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Cornucopia: Björk estreia show em Nova Iorque


No ano passado, Björk viajou pela Europa promovendo Utopia, seu mais recente disco de estúdio. Na noite desta segunda-feira, 6 de maio, ela expandiu o conceito do álbum em uma emocionante e impressionante ilustração audiovisual.

Cornucopia estreou em Nova Iorque, como uma residência de oito shows no centro cultural The Shed, com ingressos esgotados. O espetáculo será transformado em uma turnê mundial nos próximos meses. As primeiras apresentações serão no México nos dias 17, 20 e 23 de agosto, no Parque Bicentenario.

A superprodução com direção de Lucrecia Martel, trouxe surpresas! No setlist, como já esperado, 12 das 14 canções do álbum lançado em 2017 (incluindo as primeiras performances de Body Memory Future Forever), além de algumas faixas não tocadas há muitos anos! Definitivamente, a performance mais elaborada da carreira da artista, como ela mesma já havia prometido. 

Cornucopia teve início com um pré-show do Hamrahlid Choir, coral de 50 pessoas do álbum Utopia, que também faz parte da equipe de músicos do espetáculo. Eles cantaram duas músicas tradicionais Ísland, farsælda frón; Maríukvæði; além de Vísur vatnsenda-rósu, Sonnets/Unrealities XI Cosmogony.


Horas antes do início das apresentações, a cantora publicou nas redes sociais informações sobre a aquisição de uma importante ferramenta para seu trabalho, que proporcionará outras formas de imersão com o público. Se trata de uma cabine de reverb, que é tanto um 'santuário' quanto um instrumento.

Criada em parceria com o Arup Group e a equipe criativa da cantora, o aparelho está localizado à direita do palco e materializa, de acordo com a islandesa, a sensação que ela tem na maioria das vezes em que aquece a própria voz: Sentir como se dentro do crânio de cada indivíduo existisse uma espécie de capela pessoal. Pensando nisso, a cabine amplia o alcance de seus vocais, deixando o mais puro possível, diferente do que faz apenas o microfone.

Björk queria que a acústica estivesse em primeiro lugar na construção da cabine, mas que também não interferisse na visão do público, nem fosse tão pesada, para que pudesse ter longa durabilidade e fácil locomoção em um ambiente de turnê. A artista teve como inspiração pequenas capelas medievais, e a escultura sonora Tvisöngur, que fica na Islândia. Ao longo dos últimos meses, ela avaliou cada etapa da produção para alcançar o som que buscava. Tudo feito com muita antecedência, para que ela experimentasse e se sentisse confortável antes de começar a se apresentar com Cornucopia.

Foto: Santiago Felipe

Detalhes:

Uma espécie de "cortina" exibe projeções durante todo o show, incluindo algumas inéditas para Arisen My SensesTabula Rasa (que virou videoclipe) e Losss, que dão ao público a sensação de estar no palco com a cantora. Björk trocou de roupa duas vezes. Os figurinos dela foram assinados, respectivamente, por Olivier Rousteing Iris Van HerperShow Me Forgiveness e Claimstaker foram interpretadas dentro da cabine de reverbHidden Place em acapellaPagan Poetry reduzida e re-imaginada em uma transição com Losss (que ela classifica como sendo uma continuação do clássico), enquanto Venus as a Boy em um solo de flauta. Em Body Memory, a islandesa cantou cercada por uma flauta circular tocada por quatro pessoas. Antes do fim da apresentação, uma mensagem de Greta Thunberg, ativista ambiental sueca de apenas 16 anos, foi exibida como um interlude.



Setlist:

01. Family (Intro)
02. The Gate
03. Utopia
04. Arisen My Senses
05. Show Me Forgiveness
06. Venus As A Boy
07. Claimstaker
08. Isobel
09. Blissing Me (com a participação de serpentwithfeet)
10. Body Memory
11. Hidden Place
12. Mouth's Cradle
13. Features Creatures
14. Courtship
15. Pagan Poetry
16. Losss
17. Sue Me
18. Tabula Rasa
19. Future Forever
20. Notget

Foto: Santiago Felipe

Classificar o novo show de Björk como deslumbrante parece até eufemismo. A cantora continua a se entregar no palco na criação de um ambiente que une natureza e tecnologia. Como já discutido em muitas entrevistas ao longo da carreira, seu interesse vai além do teatral. Ela está defendendo sua música.

