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A linda relação de Björk e Þorgerður Ingólfsdóttir, lendas da música islandesa

Foto: Divulgação. 

Em 1981, Björk Guðmundsdóttir, de apenas 16 anos, formou o grupo punk Tappi Tíkarrass. Imagens de uma das primeiras apresentações da banda, hoje estão em exposição em um museu na Islândia, bem no centro de Reykjavík. Nas fotos, Björk aparece em frente ao microfone vestida como uma boneca de porcelana. As sementes do punk foram plantadas no país alguns anos antes, quando The Stranglers atraiu 4.000 pessoas - cerca de 2% da população na época - a casa de shows Laugardalshöll, abrindo espaço para uma subcultura com a qual dezenas de jovens encontraram sua identidade. 


Enquanto o Tappi Tíkarrass atuava na cena underground, Björk começou a cantar com um outro grupo de jovens. O coral Hamrahlíð foi fundado em 1982 por Þorgerður Ingólfsdóttir, que continua sendo sua maestrina até hoje. Com muita dedicação, ela formou milhares de musicistas na região, conquistando o respeito e a admiração de seus conterrâneos, bem como de outras pessoas em várias partes do mundo. 

Conhecido pela energia juvenil movida pela sede da descoberta, em 2019 o coral Hamrahlíð saiu em turnê com Björk no show Cornucopia, ao lado de Þorgerður. No início de dezembro, foi lançado o álbum Come And Be Joyful, uma coleção de canções tradicionais e também duas regravações da artista, agora também marcadas pelas vozes incríveis do projeto. No ano de 2017, eles já haviam participado do disco Utopia

A jornalista Hannah Ongley conversou com as duas lendas islandesas. O bate-papo foi publicado no Document Journal


Hannah Ongley: Vocês se conhecem há muito tempo. Por que decidiram criar este projeto só agora?

Björk: Eu acredito que existe um equilíbrio delicado na química entre as pessoas com quem trabalho em cada álbum. Tento balancear coisas de grande e menor personalidade, se é que isso faz algum sentido. Utopia foi quase como um dueto entre mim e a Arca. Então, quando chegou a hora de criar o show Cornucopia, fiz de tudo. Inicialmente, gravei todos os arranjos de flauta, para depois ouvi-los com calma. Tínhamos 12 flautistas, mas como não se podia entender com clareza todos os "personagens", optei por deixar apenas 7. Daí, tentei escrever solos para cada uma delas, para destacar essas histórias, mas ainda assim não me parecia o certo, para ser honesta. Assim, no final, entendi que também precisávamos de um coral que tivesse personalidade. E, para mim, esse grupo é o Hamrahlíð.

Claro, isso pode soar até como uma contradição, porque às vezes são 60 pessoas participando. Mas, como regente, Þorgerður trouxe tanta paixão, convicção, pureza e, principalmente, esperança, que eu acho que é um fator muito importante para um álbum chamado Utopia! [risos]. Esse questionamento precisava estar ali. Quanto mais eu viajo e quanto mais velha fico, me associo mais e mais à Islândia. São talvez 1.100 anos de: "Se não tivermos esperança, provavelmente morreremos", sabe? Portanto, nossa 'paleta' com relação a isso é muito forte.

Þorgerður Ingólfsdóttir: Foi incrível receber o convite: "Você estaria disposta a fazer uma peça musical para o Utopia?". Uma experiência absolutamente fantástica! Quando Björk entrou em nossa sala de ensaio pela primeira vez, no processo criativo de Body Memory, ela explicou o motivo de ter nos chamado, dizendo: "É como se o som desse coral estivesse vindo da natureza islandesa". Não sei se você já visitou a Islândia, mas ainda é uma terra de pureza. A natureza aqui é muito "nua" e vulnerável. Achei tão lindo a forma como ela falou sobre isso naquele dia. Foi de um jeito tão visual, que o que queríamos era realmente fazer parte daquele ambiente. Tínhamos uma sensação maravilhosa de que estávamos participando de algo muito grandioso. 

