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Björk encanta o México com o espetáculo Cornucopia

Foto: Santiago Felipe

Com a virtude da ignorância, compareci ao show Cornucopia no México, com direção da argentina Lucrecia Martel. Eu não procurei nada sobre a apresentação, nem mesmo o enredo ou o setlist. Fazia muito tempo desde que eu tinha experimentado a emoção quase que infantil de não saber com certeza no que eu estava me metendo.

Uma enorme tenda foi montada no Parque Bicentenário para uma ocasião tão especial, reunindo 4 mil pessoas por noite. Um lugar no qual a artista islandesa organizou até os mínimos detalhes para criar um espetáculo audiovisual que alude à razão tanto quanto aos sentimentos.

Foto: Ocesa/Site Sopitas

A experiência sensorial através da disposição do som do show dá ao público uma sensação de intimidade, algo tão caloroso. De um lado vem a doçura das flautas transversais do septeto feminino Viibra, do outro era possível notar o deslizar dos dedos da harpista Ruth Bennett. Tudo isso ia de encontro com o coral mexicano Staccato, Manu DelagoBergur Pórisson e é claro, a linda voz de Björk. Na ambientação da performance, o público apreciou as projeções do mundo de Utopia, que em determinados momentos parecem pinturas a óleo. Todos no palco dançavam com a graça de uma montagem shakespeariana; não como ninfos, mas personagens alegres representando a natureza. Ao final de quase todas as músicas, a artista aplaudia e fazia uma reverência aos membros de sua equipe.



Foto: Santiago Felipe

A cantora interpreta as canções com clareza, sem a ganância de alcançar notas mais altas. O roteiro não teve alterações nas faixas em relação à etapa em Nova York, boa parte delas são do disco mais recente. De novidade, ela agora canta Blissing Me sozinha, usa um novo vestido de Balmain, máscara de James Merry e peruca de Shoplifter. Na minha cabeça, todo o sentimento de Cornucopia envolveu todos os cantos da tenda. De ruim mesmo só parte da plateia insistindo em usar celulares para gravar e tirar fotos da apresentação, especialmente durante hits como Isobel, mesmo que antes do show começar um aviso no telão alertasse do quão incômodo isso seria, já que Björk não gosta e além disso sente que o público ficaria distraído. Em alguns momentos, a equipe de segurança teve de intervir e pedir que parassem. Isso se repetiu algumas vezes. Outro aspecto negativo foram algumas conversas paralelas do público durante o set, e indivíduos chegando após o início do espetáculo.

Foto: Santiago Felipe

Quanto ao tema do show, não se trata apenas de imaginar um futuro, mas de buscar meios de alcançá-los. Aliás, tudo parece responder diretamente à música, o ponto principal do espetáculo (Confira detalhes disso AQUI). Não é até o final da apresentação que a artista convida todos para se levantarem de seus assentos. Depois de quase duas horas, ela se mostra alguém cheia de sabedoria e com uma certa uma visão premonitória. Seu visual tão divertido e fantástico provoca tanto a nossa imaginação! Ela nos explica através de seu trabalho os benefícios de se buscar a utopia, gerando consciência e nos fazendo entender que talvez não a tenhamos agora, mas que devemos continuar a tentar achá-la. Todos aplaudiam extasiados com o que viram. Cada centavo do ingresso (caro) parecia ter valido a pena. E ela encerrou com um "Graaaciaaass. Desculpe, meu espanhol é muito ruim".

Foto: Santiago Felipe

Entrevista com membros do coral Staccato: 

Algumas semanas antes do início da residência da islandesa no México, um amigo de Manuel Camilli, um dos integrantes do coral Staccato da universidade UNAM, o convidou para participar dos shows. Durante a turnê de Cornucopia, a intenção de Björk é se apresentar ao lado de grupos locais. Para o site Marvin MX, ele disse ter ficado surpreso ao ensaiar o repertório de uma artista que sempre respeitou, mas que não se considerava um fã incondicional. Ele então confessa que é um prazer estar ao lado dela no palco, e fala dos desafios de cantar as canções Body Memory e Hidden Place:

“A primeira que mencionei exige mais, tecnicamente falando, porque o coral não faz a parte da letra, e por isso temos que transmitir mais emoção. Aliás, essa questão climática é do que essa música fala. Já a outra é também muito especial, uma vez que é a cappella. É praticamente somente a gente e a Björk". 