Confira fotos e vídeos do show AQUI e faça o download do áudio completo da apresentação clicando AQUI. Assista aos episódios legendados da Websérie Björk AQUI.


Saiba mais:

Textão: Falando em Utopia... 

AnOther Magazine pediu que Björk escolhesse livros que a inspiram. Os textos estão disponíveis no site da revista. A edição traz ainda uma troca de e-mails entre ela e Maggie Nelson, uma de suas escritoras favoritas, acompanhados por ilustrações de Wanda Orme. A conversa das duas artistas resultou em uma bela troca de ideias. Confira a tradução abaixo.

Björk: "Querida Maggie, não sei exatamente como começar isso, mas vamos mergulhar no desconhecido. Não consigo dizer o suficiente o quanto me sinto honrada por você poder ter tempo para trocar esses e-mails comigo. Adoro todos os seus livros, eles me salvaram. Foi uma coisa tão imaculada quando os descobri! Sua voz é tão incrivelmente necessária para tantas pessoas. Tenho vivido por alguns meses durante os últimos 18 anos em Nova Iorque, e precisava dessa conversa! Primeiramente morei em Hudson, depois no Brooklyn e na complexa Manhattan. Por diversas vezes, achei complicado encontrar uma maneira de prosperar após os ataques de 11 de setembro, tiroteios em escolas e a eleição de Trump. Espero que você não se importe se falarmos um pouco sobre o seu livro "A arte da crueldade", que de forma heroica reuniu os momentos de violência na arte dos últimos dois séculos. Preciso lhe parabenizar, é uma façanha e tão informativo! Inclusive, alguém deveria fazer uma série de TV baseada nessa obra! O que acho tão libertador nela é que fala abertamente sobre esses assuntos, discutindo os impulsos, a selvageria e a crueldade, mas também se permitindo a defender a vida e a justiça quando necessárias. E assim, surpreendentemente me encontrei concordando com você quase todas as vezes! Algo tão familiar quanto o sentimento curioso que muitos de nós temos depois de assistirmos a um filme sobre determinado assunto, quando assimilando aquilo nosso cérebro diz uma coisa e o coração outra. Devo dizer que sua visão realmente me deu fé para acreditar que ainda é possível confiarmos no nosso instinto.

Tudo bem se eu fizer várias perguntas ou devemos tornar isso aqui mais como um bate-papo? Ou quem sabe um pouco das duas coisas!? Esse livro foi uma tentativa consciente de construir uma ponte entre o liberal inteligente dos Estados Unidos e o feminismo, para se fazer algum tipo de controle de danos em resposta a misoginia inata do conservadorismo? Como um álibi para essas pessoas? Suspeito que assim como eu, muitas outras mulheres também se espelharam no seu livro, principalmente quando me vi como se estivesse desenvolvendo um filme, com um lado ruim da humanidade em um vocabulário que me faltam palavras. Me pergunto se tenho sido culpada por causa da vaidade na forma como tento derrubar o niilismo. Você também se sente assim? Ter orgulho de absorver esse lado negativo para depois derrubá-lo? Se sim, seria algum tipo de alquimia?

Hahaha, sim, milhões de perguntas, me desculpe! Outro dia, um amigo meu sentiu que me elogiou ao dizer que quando se trata de relações e amizades, sou capaz de "hospedar" sentimentos hostis em mim, que seriam inviáveis para outras pessoas. E isso me fez pensar: Será que quero mesmo ser assim ou não? É um terreno difícil. Enfim, provavelmente sou a única que sabe as respostas para estas perguntas. Você se identifica?

Adoro uma de suas frases, que evidencia como você nunca polariza, mas une as coisas: “O objetivo da arte é mostrar às pessoas que vale a pena viver e que as coisas não são totalmente Fanny Howe (famosa romancista) (...) Existem tantas coisas a serem negadas na preocupação com o desenvolvimento da comunidade humana e o bem-estar das próximas gerações, no clássico pensamento estrutural psicanalítico".