Hannah: Como você vê a relação entre as paisagens naturais e cruas da Islândia, com os elementos tecnológicos das colaborações nos shows ao vivo de Utopia e Cornucopia?

Björk: Pude entender melhor a minha relação com a tecnologia, quando eu soube que a palavra techno em grego significa 'artesanato', algo que eu realmente amo. Eu costumava tricotar bastante quando era criança. Aliás, neste momento estou em uma sala rodeada de bordados, em um lindo Café. Eu vejo a tecnologia, a música e as animações digitais dessa forma, é o mesmo espírito. São seres humanos aprendendo a lidar com ferramentas. Como eu já disse diversas vezes, não tenho medo de que isso não tenha alma. Se a gente quiser que esses trabalhos tenham esse elemento, somos nós que precisamos adicioná-lo. Se não colocarmos alma, então não haverá. Essa é a questão para quem cria um objeto para a música, não o "pensamento" do próprio objeto. 

Não acredito que a música techno seja necessariamente urbana, pois eu acho que traz uma natureza muito crua. Quando vou acampar ou fazer caminhadas no meio da Islândia, tenho essa ideia em mim como uma energia muito presente. Às vezes, ouço música calma na cidade, depois quando estou indo em direção à natureza, escuto canções mais altas no carro. Alguém como Arvo Pärt, um som bastante "puro e severo"; ou batidas bem malucas, que soam como uma geleira ou algo assim. Na era hippie dos anos 70, tínhamos aquela narrativa da volta à natureza, algo muito forte na civilização ocidental. Era uma questão de sair das cidades, tocar violão e usar uma flor no cabelo. Não julgo, pois é muito lindo, mas na Islândia a natureza não tem qualquer relação com sentimentalismo. É muito perigosa, intensa, crua e feroz! [risos]. Gosto de me referir a isso não como uma volta à natureza, mas como o ato de estar diante dela.

Hannah: Eu adoraria que você falasse um pouco sobre a função da educação musical de um coral. De que forma a perfeição técnica pode complementar e até encorajar a criatividade artística livre? E o que essa experiência pode ensinar aos jovens sobre assuntos que vão além da música?

Þorgerður: O objetivo principal sempre foi abrir uma espécie de "janela", para que os jovens pudessem conhecer todos os tipos de música. É claro que nas canções que estudamos em um coral, temos várias acapellas e diversos mestres barrocos, mas desde o princípio esse trabalho busca introduzi-los a diferentes períodos, estilos, e cada vez mais músicas contemporâneas. A maioria de nossos maiores compositores aqui na Islândia, escreveram para o coral e também o usaram como uma oficina experimental em suas obras. Provavelmente, isso não teria acontecido se fosse sempre formado por indivíduos de meia-idade, porque é comum que a certa altura da vida alguns percam a vontade de descobrir algo novo, que fiquem cada vez mais conservadores, querendo apenas cantar músicas antigas. 

Para descobrir o que os jovens gostam de cantar, basta perguntar a eles. Você pode até pensar: "Ah, eles só vão querer aquilo que é chamado de música para os jovens de hoje". Mas o que realmente acontece é que muitas vezes, fico surpresa que mencionem obras de Bach como algo que querem interpretar. Esses jovens são igualmente capazes de sugerir peças contemporâneas muito difíceis! É fácil que muitos imaginem que todo mundo precisaria ter uma ótima audição, bem como uma bela leitura visual, para entender essas obras, mas na verdade eles fazem isso com toda a alegria. Tudo isso é sobre manter a mente aberta, sobre estar atento ao que está acontecendo, àquilo que não está nas manchetes. Existem muitas coisas que os corações jovens sentem. Encontrar o repertório sempre foi uma das minhas maiores tarefas, mas isso me dá muita alegria. 

