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Björk e Milton Nascimento - A Travessia para um grande encontro

Foto: Horácio Brandão/Midiorama (1998)

Poucas horas antes do show no Metropolitan, no Rio de Janeiro, em 20 de agosto de 1998 (saiba mais AQUI), Björk  conversou com a imprensa brasileira, e esteve junto de Milton Nascimento. Ela foi uma das atrações principais do festival Close-Up Planet:

Fotos: Site Rock em Geral (1998)

Ao jornal Extra, ela contou que é fã não só de Elis, mas também do Sepultura. Falando de Milton Nascimento, revelou: "Cheguei no sábado (acompanhada de uma amiga de infância) e fiquei bêbada com algumas pessoas ouvindo as músicas dele". Segundo a publicação, a cantora teria cogitado a ideia de ir a apresentação "Tambores de Minas" da lenda brasileira, no Canecão. Ela admitiu que do line-up do festival, só conhecia mesmo as atrações internacionais: "Tenho que dizer que sou ignorante em relação à música brasileira, e isso me envergonha". Também deixou claro que, como de costume, não incluiria nada do Sugarcubes no setlist: "São meus amigos, crescemos juntos. Não posso tocar uma música da banda sem eles". 

Sobre a pressão da fama, confidenciou: "Toda profissão tem seu lado engraçado. Na minha, isso significa ser famosa. Às vezes, não é algo do qual gosto". Para O Globo, Björk explicou a proposta de seu show da Homogenic Tour: "Procuro unir diferentes formas, não estou preocupada com um estilo só. Penso que isso é o que está matando a música. Na minha adolescência, tinha gente que ouvia, comia e vestia jazz; enquanto outros faziam isso com o punk. Já meus pais eram hippies, e só consumiam isso. Passei dez anos na escola de música fazendo todos aqueles exercícios, e me cansei da rigidez. Por isso, minha música não se prende a um único estilo. O antiestilo é a grande forma de estilo", explicou. Ela gosta de trabalhar com quem tem afinidade: "Mais do que técnica, temos que nos entender no palco". 

O jornalista da reportagem disse que durante a folga, a islandesa foi à praia no Posto 9 e a um bar na Zona Sul. Além disso, conheceu e adorou o bairro de Santa Teresa. Ao lado de sua banda, incluindo Mark Bell, visitou o Corcovado. Esses tipos de atividades do cotidiano de uma pessoa anônima, são algumas das coisas que a mantém sã: "Tudo depende de como sou tratada. Se me olham como um ser humano comum, o que eu sou, tudo bem. Quando começam a me tratar como uma instituição ambulante, prefiro voltar para o convívio dos amigos". Sobre Eumir Deodato, disse: "Ele me mostrou muita coisa de música brasileira, mas ainda quero conhecer mais. Os nomes que posso citar, Milton, Elis e Tom Jobim, talvez não sejam mais ouvidos pelos jovens aqui". Para a viagem ao Brasil, Björk trouxe seu professor de canto: "Sempre cantei por instinto, por natureza. Mas há três anos, perdi minha voz por usá-la de forma errada. Ron Anderson me ensinou alguns truques e exercícios, mas ainda há muito a aprender, por isso ele me acompanha nas turnês". 

Fotos: Márcia Foletto (1998) / Arquivo: Jean Azevêdo

A conexão com Milton Nascimento: O Globo acompanhou o encontro dos dois. O repórter disse que, apesar de ambos serem tímidos, o papo sobre música fez com que o gelo fosse quebrado e, assim, pareceram se entender como velhos amigos. Eles trocaram CDs com cópias de seus recentes álbuns. Björk conheceu o trabalho do brasileiro ouvindo "Travessia" na voz de Elis, e posteriormente na dele. Em 1994, já havia assistido a um dos shows do cantor e compositor, em Londres: "Gostei demais e acabei chorando. Isso sempre acontece quando ouço algo que me emociona", disse a artista. "Mas não faço show para ninguém chorar, eu quero é trazer alegria com a minha música", comentou Milton. "Só que eu sou a chorona clássica. É um choro positivo, de uma emoção boa", retrucou a islandesa.