Isso pode ser assunto chato, mas acredito que em uma conversa entre nós duas logo após eu ler seu livro sobre a crueldade na arte é  inevitável mencionar minha colaboração com Lars Von Trier (me desculpe, você está provavelmente bocejando agora). Quando li a frase acima pensei no quanto me recusei a ser uma vítima das atitudes dele. Ainda me lembro dele dizendo algo desse tipo. Ele ficou surpreso por eu não o querer, e quis me destruir completamente. Mas então, passei por uma espécie de renascimento transformadora. No cenário do mundo que vivemos atualmente teria sido mais fácil, mas todas as células do meu corpo gritaram que eu não queria repetir a mitologia de Joana D'Arc nem de Maria Callas. Não era como se eu tivesse medo ou não conseguisse, mas era como se todo o trabalho da geração de feministas da minha mãe tivesse sido em vão se eu repetisse esses contos. Para mim, seria chato e previsível.

Você também escreveu o seguinte: (...) "Para um homem e para uma mulher, a perda da mãe é o primeiro passo em um longo caminho para se tornar um ser autônomo". Maggie, eu tenho desejado tantas outras narrativas para nós (humanos). (Toda essa situação) seria apenas preguiça ou falta de imaginação? 

Quando li a sua obra-prima "Os Argonautas", me vi radiante de esperança. Poderíamos também discutir isso? Para onde estamos indo agora? Você fala de uma forma tão corajosa sobre formar famílias do futuro, sem se limitar a gêneros e a fronteiras. Uma das coisas mais românticas que li na vida até hoje. Podemos, por favor, dar continuidade? Talvez, eu possa oferecer alguma sugestão presente na relação dos islandeses com a natureza. Isso te interessaria?

Às vezes, sinto que essa narrativa da civilização ocidental está lentamente afundando como o Titanic, ao descer em slow-motion até o século passado, ao se mostrar tão unilateral, cheia de si, de autopiedade e vaidade. De certa forma, me parece tão narcisista! Talvez, haja mais otimismo em países de segundo mundo como os da América do Sul e do Sudeste Asiático (...)

Por exemplo, eu percebi isso em outras leituras como uma da Tasmânia, em como a literatura gótica de lá difere da visão da Europa. Nada muito urbano, mas com a presença da natureza. Sei lá, essas coisas me parecem algo tão familiar! Você já se deparou com a narrativa dos apocalípticos? Li sobre isso em um livro sobre a pintora galesa Ithell Colquhoun. Fala sobre a mistura de espécies, cujo o ponto de partida é a crença na integridade do homem, e sua harmonia com o lugar em que vive (...), rejeitando a centralização, o autoritarismo, dentre outras tendências desumanas da sociedade moderna (....)

Enfim, sinto muito pelo meu início desajeitado nessa conversa, e se você quiser oferecer outros assuntos, estou dentro! Considere isto simplesmente como uma sugestão de onde começarmos nosso bate-papo".


Maggie: "Querida Björk, primeiramente, quero dizer que a honra desta conversa é toda minha. Se alguém tivesse me contado, quando eu tinha 13 anos e escutava Kukl, que um dia eu estaria conversando com você, ou que um dia eu escreveria livros com os quais você leria e se importaria, eu nunca, NUNCA teria acreditado! E, no entanto, aqui estamos nós. Me basta dizer o quanto me é tão significativo que você tenha pensado em mim para essa conversa. Obrigada!

Estou tão feliz que você tenha gostado de "A arte da Crueldade" e queira falar sobre isso. Uma das melhores coisas sobre as pessoas lendo "Os Argonautas" é que sua visibilidade voltou a despertar interesse em meus livros anteriores, como o livro da crueldade, que de outra forma não viajava tão longe quanto eu esperava na época. É muito engraçado o que você diz sobre querer assistir a um programa de TV baseado no livro, eu tenho uma amiga curadora que me disse outro dia que está pensando em criar uma exposição baseada nele, o que parece ser uma ideia totalmente empolgante e desafiadora. Como grande parte do trabalho em questão me parece melhor experimentado em doses menores, posso ver facilmente como colocar tudo isso em um só lugar pode sobrecarregar ou paralisar a capacidade crítica ou perceptual. MAS, dada a importância que as noções de violência e escuridão e o choque e a crueldade têm se mostrado na arte (para sempre, é claro, mas no âmbito do meu livro, nos últimos 100 anos ou mais), vejo que um programa também poderia valer a pena. Enfim, veremos!