Björk: Durante décadas, Þorgerður encomendou para as aulas do coral, as mais importantes peças musicais dos compositores islandeses. É um arquivo muito necessário, que existirá para sempre. São inúmeras gravações, coisas com as quais fui criada. As pessoas das próximas gerações na Islândia, serão formadas por esses discos e por Þorgerður, pois tudo ali é simplesmente perfeito. 

Hannah: Tem algo meio folk nesse processo que vocês mencionaram, com relação a transmissão dessa história musical. Existe alguma música tradicional islandesa em Come And Be Joyful, que é particularmente especial para você? 

Þorgerður: Já fizemos vários CDs! Talvez, tenhamos um tema específico em cada um deles: música islandesa contemporânea, folclore, um compositor especial e etc. Neste novo, são apenas as gravações dos shows de Cornucopia. Tínhamos 20 minutos antes de cada espetáculo, fazíamos o ato de abertura no palco, na intenção de "esquentar" o público. As luzes eram ligadas e, de repente, aparecia o coral cantando canções da Islândia, vestindo trajes nacionais. Provavelmente, isso foi muito estranho para alguns na plateia, mas quem sabe tenha criado um pequeno ambiente sonoro, no qual experimentaram um pouco do talento e da atmosfera do nosso país. Penso que nos primeiros minutos, todos ficavam meio chocados, mas em seguida passavam a se sentir maravilhados com essa aura da Islândia. E então a Björk subia ao palco, em um cenário completamente novo, ao lado de todos os instrumentos e do som construído para o show, diferentes da acapella, com a energia excelente das músicas dela. Acredito que as pessoas então já estavam prontas para aquilo. Foi maravilhoso! 

Björk: Capturar a imaginação das pessoas quando elas esperam por algo diferente, é uma habilidade. É como um truque de mágica! Um desafio como esse é muito emocionante. Pessoalmente, adoro fazer música com tambores de água, e depois uma só usando a voz, e em seguida uma repleta de batidas techno e luzes no palco, que vem antes de uma outra também em acapella. Eu realmente amo setlists dinâmicos [risos]. Na verdade, das poucas vezes em que faço DJsets, o que mais gosto é, por exemplo, misturar sons de Bangladesh com música techno, folk islandês... Mas não se trata só do caos, tem um tema por trás, que é basicamente uma cornucópia: a ideia de que existe tanta música rica nesse mundo; que existe uma razão para celebrarmos. 

Na turnê Cornucopia, nós dissemos: "Vocês podem vir para Nova York em uma ou duas semanas?". 60 pessoas de um jovem coral pegaram um avião, e fizeram as provas finais da escola na embaixada. O espírito que eles trouxeram para o palco, como um catalisador! Foi tão lindo ver Þorgerður em ação, unindo tudo aquilo, entrando em um avião, tipo: "Ok, vamos fazer isso acontecer!". E ainda tínhamos muitos problemas técnicos, que até então não havíamos resolvido. Eram vários instrumentos personalizados: uma flauta circular em tubos de órgão enormes sobrevoando em nossas cabeças no palco, a cabine de reverb e a harpa. Foram poucas horas para a passagem de som, e ainda precisávamos colocar microfones em tudo [risos]. Ainda não sei como fizemos isso. Um milagre muito louco! 

Hannah: Existe alguma memória do coral que, para você, teve grande destaque? Uma experiência inicial, um momento no qual percebeu a magia de tudo isso. 

Björk: Devo dizer que um dos meus momentos favoritos, foi quando cantei aos 16 anos em uma apresentação com eles. Foi extraordinário! Eram 1.000 pessoas no palco, executando uma peça de quatro horas de duração. Na verdade, eu até cometi um erro técnico, que acredito que esteja em um dos álbuns. Entrei muito cedo em uma nota, uma colcheia no meio de um contralto. Þorgerður veio até mim e me disse: "Que belo erro foi esse!". Ela ainda foi capaz de me fazer sentir bem sobre isso. Foi muito doce! Eu era apenas uma entre as 1.000 pessoas daquele grupo, e ninguém sabia quem eu era naquele momento. Essa foi uma experiência extraordinária. 

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