Fotos: Site Rock em Geral (1998)

Milton lamentou não ter assistido ao show da Post Tour no Free Jazz Festival, pois estava em turnê na Europa. Björk respondeu: "Ainda bem, eu estava tão doente naquela época. Me apresentei ardendo em febre e não gostei, tanto que cancelei os outros shows que faria no resto da América do Sul. Mas acabei indo para uma ilha (na região de Angra dos Reis) com meu filho, foi um paraíso. Anos mais tarde, em outra entrevista, ela disse: "Eu me lembro do sabor do pão de coco que tinha lá. Os lagartos da ilha eram do tamanho de gatos. Eu tive uma fase musical bem brasileira, entre 94 e 95. Tentava entender como um país do segundo mundo, além da Islândia, lidava com a tradição da orquestração alemã e francesa de cordas". Na entrevista para O Globo, ela contou a Milton que esse contato com uma rotina simples, é uma das inspirações para sua música: "Para mim, as canções funcionam como uma salvação. Coisas que não consigo dizer na vida real estão presentes nas minhas faixas. Os seres humanos são muito confusos, prefiro isso para me comunicar". Apesar de compor bastante, não costuma trabalha sobre pressão e, naquele momento, ainda achava muito cedo para pensar em lançar um próximo disco. 

Sobre o assunto, Milton disse a Björk: "Já atendi a muitos pedidos de última hora. Foi o caso da trilha sonora que fiz para "A Terceira Margem do Rio". Nelson (Pereira dos Santos) me pediu, me deu três dias, e consegui fazer tudo em cinco". Aproveitando o tema, a islandesa satisfez uma grande curiosidade: "Sempre quis saber como você escreveu 'Travessia'". Ele respondeu: "Eu estava em São Paulo e assim que fiz a composição, percebi que esta era uma música que não poderia ser letrada por mim nem pelo meu parceiro habitual na época, o Márcio Borges. Mandei uma fita para Fernando Brant, em Belo Horizonte, e ele, que nunca tinha escrito uma letra de música, achou que eu estava louco. Um ano depois, nos encontramos e vi que ele estava com um papel na mão. Acabou me passando a letra e foi se esconder. Mas ela estava perfeita, não tive que mexer numa vírgula sequer. A partir daí, Fernando se tornou um dos meus principais parceiros".

Fotos: Márcia Foletto (1998)

Do nascimento de "Travessia", o assunto passou para Eumir Deodato. Graças ao trabalho com o arranjador, Björk conheceu mais da música de Milton: "Eumir me contou que tinha uma formação clássica europeia, e que muito do impacto do trabalho de vocês dois é decorrente da batalha entre essa formação com a sua, que é mais sanguínea, de músico das ruas". Milton, modesto e tímido, concordou, mas a história não é bem assim:

Ele pode não ter passado pelos conservatórios de música, mas não era um ingênuo. Na época do encontro com Deodato, em 1967, já tinha uma sólida bagagem cultural. Além de tocar nos bares da vida, adorava e conhecia a bossa nova de Antonio Carlos Jobim e o jazz de Miles Davis; e arriscou sua primeira composição, em parceria com Márcio Borges, depois de sair deslumbrado de uma sessão de "Jules et Jim - Uma mulher para dois", do cineasta François Truffant. Ao conhecer esta nova versão, relatada pelo repórter, e confirmada por Milton, Björk respondeu: "Bom, isso foi o que Eumir me contou. É típico dele". Brincando, Milton comentou: "Eumir é daqueles que andam com o nariz empinado. Ele é muito talentoso, e também muito convencido", disse rindo. Brincadeiras à parte, Björk continuou: "Eumir foi a um show meu em Nova York. Depois, enviei sete arranjos que fiz nos teclados e ele transcreveu para as cordas. Foi muito generoso e me ensinou bastante, eu não sabia nada sobre cordas".

O novo encontro: Milton Nascimento tietou Björk nos bastidores do Tim Festival 2007. Ele encontrou a cantora no camarim e pediu para tirar fotos ao seu lado: “Foi um presente que eu me dei no meu aniversário", disse o artista em seu site oficial. Naquele dia, ele completava 64 anos de idade.