Sua leitura do livro parece absolutamente certa para mim - na verdade, estranhamente, o que talvez não deva ser uma surpresa, mas certamente é também uma satisfação. Especialmente seus comentários sobre o livro ser um álibi a essas pessoas, e no trecho em que diz: "Principalmente quando me vi como se estivesse desenvolvendo um filme, com um lado ruim da humanidade em um vocabulário que me faltam palavras".

Talvez como também tenha acontecido com você, iniciei minha "vida intelectual" e artística um tanto quanto encantada pelos estilos literários "Bad Boys", provavelmente por terem sido vendidos para mim como representando a própria transgressão. À medida que cresci em uma sensibilidade feminista mais aberta, fiquei fascinada por que essas formas de crueldade se mostraram e pareciam merecer ou até mesmo aumentar minha curiosidade, o que me fazia pensar: Foda-se, estou fora! Sim, esse livro é como um exercício feminista, mas decidi desde cedo que ele não se anunciaria ou se estruturaria como tal, pelo contrário, ele entraria nessa perspectiva junto com todo o resto (....)

Fico feliz que você diga que seus instintos frequentemente se alinham com os meus ao ler o livro! E se trata justamente disso, do instinto, das respostas viscerais, questionando o que elas significam e o que fazer com elas. Acho que uma coisa que você já percebeu ao longo do tempo ao observar a arte, e ler produções de certos escritores, é que só estamos dispostos a seguir em frente com aqueles que tem muito a ver com o que confiamos com base na sensibilidade. Muitas vezes essa confiança tem algo a ver com gênero, mesmo que não completamente.

Talvez eu esteja dizendo tudo isso para voltar à questão de Von Trier, o que é totalmente fascinante para mim, mesmo porque falar diretamente com você sobre isso me dá um sentimento profundo de um ciclo que finalmente se encerra. Porque acho muito provável que minha experiência ao assistir "Dançando no Escuro" tenha plantado as sementes para todo o projeto "A Arte da Crueldade". Não sei se você conhece um livro meu chamado The Red Parts, de 2007, que escrevi antes desse, que tem a ver com o assassinato de 1969 da irmã de minha mãe Jane, e conta a história da nossa experiência ao assistir ao julgamento de um novo suspeito em 2005 (ele foi de fato condenado, 36 anos depois do crime). Nele, tem o seguinte parágrafo em que relato o momento que esperávamos o veredito: 

“Além da mente de assassino, a pior coisa que posso imaginar é caminhar até a própria execução. Filmes que contêm essas cenas me incomodam mais do que todos os outros tipos de violência juntos retratados nas telas. Depois de assistir a ultima cena de "Dançando no Escuro", eu literalmente não conseguia sair do cinema. Isso tem algo a ver com minha profunda oposição moral e política à pena de morte, mas claramente vai além disso. Eu simplesmente não suporto a ideia de caminhar em direção à morte, sabendo que é possível não estar pronto para isso. Talvez seja outra maneira de dizer que não sei lidar com a condição humana. A vida é como entrar em um barco que está prestes a navegar para o mar e afundar, dizem os budistas. E assim é. Os budistas tibetanos falam sobre a morte como um momento de "oportunidade potente", mas você tem que praticar para saber o que fazer com ela. Você tem que praticar para que, mesmo se, por exemplo, você fosse baleado na cabeça ou se, digamos, seu coração explodisse no meio da noite, estaria instantaneamente pronto para seguir em frente. Eu sei que não estou pronta e que estou com medo de não aprender a tempo. Como posso aprender se não estou nem tentando?".