Foto: Santiago Felipe

O primeiro encontro com a lenda: Dos membros do coral mexicano, Manuel acredita que tenha sido o primeiro a conversar com a cantora. Enquanto todos estavam focados em olhar para o palco, ele observava uma das portas laterais da tenda montada no Parque Bicentenário. Foi quando ele a viu entrar. No look, Björk usava grampos enormes no cabelo, lenço preto no pescoço; e vestido e tênis de cor rosa neon. Ela notou a presença dele e se aproximou para cumprimentá-lo: “Na verdade, a sola do sapato dela estava solta, mas ela não se importava. Você ficaria surpreso com o quão humilde e simples Björk é. É por isso que não gosta de ninguém pedindo fotos e autógrafos. Está claro que ela tem a ideia de que somos todos iguais". 

Manuel garante que o coral até a fez chorar, devido ao modo comovente com o qual tocaram suas músicas, e que ela pediu desculpas a todos por ter se atrasado para o ensaio por estar esperando por comida: "Para que Björk teria que se desculpar conosco? Ela é super gentil!".

Em publicação do Sopitas, Odilón Chávez, o diretor do coral, complementou: "Olha, esta é a segunda vez que trabalho com a Björk. Desta vez, eles já me ligaram diretamente de sua produção, pois dois anos atrás quando ela veio ao México com sua turnê acústica, que não era nada além dela com uma orquestra de cordas, me procuraram para montar, ensaiar e dirigir a sinfônica. O resultado foi muito bom! Queriam que agora eu fizesse basicamente a mesma coisa, mas com o coral. Tudo funcionou de uma forma muito diferente. Em 2017, não me pediram um grupo já existente, me disseram para construí-lo. Mas para Cornucopia queriam um já pronto, mas não com a intenção de apenas juntar vozes. A única especificação era que fosse um coral de jovens ou estudantes. Foi assim que os consegui o Staccato, que é o coro estudantil da UNAM, e bom, tem sido maravilhoso! Os garotos estão super animados, eles realmente queriam participar, muitos deles são fãs da Björk, então dá para imaginar tamanha alegria dos envolvidos. Trabalhei em parceria com o maestro Marco Antonio Ugalde

Quando nos deparamos com alguém como Björk, que é icônica, líder de opinião, artista pura, que se dedica a todo trabalho que faz, tudo surge naturalmente. Ela não está com a atenção voltada para o aspecto das vendas. Ela nos diz o quer ouvir, é assim sua vida. Quando fomos apresentados há dois anos, cheguei em casa e contei para a minha filha: "O que você acha disso (nos arranjos)? Eu me saí muito bem, mas a única má notícia é que acho que a Björk não gostou". Mas não era nada disso, hahaha. No dia seguinte, terminamos os ensaios com a orquestra e ela se aproximou muito gentilmente e me perguntou se poderíamos tomar um café depois do almoço. Estava ela, seu diretor musical da época, e um outro grande maestro. Começamos a conversar e eu disse: "Bom, com certeza você vai querer ver as coisas do ensaio". Mas não, acabamos falando de seus filhos, e eu da minha filha. Ela me disse onde estavam passando as férias e tudo mais. Acabou por ser uma pessoa muito próxima e humana. É aí que percebemos que os maiores artistas são, na verdade, as pessoas mais simples. 

E em 2019, depois de tanto tempo, pensei que não iria me reconhecer, já que não nos víamos desde então, e pelo contrário. A encontrei no corredor e ela me cumprimentou. Obviamente, ela estava acompanhada de uma equipe de segurança, porque é uma grande artista, mas a experiência foi linda. Ela queria saber sobre mim e minha filha; e me disse: "Você se lembra de quando conversamos sobre nossos filhos naquela ocasião?". Ela até me apresentou sua filha que também estava presente, que é super bonita".