Foto: Divulgação (2007)

Foto: Divulgação (2007)

E como podemos falar de Björk no Brasil sem lembrar da famosa regravação de "Travessia", sucesso de Milton Nascimento, que a artista canta em português!? A música deveria ter sido incluída na compilação "Red Hot+Rio", o que não aconteceu. 




Fotos: Jean Azevêdo (1998)

Agradecemos ao fã Jean Azevêdo por nos ter enviado os recortes de jornais da época, e as fotos acima da visita de Björk ao Rio de Janeiro. Em mensagem para nossa equipe, ele contou mais sobre a experiência de assistir a Homogenic Tour. Naquela época, a segurança em shows era pesada quanto ao registro das apresentações por membros da plateia: "Eu estava nesse show e tirei só umas três fotos, pois o segurança me ameaçou dizendo que tomaria minha câmera. Consegui fazer esses registros, mas apesar de estar na grade ficaram meio escuros". Assim como João Elias de Brito (saiba mais clicando AQUI), Jean é também outro admirador brasileiro que já chegou a presentear a artista:

"O meu pai trabalhava no Metropolitan, e me levou até os bastidores para tentar conhecer a Björk, mas claro, fui barrado e não pude entrar no camarim. Eu tinha levado um pequeno cordão e queria dá-lo para ela, mas como não pude, entreguei na mão de uma assessora, que me disse que lhe daria. Anos depois, vendo as fotos da turnê (de shows após o do Rio), percebi que ela usava exatamente esse cordão. Sei que parece muita viagem minha, mas lembro bem do pingente de golfinho. E vindo da Björk, não acho que seja algo impossível".

O presente aparece, inclusive, no DVD oficial Live in Cambridge, gravado quatro meses depois: 


PROCURA-SE: Você também esteve no show no Rio? Sabemos do quanto era incomum a presença de câmeras durante os shows daquela época, mas caso você tenha algum registro (fotos, recortes de jornais, fitas com reportagens na TV e entrevistas), assim como o Jean, por favor nos envie! O material dessa apresentação histórica, infelizmente, é bem escasso na internet.

Fãs mais antigos, relatam que reportagens e até entrevistas com a cantora foram exibidas na MTV Brasil na época. Graças ao canal no YouTube TVBUG, finalmente agora podemos assistir ao vídeo da entrevista que ela concedeu ao Fantástico (Rede Globo) no Japão, antes de desembarcar no Brasil naquele ano.



Ingresso/Poster do Close-Up Planet (Arquivo: Jean Azevêdo, 1998)

Além da apresentação no Rio, um outro show estava agendado para acontecer em São Paulo. O compromisso foi cancelado, pois o palco do festival desabou. Quer saber mais? Reunimos em uma outra matéria, histórias sobre todas as vindas de Björk ao Brasil. Para conferir, clique AQUI

Não deixe de assistir aos episódios legendados da nossa websérie, que contam em detalhes todas as etapas da carreira da islandesa. Os capítulos já disponíveis, podem ser encontrados AQUI


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1996 - Post Tour:
SETLIST:  Army of Me One Day The Modern Things Venus as a Boy You've Been Flirting Again Isobel Possibly Maybe I Go Humble Big Time Sensuality Hyperballad Human Behaviour The Anchor Song I Miss You Crying Violently Happy It's Oh So Quiet.
Em outubro de 1996, Björk finalmente desembarcou no Brasil, com shows marcados em São Paulo (12/10/96) e no Rio de Janeiro (13/10/96), como parte do Free Jazz Festival.





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Franzindo a testa, esfregando o rosto a todo o momento, cutucando o nariz, fazendo alongamentos no pescoço. É perceptível que, longe de ser alguém de outro mundo, é uma pessoa extremamente pé no chão". 
- Jornalista responsável por matéria publicada na Raygun Magazine, setembro de 1997. 
Clique AQUI e confira diversas entrevistas legendadas de Björk.