Como eu disse no trecho acima, fiquei paralisada no teatro a ponto de não poder mexer minhas próprias pernas. Mas, não foi apenas devido ao filme ou só às preocupações em si com a mortalidade, como descrito acima. Também tinha a ver com o fato de ter sido uma grande fã sua por toda a minha vida, desde os meus 13 anos. E tantos anos depois, sozinha assistindo a tudo isso em um cinema em Nova York e sentindo o que o diretor pretendia, como você disse, ao querer te destruir completamente, me deixou doente de alma, enojada e com raiva. De alguma forma, esse assunto me fez ter interesse em analisar quando e como eu acho que o choque e a crueldade parecem valer a pena, e quando se sente que não há saída. Assim, a arte da crueldade.

No que diz respeito a "Ter orgulho de absorver o lado negativo para depois derrubá-lo", acho que essa foi uma preocupação permanente minha por muitos e muitos anos. Isso refletiu no tipo de publicação de três dos meus livros sobre violência, (...) em certa medida, envolvendo relações de gênero mais amplamente. Eu meio que queria mostrar que (...) sou forte o suficiente para enfrentar os efeitos da violência sexual em vez de me deixar intimidar.

Mas, é claro, existem coisas que enfrentamos quando lidamos com confrontos e injustiças, como o fato de alguém poder suportar aquilo que é insuportável. Isso pode ser por estar à procura de alguém para se espelhar, se identificar ou apenas pela boa companhia de indivíduos que parecem nos entender. Os seres humanos, por natureza, não possuem um lado negativo, nem promovem a destruição ou a autodestruição. Acredito que é difícil, que nós mulheres saibamos que parte dessa nossa "escuridão" é também porque somos parte disso, em um mundo doente até a morte com as forças destrutivas da misoginia e da agressão masculina. 

Eu acho que eu costumava pensar que eu poderia ser capaz de descobrir isso, desvendar o nó; Agora estou mais inclinada a pensar que estamos todos tão contaminados um com o outro, que é uma tarefa idiota tentar misturá-los. Mas, no entanto, às vezes, isso não é uma tarefa tola, e coisas simples ainda precisam ser ditas. (Você disse algumas delas para a Pitchfork há alguns anos atrás, o que foi ótimo).

De qualquer forma, estou muito feliz por você ter tido os instintos que teve em relação a Von Trier e que os honrou. Claro que você não estava com medo, você só sabia como agir melhor naquele momento! Então, quando você pergunta sobre a noção de suportar algo hostil, obviamente a resposta é SIM. Provavelmente eu pensei, como você disse, que envolvia vaidade, e que esse era o meu trabalho precisamente por algum tempo, tanto emocional quanto artisticamente. Tenho menos certeza de que já tive tanta propensão alquímica quanto aparento. Me parece que você provavelmente tem mais habilidades transformadoras, mais capacidade alquímica do que jamais consegui. Muitas vezes, sinto que tudo o que tenho a oferecer é uma certa re-renderização do hostil com mais clareza. Talvez a clareza tenha sua própria versão da alquimia, não tenho certeza. Mas aqui é onde as palavras parecem insignificantes diante da música e do som - você pode criar paisagens sonoras inteiras que adicionam textura infinita a frases simples, enquanto eu fico apenas com frases simples. Minha tarefa é descobrir como obter palavras para serem mais do que suas partes. Eu ainda não sei como fazer isso, ou como TENTAR fazer isso. Eu só sei que é preciso.

Às vezes, essa clareza se transforma em algo lírico ou bonito, mas, enquanto estou escrevendo, descubro que tenho que desistir disso e viver com o que sinto como palavras, frases e até ideias irrelevantes. Costumo me sentir muito, muito estúpida enquanto estou escrevendo, como se o que estou dizendo seja óbvio para todos no mundo, menos eu. É por isso que eu amo Wittgenstein e outros que reiteram que pensar e falar frequentemente significa sentir ou parecer totalmente estúpido, até mesmo ao ponto da insanidade (...) Ou seja, girar o conceito em um monte de luzes diferentes, para ver quais tons e ângulos podem ser encontrados, me parece totalmente possível para que eu ainda esteja tentando fazer o trabalho de alquimia, neste caso em torno de PRECISAMENTE as questões que você nomeia: esperança, natureza e não ceder ao espetáculo narcisista do mergulho do Titanic.