Os bastidores do show Vulnicura Strings no México, em 2017
(Foto: Santiago Felipe)

A genialidade musical: "Vou lhes falar uma coisa que pensei na primeira vez que vi notícias sobre o novo show. Realmente, a primeira coisa que saiu foi: "Essa mulher não é deste planeta e esse espetáculo é do ano 3000". Gente, a Björk conhece música. Entrou na escola de música na Islândia aos 6 anos. Então alguém já dessa idade envolvido em música, quando chega aos 15-16 já é multi-instrumentista, com uma habilidade mais desenvolvida. Não estou dizendo que têm mais talento, mas sim que suas habilidades são mais desenvolvidas. Aqui e em muitas partes do mundo, começamos nisso muito mais tarde. Quando iniciamos mais cedo são por aulas particulares ou por contra própria.

O que sinto artisticamente sobre Björk é que ela sabe exatamente o que quer, que não está tentando parecer boa para ninguém. Ela não tem esses laços, sabe muito bem o que quer dizer. É uma pessoa que sabe delegar. Por exemplo, em Cornucopia no México, o show já começa com o coral mexicano cantando antes dela, como uma prévia. Isso é algo que ela queria ouvir para aprovar e decidir se iria entrar ou não no set, mas acabou tendo um problema no avião e também chegou um pouco doente, então não teve a oportunidade de conferir previamente. Mas James Merry, que cria as máscaras que ela usa e é um ótimo sujeito, pôde escutá-los. E ele aprovou! Ela confia muito em sua equipe, faz constantemente perguntas a eles. Além de ser uma mulher bastante criativa e com um objetivo muito claro, tem técnica. Por exemplo, no meio dos ensaios de Vulnicura Strings, ela ouviu uma nota ligeiramente baixa no violoncelo. Ela veio até mim com a partitura na mão e me disse: "Ei, o violoncelo está um pouco baixo, certo? Não sei se na 3º o 4º nota". Eu fiquei: "Caralho, ela sabe de tudo!". É quando agradecemos por trabalhar com gente tão bem preparada! 

Cornucopia é uma experiência imperdível que todos nós devíamos assistir. Existem concertos que têm uma mensagem e uma jornada, e este é um deles. É projetado de ponta a ponta, não há pontos intermediários ou soltos. É um caminho perfeito! Além da parte musical, traz uma mensagem muito positiva. Este é um show que está promovendo consciência para o planeta, para o indivíduo como tal, acima de corporações e governos. Isso me parece ser de grande valor. Aqui não há nacionalidades, somos uma equipe com uma mensagem global.

Foi uma experiência diferente e interessante. Nunca havíamos participado do show de uma cantora, muito menos de alguém como Björk. Embora a equipe de segurança tenha nos dito que não podíamos conversar com ela (fomos proibidos de ficar com celulares na mão), quando ela se aproximou para nos dar algumas indicações da apresentação (coisas técnicas e anotações), se comportou muito gentilmente e, antes do primeiro show, tirou uma foto conosco. Foi um trabalho intenso e exaustivo, mas para todo o coral foi interessante".


Segundo a imprensa local, Björk esteve trabalhando em novas canções no hotel em que se hospedou no México. O show do dia 30 de agosto, o último da temporada e que foi programado pouquíssimos dias antes da chegada da artista, contou com preços mais baratos. De acordo com o site El Universal, a redução foi de 10 mil pesos para menos de 2 mil pesos. Outro grande diferencial foi a ausência de cadeiras. Todos da plateia puderam vê-la mais de perto e curtir as canções de pé.

Próxima etapa: Grandes arenas na Bélgica (13/11), Luxemburgo (16/11), Inglaterra (19/11), Escócia (25/11), Irlanda (28/11), Noruega (02/12), Dinamarca (05/12) e Suécia (08/11).

Fotos: Santiago Felipe

Textos (adaptados): Aldo Mejía, José Carlos López FigueroaAlejandra Torales e Nayeli Ramírez Maya (Sites: Marvin MX, El Heraldo de Mexico e Sopitas)



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