o passaporte, por exemplo, em uma outra situação, mas para mim está muito claro que as capas dos meus discos devem ser usadas para algo muito diferente.

- Que tipo de provocação você mais gosta? Que tipo de pessoas você gosta de provocar?

Não gosto de provocar! Meu objetivo é mais tentar achar a pura essência em tudo no que trabalho. Eu gosto de água gelada, comida picante, chocolate, de dançar durante horas em uma boate, tempestades de neve e neve em um oceano quente. Eu entendo que eu gosto de cada um desses elementos em sua forma mais extrema para me sentir viva, mas não faço nada para surpreender ninguém, nem para provocar. Para mim é mais como ... um alívio, um choque!

- "Utopia" foi lançado 40 anos depois do seu álbum de estreia, que saiu quando você tinha apenas 11 anos de idade. Ainda existe alguma coisa daquela garota?

Quando esse álbum foi colocado à venda, fiquei envergonhada porque só uma das músicas era realmente minha. Não houve harmonia entre o que o álbum representava e a pessoa que cantava aquelas canções. Agora eu tenho esse equilíbrio de forma muito melhor. Definitivamente, eu ainda sinto o mesmo mistério quando começo a gravar novas canções, principalmente quando estou imersa no processo de composição. Ainda tenho a sensação de que a melhor música do mundo ainda não foi escrita e mantenho esse entusiasmo para tentar resolver o enigma. Esse sentimento diante de amplas possibilidades não mudou.

- Em uma das músicas do novo álbum, você diz estar "apaixonada pelo amor". Em outro trecho fala de amor como algo que necessariamente flui de uma maneira dupla: de mim para você e vice-versa. É assim que você propõe seus relacionamentos sentimentais?

Eu acho que o amor, acima de tudo, é uma sinergia que compartilhamos, como uma lei física. E mesmo com cada pessoa pela qual nos apaixonamos, temos que reinventá-lo à medida que as coisas avançam. Não existe receita!

- "Tabula Rasa" pede por essa atitude, começar do zero, "para os nossos filhos".

"Tabula Rasa" significa ter uma página em branco e limpa, e acho que é isso que nossos filhos merecem de nós. Embora eu saiba que nunca será assim: os pais sempre colocam sua marca em seus filhos, mas estou convencida de que é importante tentar limpar a nossa influência tanto quanto possível e tentar deixá-los com uma bagagem mínima.

- Como mãe de uma adolescente, o que mais te preocupa com o futuro? Você dá algum tipo de conselho?

Não gosto de fazer pregação para ela. Nós pais somos criaturas complicadas: estamos todo tempo nos esforçando para fazer o bem, quando o melhor exemplo que podemos dar às crianças é a forma como vivemos nossas vidas. As lições que aprendi com meus pais não foi o que eles me contaram, mas sim sua persistência e força nos tempos difíceis.

- Com tudo o que aconteceu recentemente em Hollywood, incluindo as suas alegações de abuso sexual, você acha que estamos testemunhando um momento em que a mudança finalmente acontecerá?

Eu gostaria de continuar conversando sobre música. Mas sim, espero que isso envolva uma mudança radical e dramática. Eu realmente quero acreditar nisso.

- Mas coisas semelhantes a isso acontecem no mundo da música?

Nunca experimentei nada assim no mundo da música no meu país. Eu pensei que poderia oferecer a todas essas mulheres uma comparação positiva. Eu compartilhei minha história porque eu sei como é quando se quer fazer o que preparou e lutou para acontecer, e não acabar sendo menosprezada ou degradada pela condição de mero objeto. Eu esperava encorajar a esperança, nada mais.

Björk em entrevista à revista 'Mujer Hoy', Janeiro de 2018.

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