(...) Eu realmente gosto da ideia da teoria de levar alguém em uma jornada, na qual essencialmente precisa haver disposição para sentir todo tipo de ressentimento. Aguentando aquilo que seria possível, pesando pela espécie humana. (...) Acho que estamos vivendo os grande efeitos da escala da morte da "mãe terra", com toda essa individuação e dominância atingindo sua apoteose em uma loucura suicida".

E, ainda assim, você está absolutamente certa, essa narrativa é tão chata, mesmo que de certa forma seja uma leitura precisa do que está acontecendo. Então, eu acho que o que estou tentando fazer nos dias de hoje na minha vida de escritora, é tentar descobrir o espaço afetivo para algo diferente, não um amontoado de argumentos. E realmente não sou muito boa em fazê-los (...) acho que porque gosto muito de mudar. Penso muito sobre:  Como formar palavras individuais que somem algo muito maior através de seus significados? Como propor mudanças afetivas que criem novos mundos, novas formas de ser ou coexistir?

Eu me importo muito com isso. Mas eu não quero sugerir que o critério para arte interessante deveria se: Será que isso torna o mundo um lugar melhor? Eu nunca fui literal assim. Não é como eu acho que a arte funciona. Ao mesmo tempo, acho que meu problema com Von Trier ou com qualquer outra pessoa cujo trabalho parece estar atingindo um propósito sem sentido, é que isso não está fazendo coisas novas parecerem possíveis. Porque quando algo realmente se redistribui a partir de um lado sensível, então a preguiça, a falta de imaginação, que você legitimamente reclama, começa a se desintegrar. Um espaço se torna limpo; um novo som começa a crescer. Seu trabalho sempre fez isso, e é em parte por isso que é tão importante para mim e para muitos outros.

Obrigada por dedicar seu tempo para conversar comigo".

Björk: "Eu reli "O Argonauta" novamente, e entendo totalmente porque tantas pessoas fazem o mesmo. O texto é tão perfeitamente editado, simplificado, destilado e condensado, que cada vez o vemos de forma diferente, parece um livro novo todas as vezes. Adoro o que você disse sobre ser minimalista no sentido de não se vê como uma filósofa, na medida de que seu objetivo não é redescobrir o eterno ou o universal, mas encontrar condições para que algo novo seja produzido. Você menciona isso como a fonte de criatividade, e é algo que eu concordo TANTO. Você não tem ideia do quanto! 

Mas preciso discordar em outro ponto, as palavras, assim como a música, certamente alcançam partes onde nada mais chega nem perto. E talvez a minha alegria absoluta em ler seus livros venha dessa sua recusa em afirmar o óbvio e fazer rodeios para dizer algo.

Fiquei muito lisonjeada como você escreveu sobre mim, e talvez de certa forma eu até mereça esses elogios, mas tenho que enfatizar que, tento várias vezes, e na maioria delas eu falho. Nas minhas músicas, tento oferecer algum tipo de alívio ou soluções para esses conflitos. Involuntariamente dando a entender que surgem como se eu estivesse sempre tendo um dia incrível. Mas a verdade é que só componho esporadicamente, algo como: uma canção por mês ou até mais demorado que isso. E nesse meio tempo, alguma clareza me aparece! E provavelmente, fico parecendo uma "sabe tudo", o que não é verdade. Me desculpe por isso.

Espero não estar invadindo e banalizando sua jornada ao compará-la com meu "Vulnicura"/"Utopia". A maneira como foi do desgosto a decepção, e dela ao renascimento e ao otimismo me ofereceram um novo manifesto pessoal (...) E aqui eu cito você de novo: "Você quer estar certo ou se conectar?". Como você tão magnificamente faz recusando a polaridade, mostrando que a paz pode ser encontrada na união.

Ainda não li o livro que você falou e, na verdade, não sabia que tinha mencionado "Dançando no Escuro" nele. Então estou aliviada em ouvir você dizer isso, pois desencadeou algumas coisas boas. Eu acho que o maior sofrimento que eu senti durante o processo foi talvez saber que, tanto eu iria me recuperar como pessoa e ficar bem em alguns meses, quanto a destruição real era mais simbólica: ele humilhou e castigou uma mulher perante ao público. Se trata de um homem dinamarquês querendo forçar uma mulher islandesa a estar aos seus pés. Isso é um pouco chato, mas como você provavelmente sabe, a Islândia foi colônia da Dinamarca por 600 anos. Só recentemente nos tornamos independentes. De alguma forma, tenho a impressão de que marquei um ponto para o time oposto! Por mais que eu não tenha entendido na época o que aconteceu (a coisa toda parecia tão embrulhada, uma força de impulsão velada no mistério), ainda assim me senti confiante de que mesmo que eu tenha perdido uma batalha, ganhei algum tipo de guerra. E que grande e inexplicável guerra foi essa, Maggie!

Naquele momento, eu disse em algum lugar que, se o diretor não fornece alma para seus filmes e está consciente disso, acha que precisa de uma mulher para ajudar nesse aspecto. O que o faz odiá-la e sentir inveja. Então dessa forma, tenta destruí-la durante as filmagens e esconder as evidências. O curioso é que em um de seus últimos filmes, o protagonista seja um homem que aparentemente o representa. Então eu acho que tem havido alguma evolução ali… de alguma forma, ele reconhece isso?

Mas já chega de guerras antigas! Estou tão incrivelmente animada com o seu novo livro sobre a liberdade. Meu amigo Alejandro (Arca) me deu de presente no notal uma cópia de "O medo à liberdade", do Erich Fromm, e que assunto vital hoje em dia! Já comecei a ler, e lá vai ele escrevendo em 1941 na página dois: “Outra ilusão comum, talvez a mais perigosa de todas, é a de que homens como Hitler tenham ganhado poder sobre o vasto aparato do estado através do nada, mas baseados na astúcia e em truques, sendo a população objeto de traição e terror". Soa familiar, né? Os eleitores sabem o que eles estão fazendo. É a liberdade deles e eles não querem isso? Se querem, então essa é a parte assustadora.

Eu me encontro na minha vida profissional reinventando a liberdade e depois perdendo-a sem parar, hahahaha. Tento mudar meu ambiente de trabalho aleatoriamente para manter do meu jeito. Também sinto que meu principal campo de luta contra a liberdade habilmente acontece dentro do meu corpo. Acho que quando esse é o nosso principal instrumento, efeitos dramáticos podem acontecer (por causa da saúde), então caminho bastante, nado e ando de bicicleta

Você ia querer ser uma mosquinha para a ouvir a conversa de cantores quando se encontram. Os papos sobre nutrição e exercícios físicos atingem níveis intensos! Mas sou imensamente grata por isso. Carrego toda a minha disciplina e restrição, mas também toda a minha liberdade.

Mas isso provavelmente está ficando muito longo! Antes de encerrar, eu gostaria de agradecer a você por (sem saber) ter segurado a minha mão nos últimos anos (com os seus livros). Você é alguém que se atreve a pisar no futuro como ninguém faz, nenhum filósofo está fazendo o que você produz (se sim, me diga os nomes!). Talvez, no futuro, nós não precisemos deles como já fizemos no passado, mas de pessoas como você que escrevem de um ponto de vista humano, com responsabilidade emocional. 

Acabei de ler em algum lugar que a diferença entre alguém que tem ansiedade e alguém que é narcisista é simplesmente o nível de responsabilidade emocional. Aqueles com ansiedade têm muito, aqueles com narcisismo muito pouco (...) 

O caminho para derrubar tantos conflitos é provavelmente fazer algo semelhante a você: escrevendo livros, não com filosofia seca, mas agindo como se houvesse uma emergência, precisa ser funcional, pronto para aplicar, para a sua vida como agora, como um equipamento ao ar livre (...), e obviamente o mais importante: humor!

Ler tudo isso significa muito para mim, especialmente vindo de você. Obrigada, Maggie, isso me dá esperança.

- Com amor, Björk".



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